'Quero que o responsável pague, seja bandido ou policial', diz filho de homem morto ao passear com o cachorro

A família do mecânico Antônio Carlos Rosário, de 58 anos, morto nesta terça-feria após ser baleado durante um tiroteio na Serrinha, em Madureira, ainda aguarda a liberação do corpo no Hospital municipal Salgado Filho, no Méier. Diego Lima da Conceição, filho de Antônio, afirma que desde as 7h, quando chegou à unidade de saúde, espera por um posicionamento sobre a chegada do rabecão, que só foi solicitado à Defesa Civil por volta de 13h. Segundo ele, a demora tanto na transferência do corpo para o Instituto Médico Legal (IML- Rio) quanto na perícia preocupa a família, que, às vésperas do fim do ano, ainda não sabe onde fará o sepultamento.

— Ainda não temos lugar para fazer o enterro. Mas como o IML só funciona até as 16h, meu medo é que não tenha velório. Eu sigo aqui esperando. Já não basta a dor do que aconteceu com meu pai e da maneira que foi... Ter que esperar tudo isso é muito descaso — reclamou Diego.

Em nota, a Defesa Civil alegou que Coordenadoria de Apoio à Medicina Legal da Sedec-RJ só foi acionada para a remoção do corpo às 13h05. E completou que, atualmente, a "Secretaria de Estado de Defesa Civil conta com 17 viaturas de remoção de cadáveres (ARC) operantes no estado, sendo três na capital".

Diego conta que estava trabalhando quando recebeu a notícia de que o mecânico teria sido vítima de bala perdida. Ele ficou surpreso, já que o bairro onde o pai morava há mais de 30 anos, Engenheiro Leal, fica a cerca de dois quilômetros da comunidade da Serrinha.

— Meu pai estava perto de casa e tomou um tiro no braço que o matou. Até quando isso vai acontecer? Não temos segurança na rua e nem na porta de casa. O bairro que ele mora é tranquilo, foi a primeira vez que alguém de lá foi vítima de tiro. Eu quero que o responsável pague pelo que fez com meu pai, seja bandido ou policial — desabafou Diego.

O filho do mecânico diz que, apesar de caso já ter sido registrado na delegacia, até agora não foi feita perícia no local. Diego conta que, no momento em que Antônio foi baleado, havia um carro próximo que também acabou atingido. No entanto, o dono do veículo removeu o carro da cena do crime e trocou os vidros, o que pode dificultar a análise da polícia.

— A impressão que dá é que eles não querem resolver o caso do meu pai. Já deveriam ter ido fazer a perícia no local. Um homem trabalhador morreu e mesmo assim nada foi feito. Meu medo é que meu pai seja apenas mais um. Eu vejo muitas pessoas morrendo por tiro o tempo todo e nada é feito. Fica por isso mesmo. É só mais uma vida que vai embora e mais uma família que fica destroçada — lamentou.

Antônio Carlos tinha o hábito de caminhar todas as manhãs com os cachorros Valentina e Kiko na rua de casa. Na terça-feira, saiu por volta das 6h30 levando os cães para passear, até que um intenso tiroteio por conta de uma operação policial na comunidade da Serrinha assustou quem passava pela Rua Américo Vespúcio. Márcia Cristina Lima Conceição, viúva de Antônio, disse que na hora dos tiros chegou a se esconder atrás de uma árvore. E que viu um helicóptero da polícia sobrevoando a região.

— Eu ouvi rajadas de tiro e corri. Meu marido também correu, mas não deu tempo se esconder. Foi nessa hora que ele parou perto de mim e gritou que tinha sido atingido. A gente socorreu, mas ele já chegou no hospital desfalecido — contou Maria.

A Polícia Militar afirmou em nota que policiais militares do 9ºBPM (Rocha Miranda) faziam uma operação na comunidade da Serrinha, contra movimentações criminosas que atuam com roubos de carga e veículos na região, e que o "Grupamento Aeromóvel (GAM) realizou o monitoramento aéreo da região ao longo da operação".

Além disso, a PM também confirmou que policiais do 3°BPM (Méier) foram avisados de que havia um "homem ferido por disparo de arma de fogo na unidade de saúde e, segundo informações preliminares, a vítima teria vindo do bairro Engenheiro Leal". O caso está sendo investigado pela Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), que instaurou um inquérito para apurar as circunstâncias do ocorrido.