“Queremos falar em nosso próprio nome”, diz membro de Coalizão Negra por Direitos

Giorgia Cavicchioli
·6 minuto de leitura
Douglas Belchior é cofundador da Uneafro Brasil. Foto: Reprodução/Facebook
Douglas Belchior é cofundador da Uneafro Brasil. Foto: Reprodução/Facebook

Na semana passada, foi lançado o manifesto “Enquanto houver racismo, não haverá democracia”, que foi escrito por mais de 150 entidades que fazem parte da Coalizão Negra por Direitos. No texto, é dito que qualquer articulação por democracia no Brasil exige o real compromisso de enfrentamento ao racismo e que é necessária coerência por parte das pessoas que se autodeclaram antirracistas.

Em entrevista ao Yahoo, o historiador Douglas Belchior, cofundador da Uneafro Brasil, uma das entidades que faz parte da coalizão, afirma que é preciso que o movimento negro seja protagonista da luta por mais democracia no País. “Queremos falar em nosso próprio nome. A gente não vai permitir que sejamos ignorados. Queremos e vamos ser ouvidos. Esse é o grande recado para a sociedade brasileira”, diz.

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“Se falamos sobre democracia, temos que falar sobre racismo. Todos que se preocupam com a democracia, devem se preocupar com o racismo. Ele impede a vida democrática. O manifesto vem para cobrar aqueles que hoje se dizem preocupados com o racismo. As instituições brasileiras são promotoras de violências contra pessoas negras”, explicou.

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De acordo com ele, em um momento em que a sociedade brasileira está preocupada com a guinada autoritária que o governo federal deu, é preciso que seja discutido com qual tipo de democracia estamos preocupados e se o regime como conhecemos, de fato, inclui todos os brasileiros.

Leia a entrevista completa:

Yahoo: Primeiro, me conte sobre a coalizão. O que ela é e o que representa?

Douglas Belchior: A coalizão é uma aliança, é um guarda-chuva, não é uma entidade, não é um movimento. Ela é uma frente e só existe por uma união. A gente fala sobre a coalizão quando trata de ações que a gente tem em conjunto. Eu falo em nome da Uneafro Brasil, a gente faz um trabalho de base, é um trabalho de educação da população que atua em 40 bairros cotidianamente em São Paulo e no Rio de Janeiro. Eu atuo nisso há mais de 20 anos. No contexto da pandemia, a gente teve que parar porque não pode aglomerar. Mas temos mais de 300 professores voluntários que dão aulas gratuitamente para jovens negros e periféricos. Desde que começou a pandemia, a gente percebeu que o que a população precisava era de alimentação, produto de limpeza… então, a gente passou a apoiar as famílias com cestas básicas, com acompanhamento médico…

Yahoo: E como surgiu essa união?

Douglas: Assim que o [Jair] Bolsonaro vence a eleição, a gente percebe que a situação ia ficar muito pior para a população brasileira. Então, a gente provoca a soma da grande aliança nacional. Não é uma novidade que o movimento negro faça esse tipo de aliança nacional. Na década de 30, por exemplo, tivemos a Frente Negra Brasileira, na década de 70, o Movimento Negro Unificado... então, em momentos chave da sociedade, o movimento negro sempre esteve presente com essas alianças. Com certeza absoluta, esse é mais um ponto histórico e, mais uma vez, a gente reafirma algumas questões do movimento negro.

Yahoo: Quais questões são essas?

Douglas: É a representação política do maior segmento da população brasileira. Não permitiremos que a elaboração política ignore a maior parte do povo. O movimento negro tem propostas, assim como tem lideranças. Mas as nossas lideranças são ignoradas ou boicotadas. Não é por acaso que as lideranças negras jamais tiveram espaços para exercer suas lideranças, pouco tiveram espaço nas instituições políticas. Sempre fomos sabotados e o Brasil perdeu muito com isso, deixou de ter pessoas brilhantes na vida pública.

Yahoo: Qual o objetivo do manifesto?

Douglas: Queremos falar em nosso próprio nome. Temos pessoas de todas as áreas do conhecimento, a gente quer se organizar em nosso próprio nome. A gente não vai permitir que sejamos ignorados. Queremos e vamos ser ouvidos. Esse é o grande recado para a sociedade brasileira. E isso está exposto no nosso programa. Um programa que tem 14 princípios. Nós reivindicamos esse lugar. Se falamos sobre democracia, temos que falar sobre racismo. Todos que se preocupam com a democracia, devem se preocupar com o racismo. Ele impede a vida democrática. O manifesto vem para cobrar aqueles que hoje se dizem preocupados com o racismo. As instituições brasileiras são promotoras de violências contra pessoas negras.

Yahoo: Como esse contexto impactou na luta?

Douglas: Diante de uma pandemia, a gente vinha gritando que essa doença atingiria mais os negros. Enquanto ela afetava só os ricos, a sociedade estava paralisada. Agora, a gente volta a uma dita normalidade e a gente sabe o que isso significa. Essa abertura é o abandono da prática de isolamento social em nome do interesse dos grandes comércios. Os governadores estão obedecendo essa lógica do Bolsonaro em nome do interesse dos ricos, o que coloca a população negra como serviçal, em condições insalubres. A gente sabe que é essa população que vai morrer mais. A gente vinha denunciando isso.

Yahoo: Qual o recado que o manifesto quer dar?

Douglas: O manifesto deixa recados explícitos. Começando pelo título. No momento que a sociedade brasileira fica preocupada com traços autoritários do Bolsonaro, nós nos colocamos para questionar esse pressuposto. Que democracia é essa? Essa democracia que exclui os negros também não serve. É óbvio que o risco de regimes autoritários assusta a todos. Mas estamos exigindo uma democracia real há tempos. As pessoas que estão se dizendo antirracistas precisam ser coerentes com essa posição. É preciso questionar a experiência democrática. Com o racismo, não existe democracia. O movimento negro precisa ser reconhecido como elaborador de propostas para o País. Por qual motivo os grandes jornais, a grande imprensa, continuam ouvindo partidos, empresários, mas não ouvem o movimento negro?

Yahoo: Como vocês encaram as eleições? Acham que o número de pessoas negras eleitas pode aumentar?

Douglas: É um ponto do nosso programa o estímulo de candidaturas negras do campo progressista. Não nos importa uma representatividade vazia. Não basta ser negro e entrar nesses lugares para a direita brasileira fazer uso disso atuando estrategicamente. Não basta ser negro, precisamos que sejam comprometidos com as lutas antirracistas. Também precisamos que os partidos ofereçam seus espaços para que tenham candidaturas fortes e prioritárias. Uma coisa é ter candidatura negra, outra coisa é ter eleição de pessoas do movimento negro. Nós vemos que lideranças jamais foram alvo de investimento ou foram eleitas como prioridades nos partidos. Os partidos devem colocar sua estrutura a serviço da eleição de lideranças do movimento e não escolher pessoas negras submissas à política hegemônica. Por isso, é fundamental que as pessoas assinem o nosso manifesto.

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