'Querida cidade': em ótimo livro, Antônio Torres recria juventude interiorana de referências cosmopolitas

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“Querida cidade”, de Antônio Torres, não é um quebra-cabeça, que constrói sentido peça a peça, mas uma mandala que do seu centro emana figuras para diferentes direções e assim constrói algo único e circular.

Primeiro romance em 15 anos do imortal da ABL, é uma obra fragmentada que possui diferentes tramas e gêneros. O livro carrega dentro de si um romance de formação, uma prosa que libera o fluxo de consciência do narrador, traços de distopia e até realismo mágico. As referências literárias e culturais são múltiplas, de Schopenhauer a Fernando Pessoa. Muitas músicas são citadas, em uma trilha eclética que passa pelo cancioneiro popular, tangos e até “Rock around the clock”, de Bill Haley & His Comets.

O centro da mandala é a trama do protagonista, um menino que deixa a casa da família no sertão brasileiro para estudar em uma pequena cidade na década de 1950. Aos 10 anos, o garoto é acolhido na cidade por um tio.

Acompanhamos seu amadurecimento precoce até aos 14 anos, quando inaugura seu “Ano-Sem”, o ano de 1958, que o apresenta à vida adulta. Em 1958, ele perde sua segurança econômica e afetiva com o sumiço deste tio, que abandona o casamento deixando sua tia sem recursos próprios.

O tio simbolizava a coragem de ter deixado o sertão para conquistar a cidade e a possibilidade de desbravar o desconhecido. Tornou-se dono de um hotel e de uma sorveteria, tinha casa própria e uma bela e educada mulher. Bem-sucedido, seu tio agora era como uma ponte que podia levar o menino para a realização de seus objetivos. Mas parte do sucesso vinha do lucro do contrabando de mercadorias que chegavam no porto da capital.

Neste ponto, “Querida cidade” conversa com outro romance de formação, “Perseguição e cerco a Juvêncio Gutierrez” (Record, 2003), do gaúcho Tabajara Ruas. As duas ficções se aproximam tematicamente. O enredo de Ruas se passa em Uruguaiana, fronteira de Rio Grande do Sul e Argentina. O protagonista, menino de 13 anos, também tem um tio contrabandista, que se refugia no país vizinho fugindo da polícia. O tio retorna após sete anos. Seu aguardado retorno ocorre por meio de um trem, cujos trilhos avançavam para a cidade gaúcha.

Em Torres, o trem também tem importância. É nele que o tio do menino de 14 anos embarca. Porém, em “Querida cidade”, o trem é o meio que leva o tio idealizado para longe em vez de trazê-lo de volta, como em Ruas. É na estação de trem que ele e a tia aguardarão, em vão, pelo retorno do tio. Sem que ele retorne, o principal desejo do adolescente, o de estudar, precisa ser adiado porque precisa trabalhar para pagar o aluguel de um quarto. Em um dos muitos fluxos de consciência do romance, cogita matar a machadadas a senhora que aluga seu quarto. Neste ponto, temos um diálogo com “Crime e castigo”, de Dostoiévski. No clássico do russo, o jovem Raskólnikov mata uma senhora, usando um machado, para roubar seu dinheiro e assim conquistar o êxito que acredita ter direito a usufruir.

Em “Querida cidade”, não é o dinheiro o passaporte para um futuro melhor, mas a educação. O acesso ao ensino como meio de ascensão social é essencialmente uma questão brasileira, ainda não resolvida. Este passaporte para o futuro é simbolizado por uma pequena mala que o menino leva para a cidade quando deixa a família para estudar.

A década de 1950 no Brasil é belamente ambientada por Torres. No interior, ciganas batem nas portas das casas para ler a sorte na palma da mão e parteiras são profissionais essenciais. Na cidade, colegiais perfumadas circulam na praça usando seus tradicionais uniformes.

Conjunto da obra

Tratando também de questões brasileiras, é possível entender “Querida cidade” como o romance que fecha uma tetralogia, formada pela trilogia “Essa terra” (1976), “O cachorro e o lobo”(1997) e “Pelo fundo da agulha” (2006). Todavia, é autossuficiente porque é muitos livros em um. Parte dessa fragmentação é consequência da habilidade do narrador, que apaga a luz, dando espaço para a penumbra dos sonhos, e acende a luz, chamando atenção para suas reminiscências de juventude.

Quando a luz é apagada, um ambiente onírico toma conta da prosa. Mágico e distópico, este narrador em estado de sonho está no alto de um prédio imenso rodeado por água. É a água, elemento próprio da subjetividade, que faz submergir para um mergulho em um mundo imaginário. Sonhando e imaginando, este narrador, portanto, não é confiável. Sua imaginação chega a criar contos dentro da narrativa, as tais figuras que compõem o mosaico do romance.

Como diz um “etéreo interlocutor” ao narrador: “A quem devemos essa prosa aqui nesse lugar, que só existe na sua imaginação? Pois siga imaginando”.

Aos 80 anos, após 12 romances, Antônio Torres provou que segue imaginando e, assim, nos faz sonhar acordados.

Paula Sperb é crítica literária e jornalista, doutora em Letras com pós-doutorado na mesma área pela UFRGS

“Querida cidade”Autor: Antonio Torres. Editora: Record. Páginas: 432. Preço: R$ 59,90. Cotação: ótimo

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