Quem é Eloá Rodrigues, modelo de São Gonçalo que vai representar o Brasil no ‘Miss Universo’ trans

“Um ponto fora da curva”. Assim se define Eloá Rodrigues, 29 anos, moradora de Jardim Catarina, comunidade do município de São Gonçalo, que vai representar o Brasil no concurso Miss International Queen, o “Miss Universo” trans, em 25 de junho na Tailândia. Apesar da aparente vida de “glamour” que a coroa lhe confere e do apoio da família, ela admite: ainda é difícil se permitir sonhar no Brasil sendo uma mulher trans e negra.

Agressão motivada pelo gênero: Violência contra mulheres trans explode no Rio e chega a quase um caso por dia

LGBTQIAP+: Um dia após inauguração de exposição pela diversidade, shopping retira obras do corredor

Dengue tipo 2: Rio tem aumento de 300% no número de casos até o início de junho

Crime no Flamengo: Idosa foi forçada a autorizar, por telefone, saques em sua conta no banco, antes de ser morta

Na cozinha da casa em que mora com a tia e duas irmãs, Eloá conversa enquanto prepara o almoço. Falta pouco tempo para o concurso, mas o clima descontraído com a família a fez se esquecer um pouco do nervosismo para o grande dia às vésperas da viagem, que ocorreu no domingo (12).

— É importante apoiar o sonho dela — afirma sua tia Ivone, que criou Eloá junto com a avó. — Ela faz de tudo para chegar aonde quer. Se não der certo, vai ter nosso apoio também quando voltar.

Essa cena familiar aparentemente comum é algo raro para pessoas como Eloá, principalmente no Brasil, país que mais mata pessoas transexuais no mundo, segundo dados do relatório de 2021 da Transgender Europe (TE).

De acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), em 2018 80% dos transexuais mortos no Brasil eram negros.

— Acho que o maior medo das pessoas trans e travestis que conheço é morrer — afirma.

— Isso já foi uma realidade na minha vida — confessa, referindo-se ao medo da violência no início da transição. — Mas hoje não é mais. Claro que não ocupo um lugar de privilégio, porque continuo sendo uma mulher trans e preta, mas tenho a possibilidade de correr atrás dos meus sonhos — acrescenta.

Falta de reconhecimento

Eloá começou a carreira de modelo junto com sua transição, ainda na adolescência. Ao contrário de muitas pessoas trans e travestis, teve apoio familiar desde o início, o que considera ter sido crucial para chegar até aqui. Vencedora do Miss Beleza T 2020, equivalente ao ‘Miss Brasil’ para pessoas trans e travestis para representar seu país contra outras 23 candidatas do mundo inteiro no concurso que foi adiado por dois anos devido à pandemia.

Mesmo com o peso do título nacional, os desafios de reconhecimento ainda são grandes.

— Muita gente não entende a relevância que isso tem para pessoas com uma realidade como a minha, não só pessoas LGBTQIA+, mas também quem mora na minha comunidade — lamenta, enquanto se maquia com agilidade em seu quarto.

Com dificuldade para conseguir patrocínio, quase todos os custos saem de seu bolso.

Como prêmio do concurso nacional, ganhou as passagens de ida e volta para a Tailândia, a inscrição no Miss International Queen e o traje típico. Mas ainda precisa arcar com quase 30 looks para os dias de “confinamento”, quando participará de uma série de eventos e viagens com outras candidatas.

— As pessoas nas redes sociais não querem saber, elas querem a miss preparada, porque eu tive dois anos para me preparar. Mas foram dois anos de muito sufoco — confessa.

'O monstro matou mamãe': Frase de filhos de vítima de assassinato ajuda a obter condenação de suspeito

Nestes dois anos como miss Brasil trans, Eloá enfrentou dificuldades para encontrar parcerias com marcas ou receber cachês. "Muitas pessoas e marcas não acreditam de fato no projeto ou não querem atrelar sua imagem a uma pessoa como eu", aponta.

'Não foi fácil, mas é possível'

Apesar das dificuldades, desistir não é mais uma opção. Estudante de Ciências Sociais na Universidade Federal Fluminense, modelo e atriz, Eloá trabalhou no almoxarifado de uma empresa de ônibus. Hoje, representa muito mais do que um sonho para pessoas que se identificam com ela – ela simboliza a possibilidade de escolha.

— Quero mostrar que não foi fácil chegar até aqui, mas que é possível — afirma. — Que as pessoas olhem para mim e pensem: ‘nossa, ela conseguiu, então eu também posso!'.

Novidade: Rio vai criar ciclofaixa ligando Tijuca ao Centro; obras começam no segundo

Se ganhar o concurso, pretende usar o prêmio de THB 450.000 (cerca de R$ 66 mil, na cotação de 13/06), além do troféu e de parcerias VIPs, para ajudar a família e realizar um de seus maiores desejos pessoais: ser mãe.

— Óbvio que quero muito a coroa, mas meu foco principal é que, quando as pessoas lembrarem o Miss International Queen 2022, lembrem que a representante brasileira deu muito orgulho — conta, com um sorriso tranquilo.

— Se eu voltar de lá com essa certeza, já ganhei tudo.

'Vivi para contar': 'Esse dinheiro não tem o menor valor', diz mãe de jovem morta no Palace II sobre indenização

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos