Quem é o Estado Islâmico Khorasan, responsável por ataques no Afeganistão

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GUARULHOS, SP (FOLHAPRESS) - Desde que civis e militares começaram a ser retirados do Afeganistão após a tomada do poder pelo Talibã, há pouco menos de duas semanas, o nome de outro grupo terrorista voltou ao debate: o Estado Islâmico (EI) Khorasan, uma espécie de filial afegã e paquistanesa do EI.

Nesta quinta-feira (25), o Estado Islâmico assumiu a autoria de duas explosões no aeroporto de Cabul. Os ataques deixaram ao menos 73 mortos, sendo 60 afegãos e 13 militares americanos.

Antes dos atentados, já temendo possíveis ações durante a retirada de pessoas de Cabul, os EUA vinham preparando o terreno em declarações públicas. Jake Sullivan, conselheiro de segurança do presidente Joe Biden, afirmou que havia um “risco agudo e crescente” de ataque no aeroporto por parte do EI Khorasan.

Nesta quarta (25, noite de terça no Brasil), a embaixada americana no Afeganistão recomendou a todos os seus cidadãos que estavam próximos dos portões de acesso a deixarem imediatamente a região devido a ameaças de segurança não especificadas nos arredores do local.

O surgimento do Estado Islâmico Khorasan remonta ao ano de 2014, quando o núcleo do EI declarou um califado, tipo de regime político islâmico encerrado há mais de um século, no Iraque e na Síria. Pouco depois, combatentes egressos do Talibã no Paquistão se uniram a um grupo de afegãos para formar um braço regional do Estado Islâmico, dando origem à célula Khorasan.

O grupo foi prontamente reconhecido pelo comando central do EI, jurou lealdade ao líder terrorista Abu Bakr al-Baghdadi —morto em 2019— e se estabeleceu em províncias no nordeste afegão, como Kunar, Nangarhar e Nuristão. Monitoramento da ONU indica que eles também têm presença na capital Cabul.

Khorasan faz referência a uma região histórica da antiga Pérsia, em território da Ásia Central que hoje engloba porções de, entre outros países, o próprio Afeganistão.

As últimas estimativas, de meados de julho de 2020, indicam que o grupo teria até 500 combatentes ativos. Ao longo dos sete anos de existência, o EI Khorasan reivindicou uma extensa lista de atentados no Afeganistão e no Paquistão, como um ataque a xiitas que deixou 91 mortos em um casamento em 2019.

Autoridades suspeitam que o grupo também foi responsável por abrir fogo em uma maternidade de Cabul em maio de 2020, matando 25 pessoas, entre as quais 16 mães e recém-nascidos. Mesmo com os ataques feitos nos últimos anos, porém, o EI Khorasan não controla nenhum território na região.

Desde que foi criado, o braço afegão do EI apresentou uma série de divergências públicas com o Talibã, que já resultaram em conflitos armados e disputa territorial, em especial na fronteira com o Paquistão.

Professor de direito internacional da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Salem Nasser explica que a principal divergência se dá em termos de qual doutrina islâmica cada grupo adota.

Enquanto o EI, dissidente da rede terrorista Al-Qaeda, tem em seu DNA o wahabismo, o Talibã nasce com base na escola hanafita. O primeiro adota uma doutrina mais radical do islã com base na tendência salafista que, em linhas gerais, compreende que os que não adotam uma versão radical da lei islâmica são infiéis. O segundo é ligeiramente mais moderado —o que, no entanto, não minimiza a violência talibã.

O EI, por exemplo, se opôs ao acordo de paz histórico assinado pelo Talibã com os EUA em fevereiro de 2020, quando promessas foram feitas dos dois lados. "Quando nasce, o Talibã não tem a sofisticação teórica e doutrinária da Al Qaeda ou do EI", explica Nasser. "Agora, porém, já está mais organizado." O professor aponta que o EI é o elemento central que pode aprofundar o caos no já instável Afeganistão, atrapalhando os planos talibãs de implementar um projeto fundamentalista a longo prazo na região.

Ao britânico The Guardian Charlie Winter, pesquisador-sênior do Centro Internacional para o Estudo da Radicalização, do King's College, em Londres, disse que a trajetória do EI Khorasan incluiu períodos difíceis em 2019 e no primeiro semestre de 2020 —mas que ela agora está tendo uma nova guinada.

"Eles ficaram em silêncio repentino desde a tomada do poder pelo Talibã, e uma possível razão para isso foi que o grupo estava se preparando para uma nova ofensiva."

Após os atentados desta quinta, os EUA se disseram determinados a repreender os autores —ao menos 12 militares americanos foram mortos nas explosões.

Para Carlos Gustavo Poggio, professor da Faap e especialista em política americana, o episódio não deve impulsionar um eventual retorno das tropas ocidentais para o Afeganistão, mas impõe mais uma camada de crise ao governo Biden.

Pode-se esperar um bombardeiro por via aérea, mas não uma ação volumosa dos militares americanos.

“Certamente vai aumentar a pressão doméstica de Biden, que já se vê pressionado por deputados e senadores de seu próprio partido pela forma como saiu do Afeganistão”, afirma. “Ele está diante da crise mais importante desde que assumiu [a Presidência].”

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