Queda nos processos e novos protocolos: os impactos da Covid-19 na adoção de crianças no Brasil

Gabriel Melloni
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Adoção tem se adaptado em tempos de Covid-19 (Nastco/Getty Images)
Adoção tem se adaptado em tempos de Covid-19 (Nastco/Getty Images)
  • Brasil registrou queda significativa nos processos de adoção em 2020

  • Autoridades, crianças e candidatos a pais tiveram de se adaptar às novas ferramentas

  • Vídeo tornou-se um aliado para os postulantes conhecerem os jovens

Diogo e Hanna são um casal de 31 anos que deseja aumentar a família. Paulista e capixaba, respectivamente, viram na adoção a chance de “criar uma criança, ajudar a evoluir e aprender com o filho”, como contam.

O pré-cadastro foi feito, o levantamento de documentos e informações veio na sequência, mas chegou a pandemia e, com ela, a “dificuldade de avançar o processo”. A oscilação entre abertura e fechamento da Vara da Infância e da Juventude responsável pelo caso, as incertezas sobre os próximos passos e a dificuldade de comunicação com as autoridades “fizeram o processo demorar um pouco mais”.

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O caso de Diogo e Hanna é apenas um exemplo da transformação que a pandemia causou nas adoções em todo o país. Como tantas outras atividades, o setor sofre com as dúvidas resultantes do vírus e luta para se adaptar a uma realidade na qual os próximos passos são tão incertos quanto os anteriores.

Neste cenário, o número de adoções registrou uma baixa significativa em 2020. De acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça, em 2020 houve redução de 26,4% no número de concessões de sentenças no país, em comparação a 2019: de 3.013 para 2.216.

É difícil garantir que os dados estejam diretamente ligados ao desenrolar do primeiro ano de pandemia no Brasil, mas, para quem atua no setor, não há dúvidas da insegurança causada pelo cenário do vírus.

“As aproximações estão mais lentas, o chamamento das famílias para conhecer crianças está mais lento. A preparação das crianças para adoção, o andamento do judiciário… Tudo isso gera dúvida, até em relação à conexão com o novo filho”, considera a psicóloga Mayra Aiello, mãe via adoção de Maria, de 3 anos, e que desde o início de 2019 exerce também a função de doula de adoção.

Alterações nos processos

Não foi só os pretendentes que a pandemia influenciou. Os serviços diretamente ligados à adoção também tiveram de se reinventar para seguirem funcionando em meio a uma realidade de máscaras, álcool gel e distanciamento social. Tudo para minimizar os riscos a funcionários, crianças e candidatos a pais.

Psicóloga da Vara da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP), Ana Rita explica que “não há novos protocolos” definidos contra a Covid-19 na adoção porque eles “estão sendo construídos diariamente”.

Ana Rita destacou que o distanciamento pode gerar
Ana Rita destacou que o distanciamento pode gerar "perdas" para as crianças - Foto: Reprodução

“A gente começou do zero. No dia em que foi avisado que todos deveriam ir para casa, pensamos: ‘Daqui duas semanas eu volto’. Fizemos um trabalho muito próximo com os serviços de acolhimento para entender como estava cada criança, adolescente, estava se protegendo. Cada um foi usando os recursos próprios para trabalhar. Eu, por exemplo, criei um Skype para o trabalho e pedi para os serviços também criarem, para eu poder falar com as crianças. A gente entendeu que não dava para elas ficarem sem a gente, não podíamos simplesmente sumir”, lembra.

Ana reconhece que o atendimento por vídeo resulta em “perdas” e relata que “isso é colocado” para os juízes. “O virtual inseriu no processo uma informalidade que não faz parte do trabalho. É muito diferente você conversar comigo na sua sala, no seu quarto, na cozinha, de você entrar no fórum, passar pelo segurança, apresentar sua intimação, entrar na minha sala”, aponta. “Para atender criança, aqui (em meu consultório) tenho um espaço lúdico, o recurso de desenho, além do contato mesmo. Isso faz muita diferença.”

“Famílias biológicas estão desprotegidas”

Coordenadora do serviço de acolhimento familiar do Instituto Fazendo História, que atua diretamente no auxílio a crianças em busca de uma nova família, Sara Luvisotto relata o aumento exponencial de crianças em busca de acolhimento. “Não estamos conseguindo dar conta. No momento, não temos nenhuma vaga, e há um monte de criança precisando.”

Sara Luvisotto considerou que as famílias mais vulneráveis estão desprotegidas na pandemia - Foto: Reprodução
Sara Luvisotto considerou que as famílias mais vulneráveis estão desprotegidas na pandemia - Foto: Reprodução

“Acho que as famílias biológicas estão em uma situação de desproteção ainda maior”, considera. “São pessoas em situação de vulnerabilidade e que são a última das prioridades, né? Se antes já vivíamos um período muito difícil para acesso às políticas públicas, a um Bolsa Família, Aluguel Social, agora está impossível. É uma situação muito desesperadora.”

Impacto da tecnologia

Tanto Sara quanto Ana, porém, são unânimes ao exaltar a importância da tecnologia para o encaminhamento dos processos. Não fossem aplicativos e serviços de comunicação por textos, áudios e vídeos, a adaptação dos protocolos seria impossível e muitas adoções ocorridas ao longo do último ano não teriam acontecido.

“O vídeo possibilitou unir os serviços de acolhimento e toda a rede que trabalha nisso. Conseguir fazer no dia a dia uma reunião presencial com todo mundo que acompanha o processo é muito difícil. Hoje, temos no vídeo um facilitador enorme. Conseguimos promover discussões de caso muito ricas. Isso beneficia as crianças diretamente, porque quanto mais articulada a rede estiver, melhor o trabalho acontece”, avalia a psicóloga.

“Para aproximação das crianças para adoção, tínhamos encontros presenciais todos os dias. Mas fomos adaptando isso. A família adotiva manda um vídeo se apresentando para a criança, a gente manda uma filmagem da criança vendo esse vídeo. A família grava outro lendo história, manda um presentinho… A gente vai usando a criatividade”, conta Sara.