Quem é Lance Stroll, pole no GP da Turquia e símbolo do elitismo da Fórmula 1

Bruno Marinho
·2 minuto de leitura

ISTAMBUL - Pobre menino rico, Lance Stroll ainda não terá neste sábado um dia para não ver o talento para estar na Fórmula 1 sendo questionado. O canadense surpreendeu e conquistou sua primeira pole position na carreira, no Grande Prêmio da Turquia, mas os céticos sempre vão se lembrar das condições insólitas do treino para justificar o resultado: asfalto novo e ruim, chuva, pneus que não se aquecem em baixas temperaturas...

A história do piloto na categoria é marcada pela companhia de um asterisco permanente, que coloca em dúvida sua capacidade de estar no grid. Lance Stroll foi escolhido para ser o símbolo do elitismo antimeritocrático da Fórmula 1, em que, muitas vezes, o que vale mais é o dinheiro que o piloto é capaz de trazer para a equipe do que suas habilidades ao volante.

No caso dele, a mala veio abarrotada de dólares. Lance Stroll é filho de Lawrence Stroll, bilhonário com fortuna estimada em US$ 3,4 bilhões, de acordo com o ranking de março da revista "Forbes".

Foi o dinheiro do pai que deu sobrevida a Williams em 2017, quando Lance se tornou piloto da equipe aos 19 anos, prodígio de idade e com bons resultados nas categorias de base - foi campeão da Fórmula 4 italiana, da Toyota Racing Series e da Fórmula 3 Europeia.

Mas logo o bom currículo foi ofuscado pelas atuações ruins na Fórmula 1 e a narrativa de adolescente privilegiado bancado pelo pai se estabeleceu facilmente. Especialmente depois que outros jovens da mesma geração estrearam na Fórmula 1 e, à menor das oscilações, ele perdeu um lugar no grid - o caso mais notório é o do quase unanimamente mais talentoso Esteban Ocon.

Com o dinheiro do pai, que comprou a Force India e a transformou em Racing Point, Lance Stroll, depois de duas temporadas na Williams, deu um salto de qualidade em termos de equipamento nas mãos. Em termos de desempenho, a evolução não foi tão grande, tanto que Sergio Perez, seu companheiro no carro rosa, vem somando mais pontos do que o canadense há dois anos.

Entretanto, na reformulação da Racing Point, que se tranformará em Aston Martin depois que Lawrence comprou parte das ações da empresa, quem sobrou para a chegada de Sebastian Vettel não foi Lance. O pai não demitiria o filho, e o mexicano Perez está sem carro para 2021, até o momento.

Sergio Perez, de certa forma, experimenta do próprio veneno. Foi com o dinheiro do bilionário Carlos Slim, interessado em popularizar a Fórmula 1 no México, que o piloto entrou na categoria e se manteve nela em tempos de resultados ruins. A verdade é que o dinheiro sempre fez a diferença na comparação entre pilotos razoavelmente nivelados em termos de talento. Mas é Lance Stroll quem mais paga o preço por ter um patrocínio para desequilibrar a balança a seu favor.

*O repórter viaja a convite do Escritório de Cultura e Turismo da Turquia, com apoio da Azul