Quilombo chamado Salvador: looks afrocentrados e pluralidade resgatam autoestima

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Por Felipe Iruatã

Se uma música pode resumir o primeiro Afropunk na América do Sul, seria a do rapper Rincón Sapiência: ``Se a coisa tá preta, a coisa tá boa, pode acreditar”. O maior evento de celebração e reafirmação da cultura negra do mundo não poderia acontecer primeiro em outro lugar no continente que não fosse na cidade mais negra fora da África, Salvador, onde a riqueza de identidade visual, cultural e a estética preta desfilam pelas ruas, praias e becos.

O Afropunk já esteve presente na capital baiana, mas não com o seu tradicional festival. O encontro com os soteropolitanos foi no Carnaval de 2020, quando desfilou em um trio elétrico com artistas baianos durante dois dias da festa. No primeiro, a banda camaçariense Afrocidade recebeu o rapper Mano Brown, Russo Passapusso e Roberto Barreto, do BaianaSystem, além de Afro Jhowz do Muzenza. No segundo dia, o BaianaSystem recebeu os cantores Bnegão, Vandal e Iracema Killiane, do Ilê Aiyê.

Conhecimento sobre a África que tanto preciso

Em 2021 o festival foi palco de encerramento às comemorações do Novembro Negro, mês que é repleto de manifestações voltadas à resistência e a cultura preta na cidade. Diferentemente dos eventos exclusivo aos brancos, ricos e famosos, o tapete vermelho do Afropunk é preto, e foi estendido para todos os pretos que resistam aos preconceitos de uma sociedade racista.

Aquilombar

Os pretos entendem que nos dias de hoje, se aquilombar em espaços voltados ao seu povo é fundamental para a resistência diante das políticas racistas e discriminatórias no país. Conectar cada vez mais negros, para que se conheçam ou consumam produtos ou serviços feitos por negros, fortalece a construção de uma sociedade mais igualitária, onde o povo africano em diáspora não seja diminuído ou visto como inferior.

“Não temos como ignorar nossas lutas e desafios para sobreviver sendo preto no Brasil, muito menos ignorar o caos que está sendo passar por uma pandemia. Mas não consigo outra forma de se fortalecer e enfrentar batalhas sem as pessoas com as quais eu me identifico. Compartilhar esses momentos de paz com os nossos e ter essa vivência de pertencimento é revigorante” afirma Tayná Benecke, 24 anos, estudante.

Referência 

Os looks Afrocentrados, passando pelos Black Powers e até pelos cortes chavosos deram o tom. A pluralidade de corpos, cabelos, roupas e estilos evidenciou a potência do povo preto, sobretudo após a crise de autoestima gerada pela pandemia. Cores, brilhos, adereços se juntaram às luzes coloridas do espaço e deram um tom de vida e força para quem curtia o festival.

“Valorizar nossa música, nossos corpos e nossa moda retrata o quão magnífico é o povo preto. A partir disso, essa união nos dá forças para enfrentar as adversidades que a cada dia aumentam nesse período. E nesses anos de governo Bolsonaro têm se tornado pior. Um evento desse porte foi como um bálsamo em nossa autoestima", destaca Giada Bettazzi, 32 anos, Engenheira civil e professora da Universidade Federal da Bahia.

Nascida na Itália e filha de italiano, Giada cresceu enaltecendo e sonhando em voltar a viver no continente europeu, sem se interessar em conhecer sobre sua ancestralidade africana. “O despertar para conhecer as minhas raízes veio a acontecer na vida adulta. Sinto que ainda tenho muito a descobrir, mas uma festa como o Afropunk e também a minha bolha no Twitter me ajudam a me aproximar de pessoas iguais a mim, porém de vivências completamente diferentes, mas com sensações muito que se assemelham com o conhecimento sobre a África que tanto preciso.”

Roupa impactante?

Contudo, mesmo em meio aos seus, o povo preto ainda reconhece um sentimento de inferioridade, que ficou evidenciado em uma polêmica discussão virtual sobre um suposto padrão de vestimenta para o Afropunk, um hype que não estava acessível a todos que iriam à festa e criou uma sensação de desconexão com o objetivo final, que é a celebração negra.

“Um dos principais motivos para não ter ido ao Afropunk foi com minha vestimenta. Como eu iria me sentir lá. Pensei em colocar uma camisa do Bahia, uma bermuda e minha boina, mas fiquei receoso. Sou favelado e não tenho uma roupa impactante. Mas depois do que eu vi no Instagram e no Twitter, eu não iria me sentir bem no ambiente, apesar de ser feito para nós”, salienta Moacir Rodrigues, 39.

O aquilombamento é necessário quando se diz respeito ao acesso do preto em todas as frentes, seja na arte, na cultura e no cotidiano, a dificuldade de chegar aos lugares que merecemos se faz essencial, como diz Emicida: “Tudo, tudo que nós tem, é nois."

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