Quem é o sapo e quem é o escorpião na travessia de Moro e Bolsonaro no segundo turno?

Brazil's President and candidate for re-election Jair Bolsonaro speaks with Brazil's former Minister of Justice Sergio Moro during a Presidential Debate ahead of the runoff election, in Sao Paulo, Brazil, October 16, 2022. REUTERS/Mariana Greif
Sergio Moro orienta o ex-chefe e ex-inimigo Jair Bolsonaro durante debate. Foto: Mariana Greif/Reuters

Em uma conversa no WhatsApp com o então ministro da Justiça Sergio Moro, em meados de 2020, a deputada Carla Zambelli prenunciou que o Brasil entraria em colapso caso o ex-juiz deixasse o governo.

Moro deixou.

Houve, de fato, um princípio de incêndio, mas o colapso passou longe.

Jair Bolsonaro (PL) sobreviveu ao divórcio e Moro foi viver nos EUA enquanto pensava num plano B para retomar a carreira política.

O ex-juiz voltou ao Brasil crente de que seria carregado nos braços do povo em direção ao Palácio do Planalto. Mas sua pré-candidatura à Presidência pelo Podemos, como outras, morreu asfixiada entre duas plataformas políticas consolidadas: o lulismo e o bolsonarismo.

Não havia margem para terceira, quarta ou quinta via, como descobriram outros postulantes ao cargo antes e durante a campanha eleitoral.

Num ato final, Moro trocou de partido, foi para o novo rico União Brasil, e botou em prática seu plano C (ou D): disputar o Senado, mas não por São Paulo, como queria inicialmente, e sim pelo Paraná.

A vitória nas urnas foi uma espécie de prêmio de consolação à sua arte de sorrir toda vez que a vida e os aliados lhe disseram não. Fim da história? Calma que tem mais.

Moro passou os últimos dois anos atirando contra a França e a Rússia em sua trincheira particular. Ao seu antipetismo cada vez menos disfarçado ele uniu munições pesadas contra o antigo chefe que o humilhou na reunião de 22 de abril de 2020.

Em novembro de 2021, quando se filiou ao Podemos, o ex-juiz afirmou que seu trabalho foi boicotado e que Bolsonaro quebrou a promessa de combater a corrupção, “sem proteger quem quer que seja”, numa referência clara aos esforços do presidente em blindar seus filhos de investigações. Para ele, continuar como ministro representaria uma “farsa”. Ele acusava o ex-chefe de se querer influenciar no trabalho da Polícia Federal.

No mesmo evento, Moro pediu um basta à corrupção, à rachadinha e ao orçamento secreto, escândalos que explodiram no colo do atual governo.

Mais recentemente, disse que o país estava mal porque o presidente era ruim. Ele jogou na conta de Bolsonaro o desemprego, a inflação, a demora na aquisição de imunizantes e chamou a postura antivacina de "atitude maluca". “O Lula só está voltando porque esse governo é muito ruim”, sentenciou, em uma entrevista concedida em janeiro.

Mais: Bolsonaro, segundo seu ex-ministro, “pegou os caras que estavam com Lula e está tudo com ele hoje. E o cara vem falar que é contra a corrupção?”.

A indignação do ex-juiz com o atual governo foi se dissolvendo conforme se dissolviam também suas chances de ser eleito presidente.

Ele não era sequer favorito a ganhar uma vaga ao Senado, mas um rebranding pessoal o recolocou em jogo. Moro, aos poucos, voltou a abanar o rabo a quem lhe havia chutado do governo.

Primeiro dizendo que ele e Bolsonaro tinham em Lula em adversário em comum.

Depois, anunciando oficialmente seu apoio ao candidato à reeleição.

A volta dos que não foram só aconteceu porque Moro percebeu que não tinha por onde crescer entre o antipetismo e o antibolsonarismo e voltou a focar os esforços em abraçar o primeiro. Não dá para servir a dois senhores, mesmo quando a relação é regada ao ódio. Isso exigia uma reaproximação com o campo que acusou de fazer pouco caso com a corrupção.

Moro aprendeu e agora ensina que não há coerência moral que se sobreponha à conveniência política. No caso do bolsonarismo, ela requer uma dupla reconversão.

Bolsonaro sabe que todo apoio hoje é importante para bater Lula no segundo turno. E que não tinha nada a perder se voltasse a fingir que era ainda o candidato da mesma Lava Jato que ajudou a enterrar.

Mas e Moro? Agora que foi eleito, o que ganha se prestando a bajular e trabalhar como assessor informal até nos debates do candidato à reeleição?

No seu curso de reposicionamento de marca, ninguém avisou que seria bandeira demais trabalhar tão ostensivamente contra um candidato que ele tirou do jogo por uma decisão já considerada imparcial na última eleição?

Moro não parece se preocupar com isso – ou não avalia com cautela os riscos da reconversão.

O que parece é que ele não está satisfeito com o cargo para o qual foi eleito e ainda sequer assumiu no Senado. Como não estava satisfeito em seus postos de juiz de primeira instância, ministro com liberdade vigiada sob Bolsonaro, ou candidato a presidente em partido de pequeno/médio porte. O que ele quer é um voo maior.

Em um eventual segundo mandato de Bolsonaro, o sonho de vestir a toga de ministro do STF passa a fazer sentido em troca dos serviços prestados neste segundo turno ao capitão.

Ou, seja lá quem se saia vencedor em 30 de outubro, Moro já projeta que terá chances melhores de concorrer à Presidência em 2026 se ficar onde está.

Bolsonaro pode ter muitos defeitos, mas nenhum deles está associado ao faro de perceber quem cobiça e/ou está em campanha por seu cargo em seu entorno. Moro estava quando aceitou ser seu ministro da Justiça e foi fuzilado.

Como antes, a relação de mutualismo se desenha como a fábula do escorpião que usa as costas do sapo para atravessar o rio. Todos sabem que o anfíbio será picado ao fim da travessia. Com Moro e Bolsonaro, não será a primeira vez.

Nessa fábula, porém, não se sabe quem é sapo e quem é escorpião.