Rússia abandona maior cidade conquistada na Guerra da Ucrânia

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O presidente russo, Vladimir Putin, durante reunião do Brics no Palácio do Itamaraty, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O presidente russo, Vladimir Putin, durante reunião do Brics no Palácio do Itamaraty, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Rússia anunciou nesta quarta (9) que determinou a retirada de suas forças militares de Kherson, a capital da província homônima que havia sido anexada pelo governo de Vladimir Putin em 30 de setembro.

É uma das mais simbólicas derrotas de Moscou em seus quase nove meses de campanha militar contra o vizinho. Kherson havia sido conquistada em 2 de março, logo no começo da guerra, e foi a mais importante cidade ocupada até aqui pelos russos.

A facilidade da retirada, por humilhante que seja, deixou contudo a pulga atrás da orelha em Kiev. "Até vermos a bandeira ucraniana sobre Kherson, não faz sentido falarmos em retirada militar", afirmou o assessor presidencial Mikhailo Podoliak.

Com a medida, Moscou consolida o que havia telegrafado nas semanas anteriores, quando retirou a administração de ocupação da cidade e promoveu a evacuação de cerca de 100 mil civis para a margem leste do rio Dnieper, ao lado da cidade, criando assim uma nova fronteira para a região que Putin havia anunciado ser russa "para sempre".

A admissão da incapacidade de defesa da cidade, até pelas dificuldades de suprir as forças russas ante a escalada militar ucraniana naquela direção, foi feita em um evento televisionado com o ministro da Defesa, Serguei Choigu, e o novo comandante da invasão, general Serguei Surovikin.

Os termos foram inusualmente francos. "Kherson não pode ser totalmente suprida. Tendo estudado compreensivamente a situação corrente, propomos fazer a defesa a partir da margem esquerda do rio Dnieper", disse Surovikin em frente a um mapa que foi desfocado na transmissão.

"Eu entendo que é uma decisão muito difícil, mas ao mesmo tempo vamos preservar a coisa mais importante: as vidas de nossos soldados e, no geral, a eficácia de combate das tropas", disse, completando: "Seria fútil mantê-las numa área limitada na margem direita".

De forma coreografada, Choigu então diz que concorda com a decisão. "Para nós, a vida e a saúde de soldados russos são prioridades, e temos de levar em conta as ameaças à população civil", afirmou o ministro, cada vez mais enfraquecido no cargo.

Não se sabe quantos habitantes ficaram para trás, mas a cidade tinha quase 300 mil moradores antes da guerra. Com a retirada, os russos fazem aquilo que analistas militares sugeriam nas últimas semanas: reforçaram a sua linha de defesa ao longo do Dnieper, em si uma formidável barreira natural contra ataques.

"É uma página sombria na história do Exército russo", disse, sem meias palavras, o notório blog militar russo War Gonzo em seu canal no Telegram. Nesta quarta, também morreu o número 2 do governo de ocupação em Kherson, Kirill Stremousov, no que foi descrito como um acidente de carro.

A retirada russa havia disparado um alarme entre ucranianos acerca do risco de Putin empregar uma arma nuclear tática, de baixa potência, contra as tropas de Kiev na região. O fato de que Kherson, a capital, segue habitada, parece dificultar tal hipótese.

Com a retirada, Moscou em tese terá mais capacidade de defender o restante de Kherson. Cerca de 80 mil dos 320 mil reservistas convocados para reforçar o esforço de guerra foram deslocados para as áreas ao sul e ao leste da Ucrânia.

Assim, apenas Lugansk aparece quase toda sob controle russo entre as quatro áreas anexadas por Putin: Donetsk, também no leste, e Zaporíjia, vizinha no sul de Kherson, têm partes nas mãos dos ucranianos.

Com efeito, o russo nunca estabeleceu as fronteiras das áreas que desejou absorver. Isso sugere espaço para negociação de paz, um tema que tem surgido com força nos últimos dias.

Os Estados Unidos estão pressionando o governo de Volodimir Zelenski a aceitar sentar à mesa com o de Putin, segundo relatos que não foram negados por Washington. Kiev chiou, e o mesmo Podoliak falou que seu país lutaria mesmo se levasse "uma facada nas costas" de seus aliados.

Por isso há a cautela do assessor acerca da retirada de uma região que analistas como Michael Kofman, do think-tank americano CNA, diziam ser indefensável no médio prazo. Antes, as maiores derrotas russas haviam sido o fracasso em capturar Kiev no começo da guerra e a retirada de Kharkiv, área no nordeste do país.

O balé político segue: segundo a agência americana Bloomberg, Putin não deverá ir à reunião do G20 em Bali, na semana que vem. A cúpula terá a presença do americano Joe Biden e do chinês Xi Jinping, que estão em fase de arestosa aproximação, e havia a expectativa de que as delegações conversassem entre si e com a russa --a China é a maior aliada do Kremlin.

Com a nova situação em solo na Ucrânia, resta saber se o próximo passo do Kremlin será o recrudescimento de sua campanha dura contra o sistema energético ucraniano às vésperas do inverno ou alguma abertura diplomática.