Quituteiros de comida saudável atendem a demanda por boa alimentação e imunidade reforçada na pandemia

Natália Boere
·5 minuto de leitura

RIO — Preparar, apontar, forno! A pandemia formou uma leva de quituteiros com pegada saudável ou aqueceu a produção de quem já tinha as panelas e ingredientes mais leves como ferramentas de trabalho. Diante de um inimigo como o coronavírus, as pessoas perceberam a necessidade de se alimentar bem para estar com a saúde em dia no caso de ter que enfrentá-lo.

A designer Júlia Guimarães, que também é personal chef e pilota a Cozinha Alecrim, conta que os pedidos (pelo telefone 98897-1509) dobraram a partir de julho. Ela produz quitutes como tabule de quinoa, bobó de cogumelos, almôndegas de lentilha e hambúrguer de feijão. Quem a contrata por quatro horas, a R$ 395 (ingredientes e entrega à parte), escolhe de 15 a 20 opções veganas e sem glúten em um cardápio personalizado: Júlia manda um questionário com perguntas sobre intolerâncias alimentares, preferências e temperos de que o cliente não gosta.

— Na quarentena, as pessoas ficaram mais reservadas em casa, cozinhando. Agora, todo mundo quer praticidade, coisas prontas. E o coronavírus foi um convite a nos cuidarmos mais — observa a moradora do Cosme Velho, que também é cantora e compositora e lança em 3 de dezembro a série gastronômica “Inspira”, com trilha composta por ela, no Instagram @cozinha.alecrim.

Júlia é formada pela NOS Escola, de alimentação saudável, e conta que, ao concluir o curso, há quase quatro anos, sentiu vontade de levar esse universo para outras pessoas. A arquiteta Marina Vilaça, moradora do Leblon, agradeceu.

— Por falta de tempo para cozinhar, acabava tendo uma alimentação meio pobre. E, na quarentena, fiquei abalada, comi besteira e engordei. Além de saudável, a cozinha de Júlia é muito criativa , saborosa — afirma Marina, que há quatro meses passou a acionar Júlia a cada 15 dias.

A jornalista Rozane Sztejnberg, que mora em Botafogo, é outra que estudou na NOS Escola e engrenou na gastronomia durante a pandemia. Íntima da cozinha desde a infância — ela lembra com carinho que cresceu indo a açougues e feiras livres com o pai —, resolveu transformar a paixão em opção de trabalho diante de elogios de amigos e vizinhos. Em agosto, nasceu a Cozinha da Rô, que vende quitutes vegetarianos como quiche de cogumelos (R$ 60, para seis pessoas) e granolas sem glúten doces (R$ 40, 250g) e salgadas (R$ 37, 250g). Os pedidos são feitos pelo telefone 97540-7100, e a entrega é sem custos para Humaitá, Flamengo, Botafogo e Catete.

— Percebi esta missão de substituir ingredientes e formas de preparo para deixar a comida mais saudável. Uma boa alimentação nunca foi tão importante como neste período — diz.

“Agoniada de ficar em casa” e sem trabalho na quarentena, a corretora de imóveis Ana Paula Bacelar conta que encontrou na cozinha uma terapia. Em abril, começou a desbravar e adaptar receitas e criou a Gosti. Desde então, já recebeu, por exemplo, mais de 500 pedidos (pelo telefone 99977-4693) de bolos de pão de queijo (a R$ 28, com 20cm de diâmetro). Sem glúten, ela frisa!

— A culinária era algo que estava adormecido em mim e me fez muito bem — constata.

Bolos e cookies para comer sem culpa

A professora da educação infantil Clara Edel tirou uma lição da pandemia: lotada em uma escola municipal, que ainda está sem aulas, viu que a cozinha é um bom lugar para espantar a frustração por não ter o que fazer na quarentena. Intolerante ao glúten e com saudades de um bolo fofinho, a moradora de Botafogo resolveu tirar a poeira do avental e testar receitas com um mix de farinhas sem a proteína. Para a irmã, que é fitness, desenvolveu um bolo low carb, com xilitol no lugar do açúcar e farinha de coco, castanha de caju ou amêndoa, todas com baixo índice glicêmico. Começou fazendo a alegria dos membros da família.

— Não podia estar presente fisicamente, mas mandava um bolo para me representar —lembra ela.

O sucesso a encorajou a abrir, em setembro, a Caseirinhos sem Glúten, que oferece bolos sem glúten e low carb em sabores como cenoura, banana e formigueiro. Os preços variam de R$ 30 a R$ 40, com entrega grátis para Botafogo e Humaitá, e a R$ 5 nos demais bairros da Zona Sul. Pedidos pelo 98116-0730.

A advogada Renata Brandão, moradora de Copacabana, explica por que virou fã de Clara:

— Meu marido é diabético e estou fazendo uma dieta low carb séria para perder o peso que ganhei em duas gestações. Foi uma felicidade muito grande poder voltar a comer bolo sem culpa. É maravilhoso. Senti o gosto da comida da minha avó.

Os cookies veganos da nutricionista Marcela Medeiros (R$ 7, a unidade, ou R$ 15, o trio) também são sensação na quarentena. A pernambucana radicada no Rio há cinco anos criou a Fulora Bóia, que oferece ainda pão de banana (integral e sem açúcar, por R$ 20), bolinhas energéticas de tâmara, cacau e coco (veganas, sem glúten e sem açúcar, a R$ 3, cada) e marmitas veganas que variam semanalmente. Esta semana tem escondidinho de lentilhas com purê de aipim (R$ 19) e moqueca de banana-da-terra com arroz e farofa de dendê (R$ 23).

— Geralmente comida vegana é muito cara. Quis oferecer opções com um preço acessível — diz Marcela, moradora do Humaitá.

Pedidos podem ser feitos pelo 99935-6833. As entregas são sempre às quartas-feiras e custam R$ 5. A arquiteta Marina Correia, que mora no Flamengo, é das clientes mais assíduas — come Fulora Bóia quase todos os dias.

— A comida da Marcela é especial e com equilíbrio de nutrientes. Leve de sal, de gordura e muito saborosa. Ela é cuidadosa com os ingredientes, eu me sinto bem alimentada — diz.

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