Internações de crianças por problemas respiratórios dobraram em estados afetados pelas queimadas na Amazônia

A fumaça das queimadas na Amazônia agravou os problemas respiratórios em crianças (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

RESUMO DA NOTÍCIA

  • Em 6 meses, SUS registrou 30 mil internações infantis nos estados da Amazônia Legal

  • Estudo aponta que morar perto das queimadas aumenta em até 36% o risco de internação por problemas respiratórios

Entre janeiro e junho deste ano, o SUS registrou 30.546 hospitalizações de crianças com problemas respiratórios nos nove estados que fazem parte da Amazônia Legal. Foram 5 mil internações por mês – o dobro da quantidade prevista para o período nos municípios afetados pela fumaça das queimadas.

Os dados vêm de um estudo da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) publicado nesta quarta-feira (2), que constata que morar em uma cidade próxima aos focos de incêndio aumenta em até 36% a chance de internação por problemas no aparelho respiratório.

Os pesquisadores ressaltam que esse não é, necessariamente, o número de pacientes, já que algumas das crianças podem ter sido hospitalizadas mais de uma vez nesses seis meses. Eles explicam também que os dados são preliminares, e que as estatísticas podem aumentar ainda mais quando todas as internações do período forem computadas.

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Em cinco estados, houve um aumento nas mortes de crianças por complicações respiratórias. Rondônia foi o estado que apresentou o maior aumento nessa estatística: foram 2.398 mortes a cada 100 mil crianças em 2019, contra 1.427 em 2018. Christovam Barcellos, um dos autores do estudo, explica ao G1 por que as crianças foram as primeiras afetadas pela fumaça:

“Crianças são mais sensíveis a fatores externos, como a poluição. Seu sistema imunológico ainda está em desenvolvimento e o aparelho respiratório, em formação. São mais suscetíveis a alergias.”

Pará, Rondônia, Mato Grosso e Maranhão foram os estados mais afetados pelo problema. O número de internações quintuplicou nos seguintes municípios: Santo Antônio do Tauá, Ourilândia do Norte e Bannach, no Pará; Santa Luzia d'Oeste, em Rondônia; e Comodoro, no Mato Grosso.

Morar perto dos focos de incêndio aumenta em até 36% o risco de internação por problemas respiratórios, diz estudo (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

A fundação estima que as queimadas de 2019 custaram R$ 1,5 milhão ao SUS (Sistema Único de Saúde). Os pesquisadores alertam que as populações indígenas estão especialmente vulneráveis à poluição do ar, mas reconhecem que ainda não é possível avaliar a incidência de doenças nessa parcela da população.

Registros de satélite mostram que os focos de incêndio se concentram nas bordas de terras indígenas. De acordo com o grupo de pesquisa, esses territórios desempenham a função de proteção contra queimadas e desmatamento na Amazônia.

“Os poluentes emitidos por estas queimadas podem ser transportados a grande distância, alcançando cidades distantes dos focos de queimadas", destaca o estudo.

A pesquisa diz, ainda, que o resíduo tóxico da queima, chamado de “material particulado”, chegou a cidades localizadas a centenas de quilômetros dos incêndios florestais. Os poluentes podem causar o agravamento de doenças cardíacas, inflamação das vias aéreas, alterações no sistema circulatório, no sistema nervoso e até mesmo danos ao DNA, com potencial cancerígeno.