'Caravana tóxica' em NY mostra ao mundo nossa tragédia sanitária

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Foto: Reprodução
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A passagem tumultuada da comitiva de Jair Bolsonaro por Nova York, onde o presidente abriu com discurso de campanha a 76ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, é um retrato em miniatura da tragédia da Covid em seu país. A infecção de seu ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, o quarto titular da pasta em menos de um ano, é “só” o grand finale em um roteiro que mescla chanchada com terror B.

O roteiro digna de paspalhões começa pela menção à pandemia, já ao fim do discurso, logo após o presidente defender a reforma no Conselho Permanente da ONU, no qual o Brasil há décadas reivindica um lugar com assento permanente —e longe de ser uma prioridade, agora, em um país descosturado internamente pelas crises políticas e econômicas.

Lá, como cá, Bolsonaro torturou os fatos ao dizer que sempre defendeu o combate ao vírus e o desemprego de forma simultânea. Mentira. Há manifestações públicas do presidente minimizando os riscos da pandemia e inúmeras demonstrações de desprezo pelas recomendações sanitárias, a começar pelo estímulo a aglomerações. Foi o que ele fez na viagem. É o que seguirá fazendo por aqui.

Bolsonaro atribuiu o legado de “inflação” em seu país às medidas de isolamento. Só que inflação e medidas de isolamento não são fatos correlatos. Dizer que foram governadores e prefeitos, e não os riscos de contaminação, que obrigaram parte da população a ficar em casa equivale a dizer que seu ministro da Saúde precisa agora cumprir quarentena em um quarto de hotel em Nova York por ordem de Alexandre de Moraes ou algum gestor público a quem tenta terceirizar a responsabilidade a todo custo.

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Na viagem a Nova York, como tem feito no Brasil nos últimos dias, Queiroga mostrou ser um cão de guarda fiel ao chefe ao mostrar o dedo para quem manifestava contrariedade, em manifestações de rua, contra o governo do presidente. Ele havia feito o mesmo ao arrumar encrenca com governadores, às vésperas da viagem, em torno da vacinação de adolescentes.

E, embora fosse um dos poucos da comitiva a usar máscaras, item atacado pelo presidente sem qualquer embasamento, a não ser a implicância, o comandante da Saúde não se constrangeu em posar ao lado do chefe brigão na famosa foto da pizza na área externa de um restaurante que, pelas regras sanitárias locais, Bolsonaro não poderia frequentar. A foto estampa na testa da comitiva o orgulho pária do qual falava o ex-chanceler Ernesto Araújo.

Em encontro com o premiê britânico Boris Johnson, Bolsonaro mostrou orgulho ao dizer que é um dos poucos líderes de Estado a viajar sem ter se vacinado. Em seu discurso, ele criticou a exigência de passaporte sanitário, a vacina obrigatória e defendeu, como uma tecla quebrada de tanto bater, a suposta autonomia médica em torno do chamado tratamento inicial —uma lenda incapaz de evitar o morticínio de quase 600 mil compatriotas, numa escalada só contida após um país inteiro, a começar pelos grandes empresários, exigirem que ele e sua turma parassem de conversa fiada e dedicassem esforços à vacinação em massa.

Hoje cerca de 70% da população receberam ao menos a primeira dose da vacina — apesar, e não por conta, dos esforços em contrário do presidente, que apostou desde o começo na imunização de rebanho, na conversão da própria população e das emas do Palácio em cobaias de medicamento fajuto e espalhou o pânico ao associar o imunizante à morte.

Em Nova York, Bolsonaro fez em alguns dias o que tem feito em seu país há mais de um ano e meio: desfilou arrogância, se gabou da ignorância, desafiou as regras sanitárias e as recomendações da prefeitura local, levou a turma para passear e ajudou o vírus a se espalhar, mesmo com um integrante da equipe tendo testado positivo.

Por causa da gracinha, a Anvisa pede agora que a comitiva cumpra quarentena de duas semanas por precaução. Perto de contabilizar 600 mil mortos, o ministério da Saúde ficará acéfalo (sic) no período em razão do asilo forçado de seu comandante infectado aos olhos do mundo. Graças às duas doses da vacina que seu chefe desprezou desde o início, as chances de agravamento do quadro são mínimas. Mas a desmoralização não produz anticorpos.

Dito isso, é preciso lembrar que vacinas salvam. Inclusive o ministro que, em vez de conter a hidrofobia do presidente acabou sendo mordido e se transformou em um deles.

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