Quem é quem no Haiti, país onde grave crise institucional atingiu o auge com o assassinato do presidente

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O assassinato do presidente do Haiti, Jovenel Moïse, na madrugada desta quarta-feira, deixou a comunidade internacional em choque, mas acontece após meses de crise institucional, que levou ao agravamento da violência no país mais pobre das Américas.

Entenda o papel de Moïse e da oposição fragmentada na crise interna e por que a falência da Polícia Nacional e das Forças Armadas levou ao aumento sem precedentes das gangues na capital, Porto Príncipe. A falta de ação de países como Estados Unidos, França e Brasil também contribuiu para aumentar o cenário de instabilidade.

Assassinado nesta quarta-feira, Moïse construiu uma carreira empresarial de sucesso antes de assumir o cargo de presidente. Ele entrou no cenário político apenas em 2015 e poucos meses depois foi eleito para governar o país, após um longo e arrastado processo eleitoral.

Moïse tinha origem modesta: seu pai era mecânico e agricultor e sua mãe, costureira e comerciante. Ele nasceu em 26 de junho de 1968 em Trou du Nord (nordeste) e mudou-se em 1974 com sua família para Porto Príncipe, onde estudou na Faculdade de Ciências da Educação da Universidade Haitiana Quisqueya. Pai de dois filhos, era casado com Martine Etienne Joseph desde 1996.

Em 2012, inaugurou a primeira zona franca agrícola do Haiti e estabeleceu sua empresa Agritrans, para a qual obteve um empréstimo participativo de US$ 6 milhões do governo do seu antecessor, Michel Martelly. Sua entrada na política também é atribuída a Martelly, que, impedido de concorrer a um segundo mandato, o escolheu para representar o seu partido, o Tet Kale (PHTK), garantindo assim a sua sucessão.

Politicamente, o presidente foi incapaz de deter a espiral de violência do país, principalmente das gangues na capital Porto Príncipe. Nomeou sete primeiros-ministros em quatro anos e não conseguiu concretizar a reforma constitucional que buscava, o que gerou críticas até mesmo em seu próprio campo político. Desde fevereiro, após sua decisão de permanecer no cargo por mais um ano — quando a oposição afirmava que seu mandato acabaria naquele mês — vinha perdendo apoio político e governava por meio de decretos.

A oposição haitiana está fragmentada em três grupos principais. O primeiro reúne líderes políticos de direita e de centro-direita com pouca ou nenhuma base organizacional. Eles não questionam o status quo, mas muitas deficiências de governança da atual administração afetam seus interesses — muitos são do setor privado ou têm vínculos estreitos com ele.

Um segundo grupo é composto pelos principais partidos políticos tradicionais, liderados por ex-parlamentares e ministros. Eles são predominantemente social-democratas e lideram o processo de organização do governo interino que substituiria o de Moïse até a realização de eleições. Por último, há um pequeno número de partidos bastante estruturados, alguns deles com uma base social conhecida, mas que atuam como outsiders.

Além dos partidos políticos, uma grande associação de organizações da sociedade civil, formada por sindicatos, coletivos de jovens, feministas e defensores de direitos humanos, vinha pressionando o governo nas ruas, apesar da forte repressão. Todos esses grupos representam a esmagadora maioria da população, e estavam unidos em torno da defesa da Constituição, pedindo a queda de Moïse.

As pequenas Forças Armadas, recentemente reorganizadas — o ex-presidente Jean-Bertrand Aristide desmantelou o Exército em 1995 — eram leais ao governo de Moïse. A Polícia Nacional, por sua vez, foi politizada e atualmente está dividida, como ilustra a existência de dois sindicatos rivais recentemente criados.

Há ainda um grupo de ex-policias fortemente armados, o Fantom 509, responsável nos últimos meses pela fuga em massa de presos de duas penitenciárias na capital.

Um relatório do Unicef (Fundo da ONU para a Infância) publicado há 15 dias estima que existam hoje 95 gangues armadas que controlam grandes territórios da capital, ou cerca de um terço de Porto Príncipe, onde realizam sequestros e massacres. "Essas gangues estão cada vez mais envolvidas em batalhas armadas pelo controle do território, afetando a vida de cerca de 1,5 milhão de pessoas", afirma o documento.

Vários dos grupos armados estão agrupados no G-9 — que reúne nove gangues formadas no ano passado. Seu líder é o ex-policiail Jimmy Cherizier, conhecido como Barbecue. Na semana passada, Barbecue deu uma declaração para a mídia local na favela de La Saline, em que se retratou como um líder comunitário, que organiza "uma força revolucionária para livrar o Haiti da oposição, do governo e da burguesia". Ele é suspeito de vários massacres nos últimos anos.

O G-9 também pode estar por trás de um ataque coordenado da semana passada, em Porto Príncipe, que matou a ativista feminista Antoinette Duclaire, porta-voz da Matriz Liberación, e o jornalista Diego Charles, da Visión 2000, além de mais 18 pessoas.

Além disso, a polícia não está equipada para lidar com as gangues, que adquiriram armas cada vez mais sofisticadas, parcialmente financiadas por sequestros. O descontrole nas ruas expulsou 17 mil pessoas de suas casas desde o início de junho, de acordo com a Organização Internacional das Migrações (OIM), e causou a morte de dezenas de civis.

Lar de mais de um milhão de imigrantes vindos do país caribenho — e que compunham um poderoso lobby de oposição a Moïse em Washington — os EUA eram vistos como cruciais na resolução da atual crise política e social no país, que ocuparam militarmente entre 1915 e 1943.

Mas o governo de Joe Biden vinha fazendo muito pouco para lidar com a crise interna. Inicialmente, apoiou Moïse, mas se mostrava nos últimos meses "profundamente preocupado" com a fragilidade das instituições. Em abril, o embaixador do Haiti nos EUA pediu à comunidade internacional que ajudasse a mediar as negociações entre o governo e a oposição, à medida que a crise constitucional se intensificava. O governo americano, no entanto, ainda rejeitava os pedidos para que Moïse deixasse o cargo e defendia a realização de eleições legislativas e presidenciais ainda este ano.

O Brasil, embora tenha comandado por 13 anos, até 2017, a força de intervenção da ONU no Haiti, deixou de ter papel relevante no país desde que o presidente Jair Bolsonaro chegou ao poder. O país continua fazendo parte do grupo informal de embaixadores dos chamados países amigos, com União Europeia, Nações Unidas e OEA, mas vinha se manifestando pouco sobre a crise.

A França, por sua vez, antiga potência colonial no Haiti, onde uma revolta de escravos levou à independência em 1804, também vinha se omitindo em relação à crise no país nos últimos meses.

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