Quem é Joe Biden, novo presidente eleito dos EUA

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Joe Biden com bandeira americana ao fundo
Com 78 anos na data da posse, Joe Biden será o presidente americano a assumir o cargo com idade mais avançada

Quatro anos depois de deixar a Casa Branca, Joe Biden voltará à sede do governo dos Estados Unidos. Mas, desta vez, será ele quem liderará o país.

Ele derrotou o atual presidente, Donald Trump, em uma eleição acirrada e atípica, realizada em meio à pandemia do novo coronavírus.

Com a apuração praticamente concluída na maioria dos Estados-chave, Biden conseguiu alcançar 273 dos 538 votos do Colégio Eleitoral, segundo projeção da BBC.

O democrata obteve vitórias importantes em Estados como Wisconsin, Michigan e Pensilvânia, que haviam sido conquistados pelo Partido Republicano nas eleições de 2016.

Biden será o 46º presidente da história dos Estados Unidos e o mais idoso a assumir o cargo — terá 78 anos na data da posse.

Sua eleição também representa a volta do Partido Democrata ao comando do país.

Democratas e republicanos vêm se alternando desde que Bill Clinton sucedeu George H. W. Bush em 1993.

A vitória de Biden também consagra uma trajetória política e pessoal marcada pela persistência diante da adversidade.

'Sempre há esperança'

Menino com placa da chapa de Biden e Harris
Biden conseguiu mobilizar apoio mesmo com campanha atípica realizada em meio à pandemia de covid-19

O começo da corrida eleitoral não foi promissor para Biden.

Ele ficou em quarto na primeira votação da disputa pela indicação democrata, realizada em Iowa, em fevereiro.

"Sempre há esperança", disse Biden pouco depois. "Sempre há esperança."

Saiu-se ainda pior na votação seguinte, em New Hampshire. Um quinto lugar. Mas seu desempenho começou a melhorar na terceira disputa, em Nevada, quando ficou em segundo.

A primeira vitória veio na votação seguinte, na Carolina do Sul, e, então, sua candidatura engrenou.

Biden venceu 45 das 53 disputas seguintes, em uma corrida que acabou se polarizando entre ele e o congressista Bernie Sanders.

Garantiu assim que seria o candidato democrata que desafiaria Trump.

"Tenho uma grande consideração pelo destino", disse Biden em uma entrevista ao National Journal em 1989.

"Nunca fui capaz de planejar minha vida. Cada vez que minha vida pessoal estava indo como eu queria, algo interveio."

Uma família destroçada

Biden com Neilia e os filhos Beau e Hunter
Biden perdu sua primeira mulher, Neilia, e a filha Naomi ainda muito jovem

Joe Biden havia acabado de ser eleito para seu primeiro mandato no Senado e estava em Washington entrevistando candidatos para formar sua equipe quando, em 18 de dezembro de 1972, o telefone tocou.

Era seu irmão, Jimmy, avisando que havia ocorrido um acidente com a família e que ele deveria ir para casa.

Ele descobriria mais tarde naquele dia que sua mulher, Neilia, e sua filha, Naomi, de 1 ano, tinham morrido em uma batida no trânsito.

Seus outros dois filhos, Beau, de 3 anos, e Hunter, de 4 anos, ficaram gravemente feridos, mas se recuperaram do acidente.

"Eu não conseguia falar, apenas senti o vazio crescer no meu peito", escreveu Biden em seu livro de memórias, "como se eu estivesse sendo sugado para um buraco negro".

Ele disse ter cogitado, naquele momento, desistir do Senado e entrar para o sacerdócio. Ele se viu dando voltas à noite em bairros perigosos, procurando briga.

"Não sabia que era capaz de tanta raiva", escreveu Biden. "Senti que Deus havia pregado uma peça horrível em mim."

Até aquele dia, a vida de Biden vinha em uma trajetória ascendente notável.

'Buh-buh-buh-Biden'

Biden passou boa parte de sua juventude levando uma vida modesta em Scranton, na Pensilvânia, entre os altos e baixos de seu pai nos negócios.

"Os valores aos quais Biden foi exposto quando jovem estavam enraizados na igreja, na educação católica e na cultura irlandesa-americana em que estávamos crescendo", disse Bob Casey, senador pela Pensilvânia, cuja família vive em Scranton há muitas gerações.

Seu maior desafio na infância foi superar a gagueira. Em suas memórias, ele diz ter memorizado certa vez uma leitura para evitar gaguejar na aula.

Quando isso inevitavelmente aconteceu, uma professora zombou de sua deficiência, chamando-o de "buh-buh-buh-Biden".

No fim do ensino médio, ele havia superado a gagueira, após treinar em frente ao espelho por meses para conseguir relaxar o rosto.

Mas esse problema ainda se revela ocasionalmente, quando ele está sob pressão.

"A gagueira não piora à medida que a pessoa envelhece, mas tentar mantê-la sob controle requer muita energia", escreveu John Hendrickson, em um artigo da Atlantic Magazine sobre a gagueira de Biden.

O 'menino de ouro' do Partido Democrata

Retrato de Joe Biden
Biden se projetou nacionalmente ao se eleger como Senador ainda jovem

Biden foi para a Universidade de Delaware e depois estudou Direito na Universidade de Syracuse, em parte para ficar perto de Neilia, que ele conheceu durante as férias da faculdade.

Começou na política depois de exercer a advocacia por um breve período em uma grande empresa. Diz que, desiludido por representar ricos e poderosos, decidiu ser defensor público.

Ele disputou e ganhou uma vaga no Conselho do Condado de New Castle, que foi seu improvável trampolim para o Senado.

Biden se candidatou após nenhum outro democrata expressar interesse em desafiar o republicano que ocupava o cargo havia dois mandatos.

Aos 29 anos, ele tornou-se o segundo mais jovem a ser eleito para o Senado até então.

Sua vitória o alçou ao posto de "menino de ouro" de um Partido Democrata que foi massacrado em todo o país por Richard Nixon e os republicanos.

Após a tragédia atingir sua família, Biden acabaria assumindo sua cadeira no Senado, fazendo o juramento de posse no hospital de Delaware, onde seus dois filhos estavam se recuperando.

Foi o início de 44 anos consecutivos na cena política nacional, um período que terminou como começou: com a morte prematura de um de seus filhos.

Uma nova tragédia e a primeira candidatura

Biden com Beau em 2009
'Ele tinha minhas maiores qualidades', disse Biden sobre seu filho Beau

Biden já havia desistido de uma candidatura presidencial antes. Em 23 de setembro de 1987, ele anunciou diante de uma multidão de repórteres que estava abandonando a disputa na qual havia se lançado apenas três meses antes.

"Estou com raiva de mim mesmo por ter sido colocado nesta posição de ter que fazer essa escolha", disse ele.

"Estou igualmente frustrado com o ambiente da política presidencial que torna tão difícil permitir que o povo americano avalie Joe Biden por inteiro e não apenas pelas declarações erradas que fiz."

Foi um fim vergonhoso para a primeira tentativa de Biden de chegar à Casa Branca, depois que sua campanha encalhou em meio a acusações de plágio.

Foi algo especialmente difícil de digerir para um homem que via sua palavra como uma garantia de honestidade.

O primeiro golpe veio em um debate em Iowa, onde Biden, em sua declaração final, recitou quase palavra por palavra uma passagem do discurso do então líder do Partido Trabalhista britânico, Neil Kinnock, sobre sua criação na classe trabalhadora.

Embora ele frequentemente atribuísse a autoria das palavras alheias quando as citava, desta vez ele não o fez, e um membro de uma campanha rival democrata notou isso.

Joe e Jill Biden
Joe e Jill Biden estão casados há mais de 40 anos

Uma acusação de plágio por um trabalho que escreveu para uma disciplina da faculdade de Direito também voltou à tona.

Biden copiou longos trechos de um artigo acadêmico sem atribuir a fonte e acabou sendo reprovado.

Ele depois admitiu ter cometido "um erro", ao afirmar que havia feito algo "muito estúpido" quando tinha 23 anos de idade.

Mas insistiu que não tinha agido de forma "maldosa" e disse que não tinha compreendido que deveria citar as fontes cuidadosamente.

Mas, combinado com a polêmica criada pelo seu discurso e outras alegações de citações não atribuídas em falas públicas, isso criou em muitos uma percepção negativa sobre Biden.

"Lá estava eu, saindo da corrida com minha integridade sendo questionada", ele diria mais tarde a seu biógrafo, Jules Witcover.

"Isso realmente me consumiu. Era a essência de quem eu pensava que era, quem eu sei que sou, na verdade."

Uma nova vida

Biden em 1987
Biden se candidatou à Presidência pela primeira vez em 1987

Nos primeiros 14 anos em Washington, Biden reconstruiu sua vida pessoal.

Ele se comprometeu a dar aos dois filhos alguma aparência de vida normal e viajou todos os dias de sua casa em Delaware para Washington, e se casou novamente, com a professora Jill Jacobs, com quem teve uma filha, Ashley.

Biden passou a integrar o Comitê Judiciário do Senado e começou a construir uma presença nacional até se lançar candidato à Presidência em 1987.

"Devemos reacender o fogo do idealismo em nossa sociedade, porque nada sufoca o potencial da América mais do que o cinismo e a indiferença", disse ele no início de sua campanha.

Mas as acusações de plágio o levaram a desistir. Esse desfecho talvez seria inevitável, porque, alguns meses depois, Biden desmaiaria em um quarto de hotel por causa de um aneurisma intracraniano.

Ele passou os seis meses seguintes entrando e saindo de hospitais. Por um tempo, os médicos temeram que ele tivesse danos cerebrais duradouros.

Passariam-se 20 anos antes que Biden concorresse à Presidência novamente, desta vez como um candidato experiente e não mais como um rosto novo da política americana.

Uma nova derrota

Ele diz ter prometido para si que, daquela vez, em 2008, concorreria à sua maneira, depois de concluir que sua campanha em 1987 havia sido muito baseada em floreios retóricos e consultores de imagem.

"Qualquer um de vocês que der uma olhada em minha vida não será capaz de concluir que não sou um homem honrado", disse ele em um comício de campanha. "E é por isso que não tive medo de voltar a fazer isso."

Mas o resultado final foi o mesmo: a derrota. E, novamente, foi a língua de Biden que o traiu.

Um dia antes de anunciar sua candidatura, ele disse a um repórter do New York Observer que um de seus oponentes, Barack Obama, era "o primeiro afro-americano do mainstream articulado, brilhante, limpo e um cara bonito".

Biden disse depois que não pretendia menosprezar os candidatos presidenciais negros anteriores ou Obama.

Mas o episódio reforçou uma visão de que ele cometia gafes quando fazia comentários improvisados, algo que comprometeu seus esforços de se projetar nacionalmente ao longo de sua carreira.

Embora Biden tenha conseguido estabilizar sua campanha, ele nunca chegou à dianteira da corrida democrata, que ficou polarizada entre Obama e Hillary Clinton.

O caso de Anita Hill

Anita Hill depõe no Congresso americano
Anita Hill acusou o juiz Clarence Thomas de assédio sexual

Quase duas décadas antes, ele presidia o Comitê Judiciário do Senado quando, em 11 de outubro de 1991, Anita Hill, então professora de Direito na Universidade de Oklahoma, testemunhou contra Clarence Thomas, segundo negro indicado à Suprema Corte.

Ela acusava o juiz federal de tê-la assediado sexualmente em várias ocasiões quando os dois trabalharam juntos durante o governo de Ronald Reagan.

Hill disse que Thomas fez comentários "nojentos" e "sujos" para ela, criando um ambiente de trabalho intolerável.

O juiz, em seu depoimento, acusou seus críticos de se envolverem em um "linchamento promovido por negros arrogantes", aludindo a um termo que tem conotações racistas históricas nos Estados Unidos.

"A menos que você se submeta à velha ordem, é isso que vai acontecer com você", disse Thomas. "Você será linchado, destruído, caricaturado por um comitê do Senado dos Estados Unidos, em vez de pendurado em uma árvore."

Biden disse em seu livro de memórias ter tentado garantir uma audiência justa para ambos os lados. O comitê já havia votado uma vez sobre a indicação de Thomas, durante a qual ele se opôs ao nome do juiz por motivos ideológicos. Agora, entretanto, era diferente.

Racismo e sexismo

Clarence Thomas em audiência no Congresso dos EUA
Clarence Thomas foi o segundo negro indicado à Suprema Corte dos EUA

Quando o comitê reabriu o inquérito, a questão era o caráter moral de Thomas, e havia dois relatos distintos e conflitantes do que havia acontecido uma década antes.

Biden estava ciente de que ele e seus colegas senadores, todos homens e brancos, poderiam ser acusados de racismo contra Thomas ou de sexismo, se não tratassem com o devido respeito as alegações de Hill.

"Os democratas tinham um medo mortal de parecer que estavam se unindo contra um negro indicado à Suprema Corte", diz a jornalista Jill Abramson, que cobriu as audiências para o jornal The Wall Street Journal e é coautora do livro Strange Justice (Justiça Estranha, em tradução livre), sobre o episódio.

Em vez de serem justos, diz Abramson, Biden e os democratas permitiram ser "lamentavelmente derrotados" pela minoria republicana do comitê, deixando muitos de seus apoiadores se sentindo traídos.

"Como os democratas costumam fazer, eles queriam que as pessoas vissem que eles estavam jogando limpo. Mas não foi um jogo justo, foram dois dias de audiências em que Anita Hill foi destruída pelos republicanos, que a retrataram como pervertida ou mentirosa."

Desafios em discussões raciais

Tentar equilibrar seu discurso sobre raça e gênero sendo um homem branco foi um desafio que Biden enfrentou ao longo de sua carreira, com diferentes graus de sucesso.

Quando concorreu pela primeira vez ao Senado, ele se apresentou como um defensor do movimento pelos direitos civis.

Ele contava ter sido voluntário na adolescência em um centro de natação em um bairro predominantemente negro de Wilmington e aprendido sobre o tratamento injusto que minorias étnicas frequentemente são alvo nos Estados Unidos.

"Todos os dias, os negros recebiam lembretes sutis e não tão sutis de que não pertenciam aos Estados Unidos", escreveu Biden.

Uma das primeiras batalhas políticas de mais destaque de Biden ao entrar no Senado, no entanto, foi travada ao lado de sulistas pró-segregação.

Ele se opunha à ordem de um tribunal de que alunos fossem levados para frequentar escolas em bairros diferentes para combater a segregação racial na sociedade americana.

Foi um assunto que deixou Biden vulnerável a ataques durante sua corrida para a indicação democrata de 2020.

"Ele dizia que essa questão estava dividindo o país culturalmente", diz Jason Sokol, professor de História da Universidade de New Hampshire.

Apesar de Biden ter lutado contra nomeações conservadoras do Executivo e do Judiciário que ele considerava insuficientemente dedicadas aos direitos civis, ele considerava que o papel do governo era prevenir a discriminação atual, não oferecer soluções para erros do passado.

"Eu não apoio o conceito, popular nos anos 1960, que dizia: 'Nós reprimimos negros por 300 anos, e os brancos agora estão muito à frente na corrida por tudo que nossa sociedade oferece'", disse ele em uma entrevista em 1975.

"Não acredito que, para equilibrar o placar, devemos agora dar ao negro uma 'vantagem' ou retardar o branco na corrida."

Criminalidade, drogas e minorias

Biden também foi alvo de acusações por seu histórico em questões sobre criminalidade e aplicação da lei.

Seus críticos dizem que ele apoiou políticas elaboradas para lidar com o aumento de crimes violentos e relacionados às drogas na década de 1980 e início de 1990 que afetavam desproporcionalmente minorias étnicas.

Sokol diz que Biden passou sua carreira em um "meio-termo conflituoso e confuso" em questões raciais, dividido entre desagradar alguns de seus eleitores brancos e "honrar as reivindicações por justiça racial".

Em 1988, ele apoiou a Lei Antidrogas, que estabeleceu penas mais duras para substâncias como crack, que eram mais usadas por minorias étnicas.

Biden criou um projeto de lei de 1994 que expandiu as sentenças mínimas e aumentou o financiamento federal para departamentos de polícia e prisões.

Isso tem sido visto desde então como um fator que contribuiu para o país ter uma das maiores populações carcerárias do mundo.

De acordo com Bob Kerrey, um dos 95 senadores que votaram a favor do projeto, ser rotulado como alguém "que trata o crime brandamente" era politicamente perigoso na década de 1990.

"Eu não sabia o quão polêmico seria o projeto", diz ele. "O problema com essa lei é que funcionou. O crime diminuiu. Mas toleramos atitudes racistas de policiais por muito tempo."

'Contatos físicos inapropriados'

Lucy Flores fala em evento com Biden ao fundo
Lucy Flores acusou Joe Biden de ter agido de forma imprópria com ela

Uma das iniciativas legislativas de Biden mais valorizadas por ele próprio foi a Lei da Violência Contra a Mulher.

O tópico de violência doméstica e como abordá-lo em nível federal sempre esteve entre suas prioridades.

"Expusemos a horrível verdade da violência doméstica ao público", disse Biden ao The Huffington Post em 2019.

Embora ele tenha indicado seus esforços legislativos como prova de seu apoio às questões femininas, foi sua conduta pessoal que atraiu duros ataques.

Dias antes do lançamento de sua campanha presidencial de 2020, ele foi acusado por várias mulheres de ter feito "contatos físicos inapropriados".

"Nunca tinha passado por nada tão descaradamente impróprio e irritante antes", escreveu Lucy Flores, uma política democrata de Nevada, sobre um encontro que teve com Biden em 2014.

"O vice-presidente dos Estados Unidos da América tinha acabado de me tocar de uma maneira íntima, reservada para amigos próximos, familiares ou parceiros românticos, e me senti impotente para fazer qualquer coisa sobre isso."

Apesar de não admitir nenhum ato impróprio específico, Biden divulgou um vídeo no qual afirma que seria "mais cuidadoso e respeitoso" com relação a condutas futuras que possam deixar mulheres desconfortáveis.

Acusação de abuso sexual

Em março, uma das mulheres que acusou Biden, Tara Reade, fez uma alegação ainda mais grave, de abuso sexual.

Ela disse que o senador a havia atacado em um corredor vazio quando ela trabalhava em seu escritório em 1993. Conhecidos de Reade disseram que ouviram dela sobre o suposto incidente na época.

Dois meses depois, Biden abordou a acusação, referindo-se a seu apoio à Lei da Violência Contra a Mulher.

"Reconheço minha responsabilidade de ser uma voz, um defensor e um líder da mudança cultural que começou, mas está longe de terminar", disse ele.

"Portanto, quero abordar as alegações de uma ex-funcionária de que participei de uma conduta inadequada há 27 anos. Eles não são verdadeiros."

Reade pediu que Biden desistisse da corrida. Investigações subsequentes por jornalistas encontraram inconsistências nos relatos feitos por ela.

O episódio, no entanto, levantou questões desconfortáveis para os democratas, especialmente as mulheres do partido que bradaram o grito de guerra do movimento contra abuso sexual #MeToo, "Acredite nas Mulheres".

Arrependimento

Também foram traçados paralelos com as dúvidas e calúnias dirigidas a Anita Hill décadas antes.

Nos últimos anos, à luz do movimento #MeToo, que aumentou a conscientização sobre o assédio e o abuso sexual, Biden disse se arrepender da maneira como lidou com o episódio.

"Até hoje, lamento não ter conseguido encontrar uma maneira de fazer com que ela fosse ouvida da forma que merecia, dada a coragem que demonstrou ao entrar em contato conosco", disse Biden em um discurso em março de 2019.

Mais tarde, ele disse isso diretamente a Hill, em um telefonema. Mas, para ela, não foi o suficiente.

"Ele precisa pedir desculpas às outras mulheres e ao público americano, porque sabemos agora o quão profundamente decepcionados os americanos em todo o país ficaram com o que viram", disse Hill ao jornal The New York Times.

"Existem mulheres e homens agora que realmente perderam a confiança em nosso governo para responder ao problema da violência de gênero."

Contra a guerra

George H. W. Bush
Biden se opôs à Guerra do Golfo promovida por George H. W. Bush (foto)

Em 11 de outubro de 2002, Biden presidia o Comitê de Relações Exteriores do Senado e estava mais uma vez decidindo se autorizaria um presidente republicano a ir à guerra com o Iraque.

Onze anos antes, na véspera da Guerra do Golfo, Biden havia votado contra dar ao presidente George H. W. Bush a aprovação para usar a força contra os militares de Saddam Hussein.

"Antes de pedirmos aos americanos que morram pela libertação do Kuwait, gostaria de ter certeza de que tentamos todas as alternativas possíveis", disse ele durante uma audiência do comitê de Relações Exteriores. "Até agora, não foi esse o caso."

Apesar do aviso de Biden de que poderia haver dezenas de milhares de vítimas americanas, a resolução foi aprovada por 52 votos a favor e 47 contra.

A Guerra do Golfo terminou rapidamente, com cerca de 150 militares americanos mortos em combate, um número bem inferior às milhares de mortes de membros das Forças Armadas do país registradas em outros conflitos nos quais os Estados Unidos se envolveram.

Biden, junto com outros democratas que se opuseram à guerra, eram frequentemente acusados de serem negligentes com a defesa nacional.

Robert Gates, que foi secretário de defesa do presidente George W. Bush, fez esse ataque em seu livro de memórias publicado em 2014, ao dizer que Biden esteve "errado em quase todas as principais questões de política externa e segurança nacional nas últimas quatro décadas".

Ele listou o apoio de Biden à retirada de tropas do Vietnã, a oposição ao aumento dos investimentos em defesa por Ronald Reagan e o voto contra a Guerra do Golfo, entre outros.

A favor da guerra

Soldado observa estátua de Saddan Hussein sendo derrubada
Biden foi um defensor da Guerra do Iraque

Nos anos que se seguiram a essa votação, Biden assumiu posições mais agressivas em assuntos internacionais, incluindo o apoio ao envolvimento americano nas guerras dos Bálcãs, bombardeios no Iraque e invasão do Afeganistão.

Quando o presidente George W. Bush começou a se mover em direção a uma nova guerra com o Iraque, alegando que o país possuía armas de destruição em massa, Biden foi um defensor da medida.

"Não acredito que seja uma corrida para a guerra", disse ele. "Acredito que é uma marcha para a paz e segurança."

Biden esteve entre os 77 senadores que votaram a favor da resolução da Guerra do Iraque, junto com vários outros democratas com ambições presidenciais, como John Kerry e Hillary Clinton.

"Foi um cálculo simples", diz Mark Weisbrot, que dirigiu um documentário sobre o apoio de Biden à Guerra do Iraque.

"Eles sabiam que havia o risco de que, se você fosse contra a guerra e ela fosse um sucesso, poderiam perder votos decisivos. Mas, se votassem pela guerra e ela acabasse sendo um desastre, como aconteceu, não perderiam muito, porque sua base eleitoral não teria alternativas."

Conforme a guerra se arrastava, no entanto, o voto de Biden a favor da guerra se tornou um risco político.

Os eleitores democratas viam cada vez mais a ocupação americana como um atoleiro. Depois de inicialmente defender seu voto, Biden começou a recuar.

Ele trata desse episódio em seu livro de memórias em um capítulo intitulado "Meu Erro". Escrevendo sobre aqueles no governo Bush que pressionavam pela guerra, disse: "Subestimei enormemente sua dissimulação e incompetência".

Papel ativo da política externa

Se Biden, nos anos após a votação sobre a Guerra do Golfo, tentou compensar seu erro movendo-se para a direita, ele moveu-se para a esquerda após a Guerra do Iraque.

Ele se opôs ao aumento da presença americana no Iraque, pedindo a retirada das tropas do país.

Como vice-presidente, foi contra o aumento das forças dos Estados Unidos no Afeganistão e desaconselhou o ataque a Osama bin Laden.

Pouco depois de anunciar sua candidatura presidencial para 2020, defendeu o fim do apoio americano à Arábia Saudita na guerra civil do Iêmen.

Durante a presidência de Obama, teve um papel ativo na realização dos objetivos de política externa do governo.

O senador Casey se lembra do encontro com o vice-presidente durante uma visita ao Iraque, quando discutiram seus esforços para trabalhar com líderes das várias facções do governo.

"Foi uma lição muito valiosa de diplomacia. Não se trata apenas de analisar o conteúdo de um relatório sobre um determinado país ou uma questão de política externa específica. Você precisa conhecer os indivíduos envolvidos", diz Casey.

Outras responsabilidades de Biden como vice-presidente incluíram pressionar o Congresso a apoiar as negociações nucleares com o Irã, construir apoio internacional para os acordos climáticos de Paris, representar os interesses americanos na China e encorajar reformas democráticas na Ucrânia.

Essas duas últimas áreas — China e Ucrânia — se tornaram o foco de ataques de Donald Trump e dos republicanos, que criticaram Biden por ser muito próximo da China.

Eles também tentaram argumentar que as atividades de Biden na Ucrânia eram para proteger seu filho, Hunter, que tinha laços de negócios com a nação.

No ano passado, Hunter insistiu que não tinha feito "nada de errado", mas admitiu ter feito um "mau julgamento".

A escolha de Obama

Joe Biden abraça Barack Obama
A opção de Obama por Biden surpreendeu a muitos

Ao fim da corrida presidencial de Biden em 2008, parecia que o senador voltaria a Washington e terminaria sua carreira no Congresso ou, talvez, como um funcionário em um futuro governo democrata.

Em 23 de agosto, entretanto, Barack Obama o escolheu como seu companheiro de chapa. A escolha surpreendeu a muitos.

O Estado natal de Biden, Delaware, não era um campo de batalha eleitoral. Com mais de três décadas em Washington, ele não era o tipo que se encaixava na mensagem de mudança de Obama.

"Havia uma sensação de que eles eram muito, muito diferentes", diz Kate Andersen Brower, jornalista e autora de um livro sobre a Vice-presidência nos Estados Unidos.

"Obama sempre foi cuidadoso ao escolher suas palavras, e Biden estava sempre cometendo gafes. A única coisa que Biden falou para Obama quando aceitou o posto foi que não mudaria seu estilo. Ele disse: 'Eu sou o que sou'."

De acordo com o ex-governador do Novo México, Bill Richardson, que concorreu à Presidência em 2008 e também estava na lista de candidatos à Vice-presidência de Obama, Obama e Biden desenvolveram um relacionamento na campanha eleitoral democrata.

"Eles tinham uma química pessoal", diz Richardson. "Obama precisava de uma pessoa experiente em política externa na chapa, mas também percebi que eles gostavam muito um do outro."

Momentos de tensão

Poucas horas depois de anunciar sua escolha, Obama subiu ao palco em Springfield, Illinois, para apresentar Biden à multidão.

"Joe Biden é uma mistura rara. Por décadas ele trouxe mudanças para Washington, mas Washington não o mudou", disse ele.

"Ele é o único indicado para ser meu parceiro enquanto trabalhamos para colocar nosso país de volta nos trilhos."

Obama iria destacar os momentos cruciais da vida de Biden: sua gagueira, as mortes de sua esposa e filhos, seu aneurisma cerebral, o projeto de lei do crime de 1994 e seu envolvimento na negociação do fim da guerra civil nos Bálcãs. Tudo isso teria contribuído para sua escolha.

Nos primeiros dias de Obama como presidente, Biden frequentemente se irritou com as orientações da Casa Branca.

Por mais de 30 anos, o senador Biden dirigiu seu feudo político. Agora, ele era obrigado a seguir o comando de outra pessoa.

"Foi irritante para ele no início", diz Bower. "Era um tipo de relação empurra-e-puxa."

Houve momentos em que Biden rompeu com a política do governo, principalmente quando anunciou seu apoio ao casamento gay em 2012, frustrando a intenção da Casa Branca de controlar as mensagens do governo.

Em outras ocasiões, Obama atribuiu tarefas importantes a Biden, como orientar o projeto de lei de estímulo econômico de 2009 no Congresso e supervisionar a retirada das tropas americanas no Iraque.

Biden ao lado do então presidente de El Salvador Sachez Ceren
Biden trouxe sua experiência em política externa ao governo de Obama

Uma forte amizade

Quando Biden terminou seus oito anos na Vice-presidência, ele e Obama haviam formado uma forte amizade.

Bower relata uma entrevista que fez com Biden, durante a qual ele ficou visivelmente emocionado ao falar sobre o discurso de Obama no funeral de Beau.

"Eles eram meio que uma família durante aqueles oito anos, por mais piegas que isso pareça", diz Bower.

"Era uma espécie de relacionamento pai e filho também, por causa da diferença de idade deles."

Em uma cerimônia surpresa nos últimos dias de Obama na Presidência, ele concedeu a Biden a Medalha Presidencial da Liberdade, a maior homenagem civil do país. Depois de brincar sobre o "romance" deles, Obama ficou sério.

"Conhecer Joe Biden é conhecer o amor sem pretensão, serviços sem amor-próprio e viver a vida plenamente", disse ele.

O discurso teve o teor de uma bênção, marcando o fim de uma longa carreira no serviço público. Um ano e meio antes, Obama pressionou Biden a não desafiar Hillary Clinton para a indicação presidencial.

"O presidente estava convencido de que eu não poderia derrotar Hillary", escreveu Biden, "e temeu que uma longa luta nas primárias dividisse o partido e deixasse o candidato democrata vulnerável nas eleições."

A reta final

Biden abraça Kamala Harris
Biden formou com Kamala Harris uma chapa multiétnica e multigeracional como a dele e de Obama

Quatro anos depois, Biden despachou Sanders com mais facilidade do que Clinton e finalmente garantiu a indicação democrata.

Seu sucesso deveu-se, em grande parte, aos serviços prestados por ele à Obama, o que lhe rendeu um apoio esmagador entre os democratas negros.

"Deixe-me explicar algo para você sobre Joe Biden", escreve Laurie Goff em um post no Facebook que capturou esse sentimento.

"Esse velho rico e branco era o segundo violino de um homem negro. Não qualquer negro, mas um negro mais jovem, um negro inteligente. Não apenas por um dia. Não um, não dois, mas oito anos. Isso é que significa ser nosso aliado", conclui.

No que poderia ser visto como um reconhecimento desse apoio, Biden escolheu uma ex-rival presidencial, Kamala Harris, para ser sua candidata à Vice-presidência.

Deu, assim, a uma mulher negra o trampolim para a Presidência que Obama lhe proporcionou oito anos antes.

Mais uma vez, os democratas formaram uma chapa presidencial multigeracional e multiétnica.

Foi assim que, após 40 anos de ambição política abalada por adversidades públicas e pessoais, Biden lançou-se pela terceira vez na disputa pelo cargo político mais importante dos Estados Unidos e, talvez do mundo.

Mas, agora, ele finalmente conquistou o grande prêmio.

Quatro anos depois de deixar a Casa Branca, Joe Biden voltará à sede do governo dos Estados Unidos. Mas, desta vez, será ele quem liderará a maior potência econômica e militar do mundo.

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