Quem teve Covid-19 e se curou adverte: 'Fique em casa'

Regiane Jesus
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Em frente não havia linha de chegada, pódio, troféu, medalha ou prêmio em dinheiro. O que havia era a gratificante sensação de ter superado um inimigo invisível, potente, perigoso, traiçoeiro, devastador. Havia ainda, para os que enfrentaram as batalhas mais difíceis, um grupo de heróis, vestidos de branco a aplaudi-los na despedida daquele ambiente nada festivo. Ser um campeão desta verdadeira guerra contra a Covid-19 é mesmo um feito a ser comemorado. O caderno Tijuca + Zona Norte ouviu histórias de quem lutou pela vida sem perder o fôlego, ainda que lhe faltasse ar para respirar. Estes vencedores têm em comum o drama de temer o pior, a esperança de dias melhores e um pedido: se puder, fique em casa.

Aos 39 anos, o médico intensivista Rodrigo Costa, que antes da sua formação em Medicina atuou por mais de uma década como enfermeiro no CTI do Hospital Federal de Bonsucesso, sentiu na pele a dor dos pacientes que começaram a ficar sob os seus cuidados, em estado grave, a partir de meados de março para tratar os efeitos do novo coronavírus. Na linha de frente do combate à doença, o marido e Amanda e pai da Maria Clara, de 10 meses, foi contaminado, e seu caso evoluiu para um estado que poderia ter um desfecho trágico, mesmo sendo ele um jovem sem diagnóstico de comorbidade.

— Comecei a ter febre, dor no corpo e na cabeça. Imediatamente, percebi que havia contraído a Covid-19. Então, eu me isolei no quarto, pedi que levassem o meu pai, de 83 anos, para a casa de uma tia e fiquei sob os cuidados da minha mulher, que é enfermeira. No sétimo dia de doença, o meu quadro respiratório se agravou. Tossia muito e estava prostrado, extremamente cansado. Fui para o hospital (São Lucas, em Copacabana, um dos seus locais de trabalho), fiz exames e ficou constatado que a minha oxigenação estava abaixo do normal e que, consequentemente, as funções dos pulmões já estavam prejudicadas. Inicialmente, fiquei internado em um quarto com suporte de oxigênio por três dias, mas depois fui transferido para o CTI. Foi terrível. Não vou mentir, tive medo de morrer. Como médico, sei que as complicações acontecem rapidamente — diz Costa, que ficou no CTI durante duas semanas.

Recordar o que passou não é fácil, mas o médico faz questão de ser porta-voz de um alerta indispensável e urgente.

— Por causa da Covid-19. vivi o pior momento da minha vida. Sou o exemplo de que qualquer pessoa pode ter complicações graves. Esta doença é muito séria. Infelizmente, ainda tem quem ache que é uma gripezinha. As pessoas precisam usar máscara, fazer o distanciamento social e higienização constante das mãos. Dependemos da conscientização de todos para que a vida volte ao normal. Sou um vencedor, mas não venci sozinho. É preciso ter um bom suporte de tratamento para superar esta doença. Saio do coronavírus ainda mais temente a Deus e com muita vontade de viver — frisa o intensivista, com passagens pelo Hospital Central da Polícia Militar, no Estácio; e pelo Hospital Municipal Jesus, em Vila Isabel.

Outro guerreiro é José Alves da Silva, mais conhecido como Alvinho, radialista de 66 anos, cardiopata e hipertenso, que passou maus bocados por conta da Covid-19.

— Quando comecei a tossir, pensei que era alguma alergia, nem imaginei que pudesse ser o coronavírus. Mas, de repente, a situação começou a se agravar. Fui para o hospital (Norte D’Or, em Cascadura) e lá fizeram uma tomografia. Nem voltei para casa; fiquei internado porque já estava com os dois pulmões comprometidos. Permaneci no CTI, entubado, por 12 dias. Em seguida, fui para a unidade semi-intensiva, e dias depois, para o quarto. Receber alta, após quase um mês de internação, foi a melhor sensação da minha vida. A equipe me aplaudiu, eu ria, chorava, tudo junto. Em casa, fui recebido com uma faixa que celebrava a minha vitória. Eu me emocionei muito — recorda o morador de Marechal Hermes. — Sempre que vejo, da minha varanda, alguém andando na rua sem máscara, eu chamo a atenção e, se deixam, eu conto de longe o que passei por causa desta doença. O infectologista que cuidou de mim disse que sou um milagre.

As provas de que o novo coronavírus não poupa ninguém se sucedem. Sem qualquer doença preexistente, Aline Porto, de 36 anos, gerente de um salão de beleza no Shopping Madureira, foi internada às pressas no Hospital Balbino, em Olaria, com os sintomas da doença, tendo o CTI como leito por dois dias.

— Eu me desesperei quando falaram que seria internada imediatamente e que iria direto para o respirador. Naquele momento, vi a minha vida passar na minha frente em questão de segundos. Tive muito medo de não voltar para casa, porque sentia tanta falta de ar que parecia que alguém estava pressionando um travesseiro na minha cabeça. Passar por isso é realmente muito complicado, mas venci e vivi para pedir que fiquem em casa porque a gente não tem como saber onde o vírus está. Não consigo desconfiar como peguei a doenã, mas até 16 de março trabalhava num shopping, local onde muitas pessoas circulavam — observa a moradora de Bento Ribeiro.

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Apesar de já ter testado negativo e de estar curada da Covid-19, a doença deixou sequelas em Aline, que segue em tratamento:

— A pneumologista que está me tratando disse que o meu quadro de pneumonia foi gravíssimo. Eu continuo sentindo um pouco de falta de ar e uso bombinha para amenizar esse sintoma, além de remédios para desinflamar os brônquios. Fui diagnosticada com a Covid-19 há dois meses, mas, de alguma forma, esta doença ainda me assombra.

A maquiadora e administradora de empresas Dafny Dinis, de 26 anos, moradora da Tijuca, define o coronavírus como um trator que a atropelou.

—Não cheguei a me internar. Usava nebulizador em casa e tomava os remédios que uma amiga médica me receitou. Por duas semanas, eu me senti tão fraca que não tinha forças nem para lavar o cabelo. E olha que sou jovem e não tenho nenhuma comorbidade. Fiquei muito abalada; pensei que ia morrer nos momentos em que tive muita dificuldade para respirar. Rezei direto e, graças a Deus, estou aqui para contar a minha vitória. Depois do coronavírus, passei a dar mais valor à vida — afirma.

Enfermeira e coordenadora do comitê de gestão de crise do Hospital Israelita Albert Sabin, na Tijuca, Andrea Moura, de 53 anos, não escapou da Covid-19 mesmo atuando em uma área administrativa. Mas, apesar de não ter precisado de internação, conviver com um cansaço que só lhe dava a opção de sair da cama para ir se deitar no sofá não foi nada fácil. Assim como com uma dor de cabeça que persistiu, ininterruptamente, por 21 dias.

— Eu tomava o comprimido de dipirona mais forte, o de 1 grama, e a cefaleia não passava. O cansaço durou duas semanas. Como escolhi esta profissão, tentei controlar meus medos, mas, como esta é uma doença nova, eu me preocupei por mim e pela minha família. Todo mundo precisa se cuidar e se ater à ciência — diz.

Depois que o pior já passou, a profissional de saúde segue trabalhando no combate à doença.

— A minha mensagem é de esperança. Eu me curei, fui abençoada, mas podia não estar mais aqui. Quem pode ficar em casa deve ficar. Tenho fé de que vamos sair dessa, mas a proteção contra o vírus é coletiva. Cada um de nós deve fazer a sua parte — recomenda.

Aos vencedores, parabéns e saúde!

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