Questões culturais do Qatar levantam receio em torcedoras

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A Copa do Mundo de 2018, na Rússia, foi marcada pela grande presença de torcedoras brasileiras, que encararam a longa viagem para acompanhar a competição. Quatro anos depois, há ainda incerteza se a torcida feminina estará no Qatar para apoiar a seleção brasileira e curtir os jogo do Mundial. As diferenças culturais e o ambiente que encontrarão no país do Oriente Médio, mais conservador quanto às mulheres, geram receios.

Em 2018, o grupo “Elas na Copa” reuniu mais de 50 torcedoras, que percorreram as cidades russas atrás dos jogos da seleção. Ele cresceu e hoje é formado por 130 mulheres, mas atualmente lida com algumas dúvidas sobre até que ponto valerá a pena a presença no evento.

As preocupações são principalmente de ordem cultural. As mulheres no Qatar não devem usar vestidos ou saias acima do joelho, mostrar os ombros ou o decote. As manifestações de afeto em público também devem ser contidas, para não causar estranhamento.

— Essa Copa do Mundo pode ser a oportunidade de estarmos em um país mais complexo para mulheres, como foi na Rússia — afirma Mariana Neme, bancária de Brasília. — Mas acredito que o Qatar estará mais aberto à diversidade do que o normal, por causa do Mundial.

Mariana faz parte de uma iniciativa para mobilizar torcedores para a Copa e desconstruir preconceitos quanto ao Qatar. Ano passado, o Comitê Organizador recrutou líderes de torcida em todo mundo com o objetivo de passar informações sobre o evento e abrir um canal para que sugestões fossem feitas.

Mariana, ao lado de outras torcedoras, incluindo de outras nacionalidades, encaminhou questões referentes à segurança das mulheres dentro e fora dos estádios:

— Pedimos para termos um sinal de alerta, como um código, em caso de perigo. Gostaríamos também de ter espaços, dentro dos estádios, onde podemos nos sentir mais seguras. Afinal, estaremos lá sem a companhia de homens.

Junto à boa presença de torcedoras na Rússia, quatro anos atrás, os casos de assédio ganharam destaque. Torcedores brasileiros divulgaram vídeo em que apareceram assediando uma russa com palavras de cunho sexual, que ela não entendia por serem ditas em português. A jornalista da TV Globo Júlia Guimarães sofreu assédio em duas oportunidades de torcedores, que tentaram beijá-la enquanto ela gravava reportagens.

baixa criminalidade

Rafaela Ruiz, natural de Novo Horizonte (SP) e personal trainer em Doha há três anos, acredita que as mulheres não devem enfrentar problemas parecidos no Qatar, devido aos baixos índices de criminalidade no país.

Ela ressalta as restrições de vestimenta, mas prevê uma Copa do Mundo segura para as torcedoras:

— Os qataris são muito acolhedores, até por se tratar de um país onde cerca de 75% da população são de estrangeiros. Por ter tanta diversidade cultural, não é difícil de se adaptar. Talvez a principal diferença seja em relação às roupas. Muitas vezes, no começo, esquecemos sobre isso. Eu acabei passando por uma experiência quando fui tirar minha carteira de motorista qatari. Eu estava com uma blusa que não cobria meu ombro, então fui barrada na porta e não me deixaram entrar.

Os esforços do Qatar para se distanciar da imagem de países muçulmanos vizinhos, como a Arábia Saudita, mais opressores em relação às mulheres, passam também pela presença de Fatma Al-Nuaimi no cargo de diretora de comunicação do Comitê Organizador. Durante a realização da Copa Árabe no país, no mês passado, foi comum a presença de torcedoras nos estádios sem estarem necessariamente acompanhadas de homens.

Na próxima Copa do Mundo, a própria Fifa deverá rever velhos hábitos, alguns deles bem machistas. Um exemplo é a busca repetida, por parte das câmeras de transmissão de TV, de mulheres mais bonitas nas arquibancadas.

Em 2018, a entidade pediu para que a transmissão das partidas mostrasse menos as torcedoras, alegando que isso diminuiria os casos de assédio. Foram contabilizados 45 ao longo do Mundial. Indiretamente, reforçou a ideia de que a culpa pelo assédio é das mulheres ou da exibição delas nos telões, e não dos assediadores.

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