Quem é o autor da bandeira 'Criança não é Mãe' que viralizou nas redes em apoio à menina que teve aborto negado

Na manhã desta quarta-feira (22), enquanto tomava seu café, o ilustrador paulista Cristiano Siqueira leu sobre a prisão do ex-ministro da Educação Milton Ribeiro por suspeitas de corrupção e tráfico de influência. Àquela hora, já começavam os pedidos para que ele fizesse arte com a notícia. E ele fez. Compartilhou em suas redes sociais uma charge que mostra o presidente Jair Bolsonaro com os dentes cerrados de raiva e o rosto em chamas. Em março, quando apareceram as primeiras suspeitas contra o ex-ministro, Bolsonaro o defendera: “Eu boto a minha cara no fogo pelo Milton, a minha cara toda”. Até o início da tarde, a charge já acumulava mais de três mil curtidas no Instagram.

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O trabalho de Siqueira tem viralizado cada vez mais. Nesta terça (21), duas bandeiras do Brasil desenhadas por ele em protesto contra o caso da menina de 10 anos, vítima de um estupro, impedida de abortar por uma juíza catarinense, tomaram a internet. Uma delas trocava o verde pelo cor-de-rosa e substituía o lema “Ordem e progresso” por “Criança não é mãe”. A outra era azul e dizia: “Estuprador não é pai”. As bandeiras recuperavam hashtags usadas nas redes sociais e foram compartilhadas por famosos como Taís Araújo, Daniela Mercury e Angélica. Siqueira contou ao GLOBO que mal conseguiu ler a reportagem dos portais Catarinas e The Intercept Brasil que denuncia a situação da menina. O caso, no entanto, não lhe saía da cabeça. Decidiu, então, desenhar as bandeiras.

Siqueira quer que seu trabalho ajude mobilizar as redes em defesa de determinadas causas. Quando vê que nenhuma hashtag foi capaz de fazer barulho suficiente, ele arrisca uma ilustração. Na semana passada, compartilhou um card que pedia “Justiça por Dom e Bruno” após a confirmação do assassinato do jornalista e do indigenista na Amazônia. Viralizou.

— Sempre fico de olho nas notícias e aparecem algumas pautas nas quais não consigo parar de pensar. Então, uso meu trabalho, que é a ilustração, para me manifestar — explica. — Às vezes, as pessoas me pedem para desenhar alguma coisa que ajude a engajar mais gente.

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Siqueira tem 107 mil seguidores no Instagram e 53 mil no Twitter. Ele trabalha com ilustração desde 2005. Começou a usar seus desenhos para se manifestar politicamente durante as eleições de 2018. Fez uma caricatura de Bolsonaro com a hashtag #EleNão e distribuiu cópias em manifestações. A caricatura saiu até na imprensa e ele foi convidado a colaborar com o grupo Design Ativista. Siqueira já desenhou bandeiras nacionais com lemas como “Defenda o SUS” e “Estupro culposo não existe”

— Comecei a desenhar as bandeiras em 2020. É um símbolo nacional muito forte, com o qual as pessoas se identificam. Mudar o lema de acordo com a urgência de cada situação é uma maneira de protestar — afirma.

Siqueira é especialista em ilustração vetorial, na qual as imagens são criadas, por um programa de computador, a partir de formas geométricas básicas. Segundo seu site, ele já prestou serviços para empresas como Gillete e Nike e veículos noticiosos como o jornal americano Washington Post. A militância política nunca lhe causou problemas profissionais.

— Vários clientes me conhecem pelo Instagram e sabem do meu ativismo. Alguns até me pedem trabalhos por causa disso. Mas, no geral, meu posicionamento político não entra na pauta. Nunca soube de nenhum cliente que deixou de trabalhar comigo por causa disso — diz ele.

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