Quem foi Tereza de Benguela, escravizada que virou rainha no Brasil

Símbolo nacional da liderança feminina contra a colonização, Tereza de Benguela foi uma mulher negra que viveu a experiência de liberdade dentro da estrutura escravocrata do Brasil. No século XVIII, ela habitava o território correspondente ao atual estado do Mato Grosso e, por ao menos 20 anos, chefiou o Quilombo do Quariterê, uma comunidade da qual pouco se sabe, além do que dizem dois manuscritos, que registraram justamente a destruição do aldeamento, em 1770.

Quase quatro pessoas encontradas por dia: País já teve 500 pessoas resgatadas em trabalho análogo à escravidão em 2022

Vítimas da desigualdade: 32% das mulheres jovens negras estão sem estudar e sem emprego

Descrita e comparada com as rainhas africanas conhecidas à época, os registros indicam que as autoridades coloniais envolvidas em eliminar o quilombo não deixavam de ver Tereza como uma figura imponente. O nome dela aparece na história como alguém que, durante a vida, lutou contra a escravidão, motivo pelo qual virou representante do Dia da Mulher Negra no Brasil, que, desde 2014, ocorre em 25 de julho.

— Isso nos faz pensar que a liderança feminina pode não ter sido exceção na luta cotidiana contra a escravidão, embora seja difícil encontrar documentos de outras mulheres na mesma posição — disse a historiadora e professora da PUC-Rio Crislayne Alfagali ao GLOBO. — Talvez, lembrar de Tereza de Benguela seja lembrar que, assim como houve escravidão, também existiu resistência.

Ouça o podcast: Laurentino Gomes: a escravidão no Brasil, entre a Independência e a Lei Áurea

De Benguela ao Quariterê

Em um período de forte busca por ouro, o tráfico entre Rio de Janeiro, Luanda e Benguela — localizado onde hoje é o país de Angola — foi intensificado no século 18. De acordo com a historiadora, Tereza foi uma das muitas escravizadas que, nesse contexto, veio da África Centro-Ocidental em direção às regiões de mineração no território brasileiro.

— O quilombo da Tereza é um dos muitos que surgem durante a exploração aurífera. Era um momento de intensificação da escravização de africanos e das lutas contra a população indígena.

Pesquisa inédita: Abolição da escravidão é fato mais importante da História do país para os brasileiros; veja lista

Também conhecido como Quilombo do Piolho, o Quariterê era organizado por uma estrutura política composta por um parlamento. Com a população estimada em cerca de 100 pessoas, incluindo negros e indígenas, havia, ainda, um sistema de defesa armada, que o preservou por 20 anos. O local servia de base para o cultivo de algodão, milho, feijão e mandioca, e os tecidos produzidos eram comercializados com os colonos.

— No quilombo, havia plantação de algodão, produção de tecido e metalurgia. Isso é interessante, do ponto de vista da organização, pois dá a ideia de uma região autossustentável, que reúne um conhecimento que, por certo, vem da África — comentou a professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB) Maria Cláudia Cardoso.

Eleições 2022: Movimentos negros se unem para lançar candidatos e formar frente antirracista

A rainha ‘viúva’

Embora a trajetória e construção do quilombo sejam marcadas pela existência de lacunas na história, Maria diz que existem duas narrativas principais sobre a liderança de Tereza. A primeira seria a de que ela teria comandado o Quariterê ao lado de um companheiro, conhecido como Piolho. Já outros documentos afirmam que Tereza assume o papel quando ele é assassinado pelos colonos.

Apesar de ser definida como rainha em alguns manuscritos, a existência de Tereza também é mencionada de maneira despótica em outros escritos, como se ela tivesse sido uma mulher de hábitos maquiavélicos. Nas histórias, que viraram lendas, ela teria mandado enterrar pessoas vivas, enforcar e quebrar as pernas de quem questionasse sua autoridade. Em ambos os casos, ela foi registrada como uma líder importante, cercada por servos e indígenas.

Veja vídeo: Presidente da Funai é xingado de 'miliciano' e abandona evento com povos indígenas na Espanha

— Para alguns, ela foi uma líder como Cleópatra. Mas, para outros, ela foi tirânica. De qualquer forma, a única certeza é que ela foi uma mulher que liderou um quilombo importante da região, o que é raro — destacou Crislayne.

Como o restante da história, a morte de Tereza também é composta por incertezas. Segundo a professora da PUC-Rio, a primeira investida na destruição do quilombo ocorreu em 1770, e, na ocasião, ela teria tentado fugir a cavalo, provavelmente ao lado de um soldado, mas caiu no rio e foi pega por soldados coloniais. Uma outra versão diz que ela teria tirado a própria vida ao perder o embate com os portugueses.

— Dizem que ela morreu assustada. Não sabemos ao certo o que isso significa, mas a cabeça dela foi cortada e colocada no centro de seu antigo quilombo como uma forma de mostrar o ‘exemplo’ do que ocorre com pessoas que lutam contra a administração colonial.

Uma heroína de carne e osso

Ainda que Tereza represente parte importante da história do Brasil, o nome dela não faz parte do imaginário popular. Para a historiadora Idalina Freitas, também professora da UNILAB, isso pode ser justificado em parte pela ausência de documentos, mas, principalmente, pelas questões que envolvem o fomento à pesquisa no país.

— Há o recorte de raça, classe e gênero na história. Para mim, isso é o principal ao pensar no desconhecimento desses personagens. Isso pauta a memória nacional, de quem deve ser lembrado e esquecido. Só conseguimos descobrir essas coisas com pesquisa, e, para isso, é preciso ter dinheiro.

Emicida: 'Escola pode ser primeiro local de contato direto do aluno com o racismo'

Entre as conquistas, Idalina ressalta a lei 10.639, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nos ensinos fundamental e médio. No entanto, para ela, é importante que esse aprendizado também faça parte da educação básica e estimule a curiosidade para que esses personagens sejam conhecidos.

— Temos um vício, na educação, de construir narrativas de pessoas que são inalcançáveis. Mas acho que a história deve ser um espelho que reflete as pessoas do presente. Quantas Terezas de Benguela também vivem hoje, criando filhos, os levando para a escola e tentando ter moradia e emprego para sobreviver? Tereza foi uma heroína de carne e osso, uma pessoa comum.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos