Quem é quem no Brasileirão 2020

Rodrigo Coutinho
·12 minuto de leitura
As prateleiras do Brasileirão de 2020 (Rodrigo Coutinho)
As prateleiras do Brasileirão de 2020 (Rodrigo Coutinho)

Depois de 19 rodadas disputadas em incríveis 84 dias, o Campeonato Brasileiro 2020 chegou ao final do 1º turno na última segunda-feira. Com algumas partidas atrasadas, é verdade, mas já com o cenário bem encaminhado daquilo que deveremos ter de briga por cada “prateleira” da competição. O Yahoo Esportes faz um balanço daquilo que vimos e do que podemos esperar na próxima metade da competição. O que cada equipe pode fazer, os pontos fortes e fracos dos 20 times.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 min e receba todos os seus emails em 1 só lugar

Siga o Yahoo Esportes no Google News

Briga consolidada pelo título – Internacional, Flamengo e Atlético/MG

Não é novidade que Internacional, Flamengo e Atlético Mineiro apresentaram os melhores desempenhos deste Brasileirão. A principal diferença com relação a 2019, quando três times também se postulavam ao título neste momento do campeonato, é que não há alguém com tanto crescimento quanto o Flamengo de Jorge Jesus. O Colorado, o Galo e o Mais Querido têm muitas virtudes, mas defeitos que acirram a disputa entre eles e abrem margem de perda de pontos para times mais modestos.

O Inter foi o time que mais mostrou intensidade no momento defensivo. Não se trata de uma equipe voltada aos contra-ataques. Pelo contrário, busca a posse de bola e tem um bom padrão ofensivo. Ocupa os espaços com correção e há coordenação na movimentação dos atletas. O problema é o encaixe entre as características da maioria dos titulares, mais voltados a um jogo físico e direto, com aquilo que o sistema idealizado propõe. E aí surge a dificuldade de criar em fase ofensiva.

A opção vem sendo o passe direto destinado aos atacantes para ganhar a “segunda bola” em disputas no meio. Edenilson e Patrick são moldados pra isso. Abel Hernandez também acrescenta nesse aspecto. O time então acelera e produz desta maneira. Aproveita também a temporada encantada de Thiago Galhardo, muito confortável atuando como atacante.

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - AUGUST 29:  Thiago Galhardo of Internacional celebrates after scoring the opening goal during a match between Botafogo and Internacional as part of Brasileirao Series A 2020 at Engenhao Stadium on August 29, 2020 in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by Bruna Prado/Getty Images)
Thiago Galhardo comemora um de seus gols no Brasileirão (Bruna Prado/Getty Images)

Outro detalhe primordial no sucesso é a intensidade das transições defensivas. É muito difícil fazer gol de contra-ataque no Colorado. O time perde a posse e já pressiona de maneira voraz. O mesmo apetite visto nos movimentos de subida de marcação nas saídas de bola adversárias. Fatos que não conseguem ser acompanhados pelo Flamengo, por exemplo.

A equipe dirigida por Domènec Torrent tem muitos problemas defensivos. Mesmo na vice-liderança, possui uma das defesas mais vazadas do campeonato. Fruto de um comportamento pouco competitivo sem a bola. O time até busca subir a marcação, mas faz na maioria das vezes sem intensidade, pressionando pouco quem tem a bola e espaçando os setores. Pra completar, Gustavo Henrique e Léo Pereira, dois dos principais reforços da temporada, não conseguiram ter um bom desempenho em 2020.

As transições defensivas rubro-negras também são problemáticas na maioria das vezes, há demora na recomposição, e quase sempre feitas em pressões pós-perdas abaixo da média de intensidade necessária. O que vem funcionando bem é a parte ofensiva. É o time que mais cria chances claras no campeonato. Os jogadores vêm comprando a ideia e desenvolvendo de forma satisfatória o ataque posicional implementado pelo catalão.

SAO PAULO, BRAZIL - OCTOBER 18: Hugo Souza of Flamengo gestures during the match against Corinthians as part of Brasileirao Series A 2020 at Neo Quimica Arena on October 18, 2020 in Sao Paulo, Brazil. (Photo by Alexandre Schneider/Getty Images)
Hugo tem sido a grande revelação do Flamengo nesta temporada (Alexandre Schneider/Getty Images)

Somamos a isso a imensa qualidade técnica do elenco. É, com sobras, o melhor do país. E sabemos o quanto isso é importante em competições por pontos corridos. Gabigol, artilheiro e herói do título da Libertadores, pode voltar como reserva quando retornar de lesão. Só para termos uma dimensão da qualidade do grupo. Pedro, Everton Ribeiro e Arrascaeta fazem grande temporada. Hugo e Natan são revelações de muito valor.

Tentar aproximar o elenco atleticano do que o Flamengo tem a disposição é uma tecla constantemente batida por Sampaoli. E o clube foi ao mercado em busca disso. Conseguiu montar um plantel com mais opções de qualidade e equilibrado em alguns setores. O time produz bastante ofensivamente, basicamente como o Flamengo, mas mostra muitos problemas para converter as chances em gol. Se desestabiliza com certa facilidade e acaba se desorganizando.

BELO HORIZONTE, BRAZIL - SEPTEMBER 26: Players of Atletico MG celebrate a scored goal against Gremio during a match between Atletico MG and Gremio as part of Brasileirao Series A 2020 at Mineirao Stadium on September 26, 2020 in Belo Horizonte, Brazil. The match is played behind closed doors and with precautionary measures against the spread of coronavirus (COVID-19).  (Photo by Pedro Vilela/Getty Images)
Galo é o time mais incosistente entre os principais postulantes ao título (Pedro Vilela/Getty Images)

O cenário faz com que o Atlético seja o time mais inconsistente do trio de frente. Mas não é só isso. O sistema defensivo também tem problemas, principalmente em transições. Como envolve muitos jogadores em fase ofensiva e nem sempre faz uma pressão pós-perda eficaz, expõe constantemente seus defensores a situações de mano a mano com atacantes mais rápidos, e isso tem se mostrado fatal. Se ajustar esses pontos, vai brigar com muita força pelo caneco que não vem desde 1971.

Postulantes à briga pelo título – São Paulo e Palmeiras

Um é o 4º (com três jogos a menos) e o outro é 6º. Fluminense e Santos estão entre eles. Mas o que coloca a dupla da capital paulista num patamar diferente. Primeiro o nível técnico do elenco, que é notadamente superior aos dos outros dois clubes, e o potencial de crescimento neste momento do Campeonato.

O São Paulo segue irregular. É capaz de enfiar 4x1 no Flamengo com uma grande atuação em pleno Maracanã, mas ser superado por um time que não atuava há sete meses, como aconteceu contra o Lanús. Por isso, mesmo com a possibilidade de assumir a liderança caso vença os seus três jogos atrasados, não é confiável a ponto de estar na mesma prateleira de Flamengo, Atlético e Inter.

Brazil's Sao Paulo Dani Alves (L) celebrates with Brazil's Sao Paulo Diego Costa after scoring against Argentina's Lanus during their closed-door Copa Sudamericana second round football match at Morumbi Stadium in Sao Paulo, Brazil, on November 4, 2020, amid the COVID-19 novel coronavirus pandemic. (Photo by FERNANDO BIZERRA / POOL / AFP) (Photo by FERNANDO BIZERRA/POOL/AFP via Getty Images)
Inconsistência afasta o São Paulo do grupo dos favoritos (FERNANDO BIZERRA/POOL/AFP via Getty Images)

Fernando Diniz segue tentando fazer o time crescer em suas ideias de futebol. Manutenção da posse de bola, constantes linhas de passe pelo meio com o acúmulo de jogadores transitando no setor, saídas sempre através de passes curtos e o encorajamento para que os atletas busquem sempre “jogar”, e não se livrem da bola. Brenner deu a contundência que o time precisava diante da meta. O retorno de Bruno Alves deu mais segurança na defesa, mas ainda há oscilações importantes sem a bola.

Falta definir um padrão mais nítido de marcação. Muitas vezes se perde em alguns encaixes e há o espaçamento entre atletas do mesmo setor, falta intensidade em muitos jogos, e as transições defensivas estão bem longe de estarem funcionando. Difícil prever um São Paulo mais competitivo neste aspecto se nos basearmos nos trabalhos de Fernando Diniz.

O Palmeiras tem o segundo melhor elenco do país. Perdeu dez meses do ano apostando em um Vanderlei Luxemburgo que não pode mais oferecer aquilo que é a realidade do clube hoje: ser protagonista no cenário nacional. E ser protagonista, no caso do Palmeiras, pede, entre outras coisas, mais organização em fase ofensiva. Mecanismos coletivos bem treinados para que o potencial individual de alguns atletas aflore mais.

SAO PAULO, BRAZIL - NOVEMBER 02: Raphael Veiga #23 of Palmeiras celebrates with his team mates the first goal of their team during the match against Atletico MG as part of Brasileirao Series A 2020 at Allianz Parque on November 02, 2020 in Sao Paulo, Brazil. (Photo by Alexandre Schneider/Getty Images)
Palmeiras terminou primeiro turno em alta com o interno Cebola (Alexandre Schneider/Getty Images)

O português Abel Ferreira foi contratado para oferecer isso. Mostrou-se capaz nos trabalhos que fez no Braga e no Paok. É jovem e precisa se adaptar rápido ao choque cultural que é o futebol brasileiro. Andrey Lopes, o Cebola, fez um bom trabalho de transição. Ganhou pontos importantes para que o Verdão não se distanciasse tanto dos líderes, mas nos jogos em que comandou, montou um time voltado para os contra-ataques. Algo que Abel não deve fazer. Um trabalho que começará praticamente do zero. Dará tempo de brigar pelo título?

Brigam por vaga no G6 – Fluminense, Santos, Grêmio e Fortaleza

Dos quatro citados, Fluminense e Fortaleza são os times que apresentam mais regularidade. O Tricolor carioca é o atual quarto colocado em mais um trabalho de muita competitividade de Odair Hellmann. Repete no time das Laranjeiras aquilo que fez no Internacional. Tem uma defesa forte e organizada, marca por encaixes no setor, sem perseguições longas, e é muito forte nas transições.

Um time que não abaixa a guarda seja qual for o adversário, e que tem em Nenê, mesmo com 39 anos de idade, um símbolo de precisão no último passe e nas finalizações. Dodi, Luccas Claro, Danilo Barcelos e Michel Araujo são nomes pouco badalados, mas muito importantes dentro da realidade do Fluminense. Sem contar a habilidade de gestão de grupo de Odair. Ministra bem os minutos de Fred e Ganso sem ter problemas graves de relacionamento. O time precisa melhorar bastante em termos criativos, sofre para criar espaços, mas na realidade do Brasileirão deve lutar até o fim por vaga na Libertadores.

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - OCTOBER 25: Players of Fluminense celebrate after winning the match between Fluminense and Santos as part of the Brasileirao Series A at Maracana Stadium on October 25, 2020 in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by Bruna Prado/Getty Images)
Fluminense de Odair não tem baixado a guarda para qualquer rival (Bruna Prado/Getty Images)

No Fortaleza, Rogério Ceni faz, certamente, o melhor trabalho de um técnico brasileiro em um clube nacional dos últimos três anos. Mesmo com um elenco bem inferior, briga novamente na primeira página da tabela. Molda sua estratégia de acordo com o adversário. Sabe jogar mais ofensivamente quando necessário e nos contra-ataques é eficiente quase sempre. Reforçou o seu sistema defensivo e tem tido mais competitividade. É a grande referência do grupo de jogadores.

O Santos, em meio ao caos que a sua diretoria promove diariamente no clube, conseguiu reagir a um início de ano ruim sob o comando de Jesualdo Ferreira. Cuca deu mais intensidade ao time no momento defensivo, acrescentou mobilidade ao Peixe com a bola e montou uma base que entrega competitividade contra qualquer adversário. Falta mais repertório ofensivo, capacidade de ‘’pausar’’ o jogo em alguns momentos, mas o alvinegro praiano vai brigar no G6.

Fechando esse grupo tem a “incógnita Grêmio”. É nítida a queda de desempenho do time nas últimas temporadas. O trabalho de campo e bola de Renato já não funciona como nos primeiros dois anos, o elenco tem muitas escolhas questionáveis que acabam tirando espaço de jovens promissores, mas o comandante domina bem a gestão de crise e o vestiário. Pode tirar na base da superação um rendimento melhor de atletas titulares que já deram uma boa resposta.

Meio de Tabela – Corinthians, Bahia, Ceará e Sport

Dessas quatro equipes, Ceará e Sport já conseguiram apresentar algo mais consolidado. O Leão da Ilha é atualmente o 9º colocado, mas a ausência de algo mais elaborado quando precisa atacar é preocupante. Jair Ventura conseguiu organizar a equipe defensivamente e certamente isso é suficiente para alcançar o objetivo do ano, que é ficar na Série A. O time leva perigo em contra-ataques, mas precisa de adversários que não tenham uma transição defensiva eficiente para essa estratégia dar certo.

Já o Vozão tem realidade similar. Guto Ferreira tem como especialidade montar sistemas defensivos seguros. Vem tentando oferecer algo mais elaborado ofensivamente com um elenco que é superior ao que o Ceará teve nos últimos anos. O problema é que muitas vezes não consegue achar esse equilíbrio. Acaba se expondo e perdendo aquilo que tem de melhor. Não dá mostras que vai lutar contra o rebaixamento, mas também não deve obter nada superior.

O Corinthians conseguiu o mínimo de competitividade recentemente com Vagner Mancini. As oscilações continuarão por um período e é preciso acompanhar com atenção para entender no que elas podem resultar. A pressão política no clube é muito forte e o elenco, por mais que tenha ganho reforços recentemente, tem carências bem nítidas. A ideia parece ser terminar o campeonato de forma segura, longe do Z4.

Brazil's Bahia Fessin (3-R) celebrates with teammates after scoring against Peru's Melgar during their closed-door Copa Sudamericana second round football match at the Fonte Nova Arena in Salvador, Brazil, on November 5, 2020, amid the COVID-19 novel coronavirus pandemic. (Photo by Arisson MARINHO / AFP) (Photo by ARISSON MARINHO/AFP via Getty Images)
Mano Menezes chegou e vem sofrendo para ajustar a equipe à sua maneira (ARISSON MARINHO/AFP via Getty Images)

Já o Bahia tenta arrumar a casa depois de demitir Roger Machado. Mano Menezes chegou e vem sofrendo para ajustar a equipe à sua maneira. Defensivamente, o Tricolor segue irregular, sofre muitos gols e tem problemas coletivos. Na frente, conta com bons jogadores, mas talvez falte mais potência para determinados jogos em que a proposta de jogar em contra-ataque seja a realidade. E Mano deve buscar essa estratégia com frequência. Uma grande incógnita. Não dá pra cravar que não lutará contra o rebaixamento, mas tem material humano para reagir.

Luta pela permanência – Atlético Goianiense, Botafogo, Vasco, Coritiba, Red Bull Bragantino, Athletico Paranaense e Goiás

É muito provável que os quatro rebaixados estejam entre esses sete clubes. De todos, Red Bull Bragantino e Athlético Paranaense são as principais decepções. Ambos possuem estrutura, salários em dia e elencos com potencial para fazer mais, mas mexeram no comando técnico e ainda derrapam em virtude dos efeitos disso.

O Furacão mandou embora Dorival Junior em meio a uma Covid-19, ameaçou efetivar Eduardo Barros, e agora aposta no experiente Paulo Autuori. O resultado é um time amorfo em campo. Sem confiança, com padrão de jogo questionável e cada dia mais pressionado para se recuperar. O Massa Bruta demitiu Felipe Conceição após problemas de relacionamento com o elenco. Trouxe Maurício Barbieri. Ambos têm ideias de jogo muito próximas, o que facilitaria a adaptação, mas o time ainda não deu ‘’liga’’. Tem problemas em todas as fases do jogo. Precisa reagir logo!

Atlético Goianiense, Botafogo, Vasco, Coritiba e Goiás não surpreendem na parte de baixo da tabela. Por mais que tenham tradições, elencos e orçamentos em hierarquia diferentes, não davam mostras de cumprir outro papel na competição. O Dragão e o Gigante da Colina ainda tiveram bons momentos com Vagner Mancini e Ramon Menezes respectivamente no comando, mas perderam os treinadores por diferentes motivos. O time goiano não tinha o que fazer. Já os cariocas protagonizaram uma das demissões mais absurdas dos últimos anos. Pode pagar caro por isso.

RIO DE JANEIRO, BRAZIL - OCTOBER 31: Matheus Babi of Botafogo celebrates after scoring the second goal of his team with teammates  during the match between Botafogo and Ceara as part of the Brasileirao Series A at Engenhao Stadium on October 31, 2020 in Rio de Janeiro, Brazil. (Photo by Bruna Prado/Getty Images)
Botafogo tem jogadores para estar em condições melhores (Bruna Prado/Getty Images)

O Botafogo patina em uma crise financeira sem fim e nitidamente não sabe o que fazer na administração de seu futebol. Mostrou que pode sair da situação em alguns jogos. Tem jogadores pra conseguir mais, como Bruno Nazário, Victor Luís, Marcelo Benevenuto, Honda, Caio Alexandre, Gatito Fernandez e Kalou, mas falta definir como quer jogar.

Goiás e Coritiba repetem o “manual do rebaixamento” já visto em outros anos. Montaram elencos fracos para a competição, buscam reforça-los com a competição em andamento e trocam de treinador a cada sequência de derrotas. Pra completar, contam com diretorias totalmente passionais na condução dos problemas do dia a dia. Difícil se salvarem.

Siga o Yahoo Esportes no Instagram, Facebook e Twitter

Assine agora a newsletter Yahoo em 3 Minutos