Quem foi Di Cavalcanti, artista que teve obra atacada a facadas por golpistas em Brasília

Autor de “As mulatas”, obra esfaqueada por terroristas neste domingo (9), no Palácio do Planalto, o pintor carioca Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, o Di Cavalcanti, firmou-se como um dos maiores nomes do modernismo brasileiro ao retratar o povo e a cultura popular: o carnaval, o samba, as favelas, os operários, a população miscigenada. A curadora Denise Mattar, organizadora (ao lado de Elisabeth Di Cavalcanti, filha do pintor) do livro “Di Cavalcanti: conquistador de lirismos”, afirma que o carioca foi “o primeiro artista a colocar as mulheres negras nas salas de jantar da elite”. O quadro "As mulatas", é um exemplo disso.

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Nascido no Rio de Janeiro, em 1897, Di perdeu o pai aos 17 anos e sempre precisou tirar da arte o seu sustento. Começou publicando caricaturas na revista Fon-Fon e se revelou um talentoso chargista social. Em 1916, mudou-se para São Paulo, ingressou na Faculdade de Direito, passou a frequentar o ateliê do impressionista George Fischer Elpons e fez amizade com Mário e Oswald de Andrade. Ao lado dos dois, organizou a Semana de Arte Moderna, realizada no Theatro Municipal de São Paulo, em fevereiro de 1922, cujo objetivo era apresentar ao público uma arte genuinamente brasileira, capaz de fazer refletir o país e pensar a identidade nacional (embora influenciada pelas vanguardas europeias). Di desenhou a capa do catálogo e as peças promocionais do evento e ainda expôs 11 obras no Theatro Municipal.

Com uma produção que se estendeu dos anos 1920 até os anos 1970, Di faleceu em 1976, no Rio. Entre suas principais obras estão: “Samba”, de 1925, destruída em um incêndio em 2012; “Cinco moças em Guaratinguetá”, de 1930, que pertence ao acervo do MASP; o mural “Navio negreiro”, de 1961, que passou 25 anos exposta no Museu de Belas Artes do Rio; e “O baile popular”, a última tela pintada por ele, em 1972.

Conhecido principalmente por representar a sensualidade das mulheres negras — as “mulatas” — e cenas populares em cores vivas, Di foi influenciado pelas principais correntes modernistas importadas da Europa: expressionismo, cubismo, surrealismo. Denise Mattar, no entanto, prefere a expressão que o próprio pintor escolheu para descrever seu trabalho: realismo mágico. Segundo a curadora, Di trouxe o povo para a arte brasileira, mas, diferentemente de outros modernistas, a partir de um “olhar de dentro”.

— Entre os modernistas de 1922, Di foi o primeiro a realmente mostrar o povo brasileiro. Ele conhecia os morros, era amigo de sambistas e intelectuais e circulava bastante, estava em todos os lugares ao mesmo tempo — afirma.

Político

“As mulatas”, no entanto, não foi a única obra de Di Cavalcanti avariada em Brasília recentemente. Na última quinta-feira, a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, apontou que a tapeçaria “Músicos” foi danificada durante o governo de Jair Bolsonaro por ter ficado exposta à luz solar. Encomendada pelo próprio Oscar Niemeyer, a tapeçaria foi retirada da biblioteca do Palácio do Planalto para a instalação dos equipamentos usados nas lives do ex-presidente.

Tanto “As mulatas” quanto “Os músicos”, diz Mattar, refletem o interesse do artista pelo muralismo.

— Entre o final dos anos 1950 e o início dos 1960, Di viveu seu período de muralista. Havia uma demanda por obras de arte para ocupar os espaços lisos da arquitetura moderna. Nesse período, Di fez uma quantidade enorme de painéis — explica. — Ele já conhecia a obra dos muralistas mexicanos, como Diego Rivera, desde os anos 1920, mas só os encontrou pessoalmente quando visitou o México, em 1949. O muralismo mexicano era muito político. Di chegou a dizer que era “feito de sangue”. Mas não era o que ele queria fazer. Ele preferiu pintar o povo brasileiro em sua essência e mostrar toda a nossa alegria, energia e exuberância.

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Di, no entanto, também era político. Homem de esquerda, foi próximo do Partido Comunista Brasileiro. Chegou a ser preso duas vezes por suas posições políticas: em 1932, durante a Revolução Constitucionalista, e em 1936. Após a segunda prisão, escondeu-se na Ilha de Paquetá até se exilar em Paris, onde permaneceu até 1940. Em 1964, foi indicado, pelo presidente João Goulart, para ser adido cultural na França, mas não assumiu o posto devido ao golpe militar de 31 de março.

O pintor também ilustrou livros de autores como Vinicius de Moraes e Jorge Amado, pintou as estações da via-sacra na Catedral de Brasília e também desenhou joias. É um dos artistas brasileiros de maior renome internacional. Em 2019, o painel “Bumba meu boi”, pintado no México em 1960, foi avaliado em R$ 20 milhões. “Músicos” vale cerca de R$ 5 milhões. Já “As mulatas” é avaliada em R$ 8 milhões, segundo o galerista e curador Max Perlingeiro. Ao GLOBO, a restauradora Carla Prates afirmou que a recuperação da obra, perfurada em seis pontos por bolsonaristas radicais, pode levar até 90 dias.