Queda do ministro de Minas e Energia é parte do vale-tudo de Bolsonaro por reeleição

Gasoline prices are displayed at a Petrobras gas station in Rio de Janeiro, Brazil April 8, 2022. REUTERS/Ricardo Moraes
Preço da gasolina virou barreira para Bolsonaro na busca pela reeleição. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Menos de um mês após José Mauro Ferreira Coelho assumir o comando da Petrobras, Jair Bolsonaro vociferou, na quinta-feira (5/5), contra os lucros considerados abusivos da petroleira.

A empresa havia anunciado no mesmo dia ganhos de R$ 44,5 bilhões no primeiro trimestre do ano.

“Estupro” foi o nome usado pelo presidente.

Ele discursou em tom de ameaça: “não pode mais aumentar o preço dos combustíveis, isso é um crime”.

A ordem, como se vê, não foi obedecida.

O diesel da Petrobras foi reajustado cinco dias depois em 8,87%.

Bolsonaro, que tinha acabado de trocar o comando da estatal, decidiu derrubar agora o chefe da política energética de seu governo: o ministro de Minas e Energia, almirante de esquadra Bento Albuquerque.

Em seu lugar assume o economista ultra-bolsonarista Adolfo Sachsida.

Para o coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), Deyvid Bacelar, Bolsonaro transformou Albuquerque em "bode expiatório para uma decisão que cabe somente a ele, que é mudar a perversa política de preços dos combustíveis”.

“Bolsonaro finge não ter responsabilidade pelo preço dos combustíveis. A União é a acionista controladora da Petrobrás e se o presidente da República quisesse, poderia mudar a política de preço de paridade de importação (PPI). O PPI não é lei; é decisão do Executivo”, disse Bacelar, em nota divulgada para a imprensa.

Mesmo sem disposição para ir ao cerne do problema, o presidente parece querer ampliar o controle sobre as decisões da petroleira e, se possível, segurar os preços dos combustíveis em pleno ano de eleição –como outros presidentes fizeram anos atrás, agendando dia e hora para a explosão da bomba para depois da votação. Tudo sem mexer nas bases da política de preços, adotada ainda sob Michel Temer.

Bolsonaro tem crescido nas pesquisas de intenção de voto, mas em um ritmo certamente menor do que esperava.

O impacto da inflação, puxada pela alta dos combustíveis, no poder de compra das famílias tem levado o presidente a correr em areia movediça já na largada da campanha.

Em abril, o IPCA (Índice de Preços para Consumidor Amplo) fechou em 1,06%, maior índice para o mês desde 1996. Nos últimos 12 meses a alta acumulada é de 12,13%.

Tudo isso pode transformar em poeira os sinais de retomada, puxada pelos serviços, no primeiro semestre do ano, graças, em parte, à adoção de medidas como liberação de saques do FGTS, a antecipação do 13º do INSS e, claro, o pagamento do Auxílio Brasil. É como lançar água no deserto.

O entorno do presidente quer convencê-lo de que sua dificuldade para conquistar votos no Nordeste, onde o rival Luiz Inácio Lula da Silva mantém vantagem considerável sobre ele, ocorre porque o auxílio é identificado ainda como uma marca petista, que já não governa desde 2016.

Isso explica a ansiedade do presidente com a demora na troca dos cartões do benefício. Os novos viriam com a marca da atual gestão –espera-se que sem o rosto do presidente, número de legenda ou emojis fazendo arminha com a mão.

A mudança só não ocorreu ainda devido a um bate-cabeça entre a Caixa Econômica Federal, responsável por realizar o pagamento, e o Ministério da Cidadania, para decidir quem iria pagar a conta – o custo estimado por cada novo cartão é de R$ 18.

Ao todo, o governo deve desembolsar R$ 130 milhões para remover a marca do Bolsa Família do auxílio e levar os louros pelo programa. Responsabilidade fiscal virou licença poética à sombra de seu Posto Ipiranga.

Bolsonaro tem pressa. Em uma eleição em que só dois candidatos apresentam chances de vitória, a possibilidade de a corrida ser decidida no primeiro turno, levando-se em conta os votos válidos, é considerável. Para quem tem a máquina na mão, não basta crescer nas pesquisas. É preciso largar na frente e manter a dianteira.

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