Quitéria Chagas posa com coroa e faixa da 1ª Rainha da Império Serrano, critica a venda do cargo e dá spoilers sobre seu desfile hoje

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Janeiro de 1986. Após 36 anos no posto, Dalva Souza do Espírito Santo, que fora coroada em 1950 pela cantora Dalva de Oliveira, é obrigada a entregar sua coroa e faixa de 1ª Rainha da Império Serrano a Sandra Meletti, uma jovem de 23 anos que acabara de comprar uma metalúrgica. O cargo foi negociado pela diretoria da agremiação para conseguir os primeiros ferros de carros alegóricos.

Outubro de 2010. Após cinco anos como rainha de bateria da Império Serrano, Quitéria Chagas se desliga da escola, sendo substituída por Vânia Love, irmã do jogador Vagner Love, no trono. Segundo Quitéria, o cargo também foi vendido, e ela foi pressionada a renunciar.

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Março de 2017. Já de volta ao posto de rainha de bateria, Quitéria celebra a vitória da Império na Série A do carnaval carioca e seu retorno ao Grupo Especial. Na quadra lotada, em festa, Dalva ressurge já bem idosa, depois de décadas sem pisar por lá, emocionadíssima. Chorando, seu filho, ritmista da escola, diz a Quitéria que a senhorinha é sua fã e queria vê-la de perto. Mas a história de 1950 não é contada à rainha de bateria.

2020. Durante a pandemia da Covid-19, Dona Dalva é acometida pela doença. Já ciente do episódio de 70 anos atrás, Quitéria planeja fazer uma live com ela em seu Instagram, diretamente da Itália, onde mora. Mas não dá tempo... A 1ª Rainha da Império Serrano não resiste à Covid, deixando um legado muito representativo ao mundo do samba.

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— Ela faleceu e eu fiquei muito triste. O filho dela queria me dar a faixa e a coroa dela de presente. Mas Dona Dalva tem uma neta que também samba, é pequenininha ainda. Disse a ele para deixar para a menina. Trata-se de um patrimônio histórico do carnaval. A forma como a faixa foi feita e o material usado é diferente de tudo o que a gente vê nos dias de hoje. Tem uma importância histórica enorme, mas precisa de uma restauração — conta Quitéria, que posou com os acessórios de sua antecessora e mostra a foto com exclusividade ao EXTRA: — Para mim, é uma honra. Acho um absurdo termos tantos historiadores que nunca se preocuparam em estudar todas as mulheres do carnaval. Falam sobre as que cantam e compõem, mas e as rainhas, por que não?

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Quitéria conta que se sentiu muito tocada pela história de Dona Dalva, principalmente no que diz respeito à venda do cargo que ela tanto amava e que a fez empoderada num tempo em que a mulher negra era ainda mais renegada pela sociedade.

— Eu já vivenciei isso. Você sabe que tem talento, capacidade, a comunidade quer você, mas o dinheiro fala mais alto. Hoje, sou reconhecida no mundo do samba, mas fico pensando naquela época: essa mulher preta, da comunidade, teve um título que a fez se sentir respeitada, num patamar diferenciado. Ela frequentava outras quadras, era recebida com cerimônias em outros estados até e, de repente, perde isso por conta do capital. Não vou desmerecer porque, para se tornar o Maior Espetáculo da Terra, a gente precisa de capital mesmo. Mas aí a comunidade negra tem que abrir mão de uma alegria para as pessoas brancas investirem no projeto. Com o tempo, foram-se deixando de lado muitas protagonistas negras, talentosas, que ficaram invisíveis — analisa ela, detalhando a própria experiência: — Eu fiquei como rainha da bateria da Império por muitos anos e, em 2010, o cargo foi vendido. Eu não tinha como ficar. Fui a primeira a verbalizar, a fazer militância contra a venda do cargo. Eu era muito nova, achei que sumiria do carnaval por estar mexendo com um assunto que ficava em off , ninguém falava. Nenhuma rainha teve peito de chegar e dizer que era contra isso. Foi importante eu tomar essa atitude, as pessoas me viram de forma respeitosa. Tanto, que eu fui chamada pela Vila Isabel para ser musa. E agradeço muito. E voltei a ser a rainha da Império em 2013. Foi muito louco: nunca na história do carnaval uma rainha tinha saído e voltado ao posto porque o público reivindicou.

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Na madrugada desta sexta-feira (dia 22), por volta das 2h15, a Império Serrano entra na Marquês de Sapucaí pela Série Ouro, e Quitéria estará na Avenida, mais uma vez. Não desfila mais à frente da bateria — Darling Ferrattry, mãe da cantora Lexa, ocupa o posto. Mas, há dois anos, numa cerimônia on-line, foi eleita Eterna Rainha de sua agremiação do coração. E, mais recentemente, homenageada com um samba-enredo exclusivo, composto pelo grande Aloísio Machado.

— Ele tem uma sensibilidade muito grande. Sabe de todos os meus bastidores, das lutas, da militância, da resistência para existir e continuar no samba, chegar à posição que cheguei. A parte que amo desse samba é “Rainha da Corte Imperial, tem no seu nome a força da mulher guerreira, Eterna Rainha do Império Serrano, o seu gingado combinou com Madureira” — detalha ela, que defende que os lugares de destaque das escolas de samba fiquem sob a responsabilidade e o orgulho de quem vive essa paixão profundamente, o ano inteiro: —Tem gente que cai de paraquedas na escola e nem sabe o que é o samba, não sabe a história da comunidade e vem querer agradar com cesta básica. Mas o povo não se vende, quer ser conquistado com afeto. Ao mesmo tempo, também há celebridades que se tornam rainhas e se esforçam, fazem aulas de samba, se dedicam, têm afinidade com o ritmo e com a bateria, frequentam os ensaios, acessam a comunidade, não se excluem, não se acham superiores... Agora, as passistas estão postando nas redes sociais seus vídeos sambando, e vem ganhando visibilidade. O público compara, sabe o que é samba de verdade. O carnaval é profissional e não tem espaço para amadores. O toque da bateria tem que estar expressado no corpo, é preciso estar em sintonia.

No Sambódromo, Quitéria surgirá fantasiada, antes da comissão de frente da Império Serrano. Ela adianta um pouquinho do que o público verá:

— O spoiler que dou é que é uma fantasia tão potente quanto um carro alegórico. Linda, tem muito a ver com o enredo dessa figura imponente que é o Besouro de Mangangá. Mas aí estou na versão feminina. Guerreira, lutando para valorizar a presença da mulher preta no samba. É muito importante estar nesse momento como rainha da Império, abrindo o desfile, e ter toda essa força e legado na fantasia. Vai dar um contraste bacana com a comissão de frente, que vem atrás de mim.

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Em 2017, depois de se formar em Psicologia, Quitéria fixou de vez residência na Itália, com a filha, Elena, e o marido, o empresário italiano Francesco Locati. Ao contrário do que muita gente supõe, a tijucana não traz a família consigo para o Brasil para curtir o carnaval. Ela explica por quê:

— Minha filha faz 7 anos em maio. Ela ainda não veio para o carnaval porque bate com horário escolar. Lá, não pode tirar a criança para fazer viagem, é muito prejudicial. O ensino é integral , bem forte. E tem a questão de logística, a passagem aérea é muito cara. Ela já conta como mais um bilhete aéreo, que custa mais de R$ 10 mil. Aí, acabo vindo sozinha. Meu marido, que antes me acompanhava, agora fica com ela. Não temos babá.

A garotinha vê os vídeos e fotos da mãe e, encantada, diz que também quer uma roupa de brilho.

— Ela faz o sambinha dela, a gente se diverte em casa. Desde que ela nasceu, não vim ao Brasil com a família inteira, precisaria de patrocínio (risos). Rainha tem gastos absurdos. Cada ensaio precisa de look novo, os sapatos são caros e desgastam rápido. Há um custo alto para manter essa grande personalidade do carnaval. Não é abrir armário e os brilhos saem. Temos exigências de nível profissional sem ter esse cunho. Há de se dar ainda mais valor a essa mulher do samba. A iniciativa privada tem que acordar, a gente não se materializa com brilhos da noite para o dia — reivindica.

Na Itália, ela conta, nunca exerceu a Psicologia. Sua rotina é de mãe, mulher e dona de casa.

— Não estou focada a atuar como psicóloga agora, vou deixar mais pra frente. Estou mais dedicada ao samba, quero fazer um livro sobre a história do carnaval. Estou estudando sobre isso para poder voltar a escrever, que eu adoro. É uma meta para depois desta folia.

Também formada bailarina e atriz, Quitéria conjugava os dois talentos quando atuava. Em “O clone” (2001), novela de Gloria Perez que vem sendo reexibida nas tardes da TV Globo, ela surgiu como uma das dançarinas da boate Nefertiti. Em “Páginas da vida” (2006), de autoria de Manoel Carlos, deu vida a Dorinha, uma funcionária do lar de Anna (Deborah Evelyn) apaixonada por samba. Quitéria também integrou o elenco de humorísticos como “Sob nova direção” (2006), “Faça sua história” (2008), “A grande família” (2008) e “Zorra total” (2013). Ela lembra com saudade das histórias de bastidores:

— Em “O clone”, eu criei a coreografia da boate. Quando a novela foi lançada em Angola, contrataram Alcione e banda, Paula Burlamaqui, Ailton Graça e eu para dançarmos num campo de futebol. O estádio lotou para nos ver. Fiquei semanas por lá fazendo outros eventos. É bacana essa proporção que as novelas e humorísticos daqui ganham no exterior... Em “Páginas da vida”, Maneco fez da minha personagem uma rainha de bateria no final da novela, divulgou a Império Serrano. A comunidade ficou feliz e me agradeceu por colocar a escola na TV. Queria poder retomar a carreira , nem que fosse uma participação quando estivesse por aqui...

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Quitéria diz que, atualmente, se sente mais preparada para exercer sua porção atriz. E revela que, por muitas vezes, foi recusada em trabalhos por conta de sua projeção no universo do samba.

— Sinto falta de atuar... Antes, era muito nova. Quanto maior a experiência que o ator tem, mais fluido e entregue ele se torna em seu ofício. Ter me formado em Psicologia ajuda na criação. Antes, eu tinha trauma do julgamento no meio artístico. Não digo isso sobre pessoas com quem contracenei, mas de diretores, produtores... Eu era vetada até para fazer testes. Batia na porta de muita gente e diziam que eu não tinha perfil, era sambista. Mas eu me formei, sou atriz! É doença ser sambista? Eram muitas as barreiras, isso traumatiza. Hoje, eu me sinto mais segura para fazer outras personagens e me jogar nas cenas. E agora não tem só novela, há séries também. Estou por aqui. Me chamem, que eu vou! — pede.

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