Queda de Saigon simbolizou fraqueza dos EUA, mas foi repaginada como ato de heroísmo

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em 10 de abril de 1999, o ex-presidente dos EUA Gerald Ford, à época com 85 anos, comandou uma cerimônia solene no museu que leva seu nome, no estado americano de Michigan.

O objetivo era inusitado: inaugurar a exibição de uma escada de metal.

"Para muitos, ela foi o caminho para sair de um pesadelo, uma porta para algo incomparavelmente melhor. Para outros, será sempre o emblema de uma derrota militar", discursou Ford, presidente entre 1974 e 1977.

A escada é protagonista de uma das fotos mais famosas da Guerra do Vietnã, que mostra uma fila de pessoas tentando fugir de helicóptero da embaixada americana na cidade de Saigon, atual Ho Chi Minh, em abril de 1975.

Os degraus levavam ao terraço do prédio, de onde americanos e alguns vietnamitas aliados foram resgatados nas últimas horas antes da chegada das tropas comunistas do norte à cidade.

A humilhação imposta aos americanos, cristalizada na imagem, ajudou a definir Ford como um presidente fraco e sepultou qualquer chance de reeleição que ele poderia ter no ano seguinte, quando viria a perder para o democrata Jimmy Carter.

"A passagem do tempo não diminuiu a dor daqueles dias, os mais tristes de minha vida pública", afirmou Ford, com evidente melancolia, naquela cerimônia no museu, sete anos antes de sua morte, em 2006, aos 93 anos.

As circunstâncias da queda de Saigon geraram comparações nos últimos dias com uma nova humilhação imposta aos americanos após a tomada-relâmpago de Cabul, no Afeganistão, pelo Taleban.

Desta vez, as imagens icônicas envolvem aviões, em vez de helicópteros. Primeiro, a multidão cercando um enorme cargueiro que se preparava para decolar da capital afegã, com pessoas literalmente agarradas à fuselagem.

Depois, pontinhos negros despencando da aeronave em pleno voo --cenas que trouxeram lembranças desconfortáveis de pessoas que pularam das Torres Gêmeas em chamas após o atentado de 11 de setembro de 2001, patrocinado pelo mesmo grupo que agora pôs os EUA para correr do Afeganistão.

Por último, a cena de centenas de afegãos apinhados dentro de um avião militar americano rumo ao Qatar, fugindo do grupo fundamentalista islâmico.

"Fazer a relação entre as quedas de Cabul e Saigon é inevitável. As semelhanças são óbvias, mesmo que não sejam situações totalmente comparáveis", diz o historiador Jan K. Herman, do Instituto Naval Americano, autor de "The Lucky Few" (os poucos sortudos), sobre a fuga dos americanos após a queda de Saigon.

"O que importa é que as pessoas agora estão vendo as imagens do Afeganistão e dizendo: 'Acho que já vi isso em algum lugar'. Sim, viram no Vietnã."

Segundo Herman, em certos aspectos a retirada americana do Vietnã nos anos 1970 foi um pouco mais organizada, ou menos caótica, do que a debandada do solo afegão nesta semana.

A principal razão, para o historiador, está no fato de que o antigo Exército do Vietnã do Sul lutou de forma vigorosa contra os comunistas, ao contrário dos militares afegãos. "No Vietnã, o Exército não derreteu da forma como vimos agora."

Nos dois casos, afirma o historiador, as autoridades americanas lidaram com um dilema, já que antecipar a saída poderia gerar uma situação de pânico e favorecer o avanço inimigo.

Também houve boa dose de dissimulação. No Vietnã, os EUA até o último momento insistiram que a guerra poderia ser ganha, apesar dos avanços do inimigo. Situação oposta à do Afeganistão, em que simplesmente abandonaram o país.

O planejamento para a evacuação de Saigon começou discretamente no início de março de 1975, cerca de dois meses antes do dia fatal da queda da cidade. Diversos civis foram gradualmente retirados em voos para países vizinhos.

A fase final da operação, batizada de Vento Frequente, só foi deflagrada na véspera da chegada dos comunistas. Resultou na retirada de 7.000 pessoas, a maioria delas levada por helicópteros para navios da Marinha americana ancorados na costa do país.

O último grupo deixou a embaixada americana poucas horas antes da tomada da cidade, em 30 de abril de 1975, no capítulo que encerrou oficialmente a Guerra do Vietnã.

Nos EUA, muitos tentaram amenizar o impacto da derrota tentando retratar a operação, nos anos seguintes, como um último ato de heroísmo e bravura, em um contexto de derrota militar.

Como registrou Ford na solenidade de 1999: "Ninguém pode duvidar do idealismo daqueles bravos pilotos de helicóptero, que voaram missões sem parar por 18 horas, desviando de fogo incessante de atiradores para conseguir pousar no terraço da embaixada. Eles são os verdadeiros heróis".

Essa nova roupagem não evitou que a fuga de Saigon fosse vista como um fracasso histórico, e um símbolo claro de uma guerra perdida por um presidente fraco.

Para o historiador Herman, o mesmo pode acontecer com Joe Biden futuramente. O democrata será criticado por dois motivos: em primeiro lugar, por não ter previsto a possibilidade de que o avanço do Taleban fosse tão rápido. "No mínimo, a inteligência que os EUA tinham era bastante deficiente", afirma o historiador.

Além disso, segundo ele, ninguém parece ter se importado em se debruçar sobre o passado. "Se alguém tivesse estudado o que aconteceu no Vietnã em 1975, teria feito planos de contingência para um cenário em que a capital cairia muito mais rápido do que o imaginado."

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