Quem mais perdeu no debate de sábado à noite com os presidenciáveis?

Candidatos momentos antes do início do debate SBT/CNN (Reprodução)
Candidatos momentos antes do início do debate SBT/CNN (Reprodução)

O ex-presidente Lula (PT) fez mal em não participar do debate com os presidenciáveis promovido por SBT e CNN no sábado (25).

O espaço vazio deixado pelo petista poderia ser ocupado com respostas à artilharia disparada contra ele durante o encontro. No jogo em que não entrou em campo, o placar foi de 6 a 0 para os rivais. Se isso vai desidratar a gordura da vantagem apontada nas pesquisas, são outros 500.

Sem Lula em campo, sobrou para Jair Bolsonaro (PL) o restante das balas, num placar que Padre Kelman (PTB), novidade do encontro, pontuou em 5 a 2. Só havia seis concorrentes no estúdio.

Após o debate, o conceito de dobradinha caiu em desuso para explicar o papel de linha auxiliar, ou escada, do extravagante padre que não é padre para replicar conceitos-chave do bolsonarismo ao longo da transmissão: a demonização da esquerda, das pautas feministas, do direito ao aborto, etc.

O papel assumido ali pelo presidenciável que pouca gente conhecia está mais próximo da suserania e da vassalagem dos tempos medievais do que nas dobradinhas tradicionais.

Não se pode dizer que não teve êxito em cumprir a missão, já que o formato do debate garantia ao paraquedista o mesmo tempo de exposição dos demais, dobrando a parte que cabia ao extremismo de direita.

Tendo um auxiliar ainda mais bolsonarista à sua frente, e vendo em Ciro Gomes (PDT) o antilulista mais engajado entre os participantes, Bolsonaro ficou na retaguarda. Preferiu apresentar aos espectadores a sua versão “mito acorrentado” e manso, segundo a qual só não fez o país decolar nos últimos três anos e meio porque forças ocultas, a começar pelo STF, não permitiram.

Tentou assim emplacar a ideia de que não houve corrupção em seu governo e, em busca dos eleitores que hoje o rejeitam, vender a ideia de que estava à frente de um governo com alguma preocupação com a pobreza.

Bolsonaro inflou com ar e mentiras uma bexiga que os adversários estouraram facilmente com seus alfinetes.

Simone Tebet (MDB) foi quem fez questão de lembrar aos espectadores que o “mito acorrentado” não foi impedido de trabalhar; ele que passou parte do mandato de férias passeando com seu jet ski.

Soraya Thronicke (União Brasil) também foi para cima do capitão com um conjunto de frases-feitas com a intenção escancarada de produzir memes e vídeos curtos para as redes. Como quando pediu para que o capitão não cutucasse a onça (no caso, ela) com sua vara-curta. A candidata sul-mato-grossense já havia evocado o espírito da personagem Juma, de “Pantanal”, no debate da Band. O presidente "imbrochável" ao menos tinha quem o defendesse dessa vez.

Nos intervalos, chamou a atenção as conversas ao pé do ouvido entre Ciro Gomes e Bolsonaro, em um momento, e depois com o ministro das Comunicações, Fábio Faria. Mas fora dos bastidores Ciro não fez jus à crítica de que escolhera Lula para o paredão enquanto aliviava para o presidente.

Bolsonaro cutucou o ex-governador do Ceará ao jogar no seu colo uma acusação de desvios na construção da Arena Castelão, em Fortaleza, alvo de uma ação da Polícia Federal.

Ciro se defendeu atacando. Disse ter sido vítima de “uma ação meramente cautelar”, lembrou que não foi sequer denunciado e que a ação “foi julgada por unanimidade ilegal. Na sequência ele mostrou por que não parava de pé a conversa de Bolsonaro sobre o fim da corrupção em seu governo. Acusou o presidente de vender a carteira de crédito de R$ 3,3 bilhões do Banco do Brasil “por 300 e poucos milhões” para o BTG. “Aí tem”, disse.

Lembrou também que o governo vendeu a refinaria Landulfo Alves “por metade do preço, para um fundo obscuro dos Emirados Árabes”. “Se vendeu pela metade do preço, alguém ganhou e o povo brasileiro perdeu”.

Disse também que Bolsonaro vendeu gasodutos e oleodutos da Petrobras e “entregou um contrato de aluguel”. “Essa é a roubalheira mais escandalosa que eu já vi. Não vou falar da biografia, filhos envolvidos em compra com dinheiro em espécie”, citou –de passagem, mas citou.

Tebet também aproveitou a deixa para dizer que estava “lá na CPI da Covid” e reuniu provas de irregularidades no contrato da vacina indiana Covaxin “Quando autoridades do Ministério da Saúde perderem foro privilegiado, eles vão responder na Justiça”.

Ela lembrou também uma acusação de que pastores ligados ao Ministério da Educação são suspeitos de cobrar propina de empresários. “Tem denúncias de dinheiro em pneus sendo distribuídos”, lembrou.

Como num baile à fantasia, entre máscaras de onças, dublê de presidente e padre ortodoxo, o debate se transformou num grande ringue no qual quem esperava alguma ideia para tirar o país do atoleiro foi dormir sem qualquer resposta.

Não é por outra razão que a passagem mais marcante do encontro foi o momento em que o falso padre, fantasiado também de candidato a presidente, quis ensinar o conceito de feminismo para uma mulher e ouviu de volta que ela jamais se confessaria com ele. A partir dali o bate-boca se esborrachou em quem era mais cristão.

Houve quem desconfiasse que não era bem para isso que os candidatos estavam ali.

Diante do entretenimento ruim, não faltou quem nomeasse Lula como o único que levou alguma vantagem por não participar do esquete. Não foi bem assim.

Difícil é apontar quem mais saiu perdendo, se os candidatos que fizeram parte da plateia perder seu tempo no sábado à noite ou se a plateia que concedeu às atrações televisivas um tempo precioso do seu fim de semana. Não perdeu nada quem trocou o debate pela série do canibal.