'Quero saber se ele atira bem', teria dito suspeito de desaparecimento de servidor da Funai

O suspeito detido ontem à noite pela Polícia Militar, em Tabatinga, no Amazonas, teria sido o pescador que ameaçou o servidor da Funai Bruno Araújo Pereira, desaparecido há mais de 72h, junto do jornalista inglês Dom Phillips. Pelado estava num grupo que se encontrou com a equipe da União dos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), que desde o ano passado identifica e documenta possíveis invasões de territórios indígenas. No encontro, que aconteceu na localidade conhecida como Jaburu, já fora da área de reserva indígena, ele perguntou pelo funcionário, que foi coordenador da fundação federal na área até sua exoneração em 2019. Ameaçado por

O suspeito detido ontem à noite pela Polícia Militar, em Tabatinga, no Amazonas, teria sido o pescador que ameaçou o servidor da Funai Bruno Araújo Pereira, desaparecido há mais de 72h, junto do jornalista inglês Dom Phillips. Pelado estava num grupo que se encontrou com a equipe da União dos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), que desde o ano passado identifica e documenta possíveis invasões de territórios indígenas. No encontro, que aconteceu na localidade conhecida como Jaburu, já fora da área de reserva indígena, ele perguntou pelo funcionário, que foi coordenador da fundação federal na área até sua exoneração em 2019. Ameaçado por garimpeiros, pescadores e madeireiros, Bruno, que liderou operações de combate ao crime na região, tinha porte de arma. De acordo com os integrantes da equipe da Univaja, Pelado seria o pescador que ironizou o fato de o servidor licenciado andar armado e estar no Vale do Javari, onde prestava consultoria voluntária para os indígenas: "Quero saber se ele atira bem".

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Esse relato teria sido feito a policiais que foram para o local, o que teria motivado a detenção de Pelado. O procurador da Univaja, Eliesio Morubo, disse que o grupo de cerca de 15 a 29 pessoas, que testemunharam a ameaça, ainda deverá prestar depoimento mais detalhado sobre o fato quando retornar das buscas a Bruno e Phillips. Os ativistas voltavam da área de reserva quando cruzaram com os pescadores ilegais, entre eles, Pelado. Naquele momento, Bruno já estava no Amazonas, mas não os acompanhava. Em geral, ele não tinha atuação em campo e se dedicava a ministrar cursos para os indígenas de leitura de mapas, por ser profundo conhecedor do território, e operação de drones. Sem amparo da Funai, os próprios indígenas têm se organizado para assumir o trabalho de fiscalizar e denunciar invasões às autoridades públicas. Naquele dia, o grupo tinha saído para documentar invasões.

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Bruno soube do que aconteceu porque, logo em seguida, esteve com a equipe da Univaja. Ele e Phillips chegaram ao Jaburu de barco e conversaram com os indígenas. O jornalista fez alguns registros do trabalho de fiscalização da entidade, e os dois seguiram viagem para Atalaia do Norte, quando então desapareceram. A Univaja integrava a equipe de fiscalização da Funai desde o fim dos anos 1990, mas a atividade foi sendo desmantelada ao longo dos anos. Hoje o trabalho é feito na forma de observação e denúncia porque a entidade não tem poder de polícia. Entretanto, uma série de denúncias sobre a atuação de quadrilhas já foram feitas à polícia, ao Ministério Público Federal e à própria Funai.

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Bruno, que se licenciou da Funai por divergências com o órgão, passou a atuar este ano como consultor voluntário da Univaja. Embora morasse em Brasília, ele costumava a ir até a sede da organização na cidade de Atalaia do Norte. Lá, ele ministrava os cursos para ajudar na preservação da integridade do Vale do Javari, que concentra a segunda maior área de reservas indígenas do país e vem sendo atacado por invasores armados, que extraem recursos da mata e ameaçam as tribos. Lá, há grande concentração de povos isolados e de contato recente.

- O Bruno era ameaçado desde quando era coordenador da Funai aqui na região. Ele nunca deixou de ser alvo desses criminosos. Este ano, passou a nos ajudar como voluntário porque era muito experiente, conhecia muito bem a área e sabia ler mapas. Nós não sabemos ler mapas e operar drones, estávamos aprendendo. De tempos em tempos, ele vinha para cá, nos auxiliava com esse conhecimento todo que tinha e voltava para casa - conta Eliesio Morubo.

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Pelado, segundo informações dos indígenas, é uma espécie de líder comunitário dos pescadores ilegais da região. Bruno e Phillips se encontraram no Amazonas. Os dois deixaram tinham saído da comunidade São Rafael com destino a Atalaia do Norte. No meio do caminho, estiveram com a equipe da Univaja e seguiram viagem. Os dois estão desaparecidos desde domingo. Militares e civis buscam indícios da embarcação em que estavam em lanchas e voadores e também em ramais de terra firme que ligam alguns municípios. Os trabalhos se concentram nos rios Javari, afluente do Solimões, e Itaquaí, perto de Atalaia do Norte. O dos, que já tinham trabalhado junto na produção de reportagens sobre invasões de terras indígenas, repercutiu na imprensa internacional, tendo sido noticiado pelo Washington Post e pela BBC. O caso também está sendo acompanhado pelo The Guardian, onde Phillips era colaborador.

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