Queiroga defende distanciamento e máscara para evitar lockdown; promete acelerar vacinação

Pedro Fonseca
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Queiroga no Palácio do Planalto

Por Pedro Fonseca

(Reuters) - O novo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse nesta quarta-feira que ninguém é a favor de um lockdown e defendeu que a população use máscara e mantenha o distanciamento para evitar a decretação de medidas rígidas de restrição de circulação de pessoas, no momento em que diversos Estados brasileiros reforçam duramente as quarentenas para lidar com o pior momento da pandemia de Covid-19.

A posição do ministro contra um lockdown repete a postura do presidente Jair Bolsonaro, que sempre foi crítico do isolamento e chegou a ingressar com ação no Supremo Tribunal Federal (STF) contra medidas de governadores para reduzir o número de pessoas nas ruas -- apesar de especialistas recomendarem fortemente as restrições para conter a circulação do vírus, em especial em momentos de crise como o vivo pelo Brasil.

"Ninguém quer lockdown. O que nós temos, do ponto de vista prático, é que adotar medidas sanitárias eficientes que evitem o lockdown, até porque a população não adere a lockdwon", afirmou o ministro, no dia em que o Brasil deve superar a marca de 300 mil mortes pela Covid-19, após ter se tornado o novo epicentro da pandemia.

Queiroga, um cardiologista que assumiu na véspera como quarto ministro da Saúde do governo durante a pandemia, defendeu o uso de máscara como "fundamental" e disse ser preciso manter "um certo distanciamento" para que se evite o lockdown.

No caso da máscara, o próprio Bolsonaro passou a fazer uso recentemente, em uma mudança de postura para quem chegou a falar que o uso da máscara --uma das medidas mais eficazes disponíveis para evitar a contaminação por Covid-19-- era o "último tabu a cair" da pandemia.

O novo ministro também fez uma defesa enfática da vacinação, em linha com pronunciamento do presidente na véspera, e prometeu mais do que triplicar o ritmo de vacinação em breve para mais de 1 milhão de doses aplicadas por dia.

Segundo Queiroga, 95% da população brasileira quer se vacinar, e o governo está trabalhando nesse sentido.

"Compromisso número um do nosso governo é com a implementação de uma forte campanha de vacinação", afirmou o ministro, em sua primeira entrevista coletiva no cargo.

"Atualmente nós vacinamos cerca de 300 mil pessoas por dia, e o ministro da Saúde e o governo assumem o compromisso em curto prazo aumentar pelo menos em 3 vezes essa velocidade de vacinação para 1 milhão de vacinas todos os dias", acrescentou.

Após uma lentidão inicial para conseguir vacinas e críticas de Bolsonaro à imunização, o governo federal passou a apostar na vacinação como principal trunfo contra a Covid nas últimas semanas, depois de pesquisas apontarem o interessa da população em receber as doses e uma queda no apoio ao presidente.

Em janeiro, por exemplo, Bolsonaro chegou a dizer que menos da metade da população tomaria a vacina, porque as pessoas não tinham certeza das consequências.

Queiroga também anunciou na entrevista a criação de uma secretaria especial do ministério voltada exclusivamente para o combate à pandemia e disse ter recebido total autonomia para indicar os secretários da pasta. Rodrigo Castro, funcionário de carreira do Ministério da Economia, será o novo secretário-executivo.

O novo ministro, que citou o papa Francisco ao dizer que, como médico tem o dever de cuidar das pessoas, afirmou que buscará se aproximar da classe médica para construir uma união no combate à pandemia. Ele anunciou que fará uma visita à Faculdade de Medicina da USP para se encontrar com professores e disse que irá a hospitais acompanhar o atendimento às vítimas da Covid para buscar formas de melhorar a atenção.

"Vamos buscar a expertise que é brasileira. Vamos trazer todos ao Ministério da Saúde para que possamos unir esforços para vencer essa grande dificuldade sanitária", afirmou.

Questionado sobre a defesa feita por Bolsonaro de medicamentos como cloroquina e ivermectina, que não têm comprovação científica contra a Covid-19, o ministro afirmou que não existe tratamento específico contra a doença e que vários estudos que têm sido realizados ainda não mostraram eficácia, mas defendeu a autonomia do médico para prescrever medicamentos "off label" caso a caso.

A insistência de Bolsonaro para que o ministério incluísse a cloroquina no tratamento à Covid levou à saída de dois ministros da Saúde no ano passado, primeiro Luiz Henrique Mandetta e depois Nelson Teich, ambos médicos. Depois deles, com o ministério sob comando do general Eduardo Pazuello, a cloroquina passou a ser incluída em protocolo de tratamento contra a Covid.

Queiroga disse que o ministério agora tem que "olhar para frente" e buscar o que existe de comprovado.