Quer viajar comigo? Casal roda o país em uma Kombi, sem data para voltar

Larissa Medeiros*
·4 minuto de leitura

RIO — Que tal pedir sua alma gêmea em namoro convidando-a para viajar pelo Brasil, a bordo de uma Kombi? Para o carioca da Cidade de Deus e diretor de vídeo Thiago Conceição, de 32 anos, a proposta da atriz brasiliense Tainá Baldez, de 28, não causou estranheza. Mesmo antes de o namoro se tornar oficial, o casal já gostava de pegar a estrada. Desta vez, porém, além do romance assumido, a aventura tem outro diferencial: eles iniciaram a jornada Brasil afora em dezembro e não têm data para voltar. Mas, quando isso acontecer, pretendem transformar o que viverem em documentário, livro infantil e, quem sabe, espetáculo teatral.

A Covid-19 deu um empurrãozinho na aventura. As idas e vindas do casal para se encontrar ficaram mais arriscadas, e, assim que decidiram botar o pé na estrada juntos, Thiago se instalou na casa de Tainá para cuidar dos preparativos. Coprotagonista deste enredo, a Kombi, batizada de Penélope, foi encontrada pela dupla em Minas, já equipada com pia, minigeladeira, um banco que vira cama e pequenos armários. Perfeita para os seus planos.

— Sempre viajamos muito e, presos em casa por causa do isolamento, queríamos alguma forma de retornar à estrada com segurança e custo baixo. Foi quando tivemos a ideia de comprar uma Kombi. Pesquisando na internet, encontramos a Pené — conta a atriz.

Tainá e Thiago saíram de Brasília em 25 de dezembro, com a meta de chegar a Manaus até o fim deste ano. Mas, pelas descobertas que fizeram nos dois primeiros estados por que passaram até agora, e sem compromissos rígidos com prazos, já desconfiam que, talvez, este primeiro planejamento não seja cumprido.

Para registrar a rotina do “trio” e tornar possível o projeto audiovisual, Tainá e Thiago publicam no Instagram @estradapraquetequero e no canal do YouTube que tem o mesmo nome todo o roteiro da viagem. O início foi pela Chapada dos Veadeiros, em Goiás, e por diversas cidades do litoral baiano, onde estão agora.

As fontes de financiamento do projeto, conta Thiago, são várias. Além do aluguel da casa de Tainá, em Brasília, e da dele, no Rio, os dois têm feito trabalhos em vídeo ao longo da jornada, em troca de permuta ou pagamento. Eles também lançaram uma campanha de financiamento coletivo pelo site Benfeitoria (link apoia.se/estradapraquetequero), com a meta de conseguir R$ 2 mil mensais.

— O que custeia nossa viagem são as produções de vídeo que fazemos para estabelecimentos da região. Nós oferecemos serviços para pousadas, barracas de praia, restaurantes. Tem dias em que não temos dinheiro para ir ao lugar em que queremos, mas, oferecendo o nosso trabalho, conseguimos desfrutar daquele local — explica ele.

Com muito jogo de cintura, eles driblam os perrengues que aparecem. O primeiro desafio foi se adaptar aos quatro metros de espaço interno de Penélope. O casal dorme e faz suas refeições na Kombi, mas, para ir ao banheiro, por exemplo, precisa contar com a sorte.

— Se não conhecemos alguém que tem um banheiro, outro alguém nos leva até uma pessoa ou lugar que tenha. Às vezes, paramos em uma escola ou igreja — conta. — É mais natural do que se imagina. E, se não acharmos ninguém, tem balde, lenço umedecido. Para tudo se dá um jeito.

Eles já ficaram sem lugar para tomar banho, sem internet, sem o ar-condicionado do carro e até sem o próprio automóvel, que parou de funcionar no meio da viagem. Vivem com poucas mudas de roupas, o equipamento de trabalho e alguns utensílios, e garantem não sentir falta de quase nada além de suas famílias, que, aliás, apoiaram completamente a empreitada.

Thiago e Tainá não só recebem apoio como também oferecem ajuda no caminho. Uma das ações foi a doação de brinquedos para crianças do acampamento Marielle Franco, no Distrito Federal, no Natal. A campanha foi apelidada de “Pené Noel”.

— Eu sempre participei de ações sociais e, com a Pené, não tive como não pensar em algo. Planejamos fazer doações de livros, alimentos ou brinquedos em todos os lugares pelos quais vamos passar — projeta Tainá.

Para quem sonha com essa liberdade de pegar a estrada sem destino certo e sem data para voltar, a dupla aconselha seguir o coração.

— Só vai! Vale a pena! Se não der certo, volta. Nós temos encontrado pessoas que viajam de diferentes maneiras, de Kombi, Fusca, motorhome. Não existe a condição perfeita. Se formos esperar para ter aquela quantidade de dinheiro que achamos necessária, a viagem nunca sai — diz Tainá. — Na estrada, podemos conhecer lugares e pessoas novas a todo instante. Os perrengues existem, mas são mínimos comparados às vantagens. A gente precisa aproveitar a vida. Não sabemos até quando vai ser possível. Nada é definitivo.

*Estagiária, sob a supervisão de Lilian Fernandes

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