Rússia admite gravidade da crise do vírus, que atrapalha planos de Putin

IGOR GIELOW
***FOTO DE ARQUIVO*** BRASILIA, DF, BRASIL, 14-07-2014 - Presidente Dilma Rousseff e o presidente da Rússia Vladimir Putin durante cerimônia de assinatura de atos e declaração à imprensa durante visita oficial, no Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Rússia enfim reconheceu que tem um problema maior do que o divulgado até aqui com o novo coronavírus, cuja pandemia embaçou os planos do presidente Vladimir Putin de fazer de 2020 uma espécie de apoteose de suas duas décadas no poder.

Após semanas sob escrutínio internacional e suspeitas internas pelo seu baixo número de infecções pelo vírus, o país admitiu nesta terça (24) que isso se deve à subnotificação dos casos por falta de exames.

O anúncio foi feito a Putin pelo prefeito de Moscou, Serguei Sobianin, que é o coordenador nacional dos esforços contra a pandemia.

"O número real de doentes é significativamente mais alto. Ninguém sabe", afirmou, segundo a agência de notícias Tass. Segundo ele, simplesmente não há testagem suficiente para saber a escala do espraiamento do patógeno. O país desenvolveu um teste rápido, de 5 minutos, e agora diz que vai produzi-lo maciçamente.

Putin vinha sendo acusado pela oposição e por políticos europeus de minimizar a crise, que chamou de "contida" na semana passada. Nesta mesma terça, visitou com roupa de proteção um hospital que atende doentes com Covid-19 em Moscou.

A Rússia tem 495 casos conhecidos e 1 morte, ante uma população de 144 milhões de pessoas. Isso dá uma taxa de 0,34 casos por 100 mil habitantes. No Brasil, que enfrenta o problema há menos tempo e também registra alta subnotificação, o índice é três vezes maior.

O jornalista Iuri, 43, que pede para não revelar o sobrenome, é um exemplo de como a subnotificação pode ocorrer.

Ele teve febre e tosse há duas semanas e procurou um hospital no centro de Moscou. Foi examinado, mas recebeu a informação de que não seria testado para a Covid-19 porque os kits eram destinados a quem fosse internado e seus sintomas eram leves.

Voltou para casa de metrô, de máscara simples, não a do tipo N92, de uso médico. "Eu melhorei, então espero que não tenha sido nada. Mas suponho que muita gente passe pelo mesmo, então não sabemos o que está acontecendo", disse, por aplicativo de mensagens.

O tom de alerta de Sobianin nesta terça contrasta como a progressividade das medidas do governo. A mais conhecida, no começo da crise, foi o fechamento total da fronteira russo-chinesa, de 4.250 km.

Era algo mais simbólico, já que o tráfego é concentrado na ferrovia Transiberiana e nos aeroportos, dado que o Extremo Oriente russo é parcamente habitado: 77% dos russos vivem nos 25% do território do país na Europa.

De 31 de dezembro para cá, foram feitas 1,3 milhão de triagens, segundo o Ministério da Saúde russo, e 20,4 mil voos, carros e trens foram vistoriados. Aos poucos, grandes cidades proibiram concentrações com mais de 500 pessoas e, agora, as com mais de 50.

Nesta semana, Moscou iniciou o processo de quarentena pela população com mais de 65 anos. Putin, com 67, se eximiu das restrições porque seu trabalho é considerado essencial pela lei.

No fim de semana, contudo, bares e restaurantes tiveram movimento normal. A diferença é a ausência de turistas, já que o Kremlin vetou a entrada de estrangeiros no país salvo algumas exceções na semana passada.

Nesta terça, a Tchetchênia tornou-se a primeira região russa a determinar fechamento total de comércio e restaurantes, com algumas exceções como bares de hotéis para turistas, que praticamente inexistem em locais como Grozni.

De forma mais polêmica, o governo decidiu também na semana passada usar o amplo sistema de reconhecimento facial implantado no país, a exemplo da China, para monitorar cidadãos em caso de suspeita de infecção. Contatos em telefones celulares também poderão ser checados, o que gera o temor de ampliação do caráter Leviatã do Estado russo.

A emergência atrapalhou o roteiro de Putin para o ano em que comemora 21 anos no poder, 20 como presidente.

O russo começou 2020 a todo vapor, operando uma manobra legal no Parlamento, chancelada pela Corte Constitucional do país, que permitirá a ele disputar um quinto e talvez um sexto mandato à frente do Kremlin.

Pelas regras vigentes até então, Putin deveria deixar o poder em 2024 e só poderia tentar voltar à Presidência em 2030, quando terá 77 anos. Agora, está liberado, mas um aspecto legalista foi mantido e o presidente pediu que a medida fosse submetida a referendo.

Ele está marcado para 22 de abril, mas o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, disse na segunda (23) que talvez ele seja adiado devido à emergência da pandemia. Junho é a próxima data provável.

Mais frustrante para Putin é outra data, 9 de maio. Nesse dia é comemorada a vitória da União Soviética sobre o nazismo na Segunda Guerra Mundial (1939-45), que nos domínios de Moscou é chamada de Grande Guerra Patriótica, tendo começado em 1941, quando Adolf Hitler traiu o pacto que tinha com Josef Stálin e invadiu o aliado de ocasião.

A data é central no calendário russo desde os tempos do comunismo, mas Putin a elevou a momento sacro do calendário. O culto ao heroísmo soviético é parte da construção da imagem do presidente nesses anos, ainda que rejeitando o sistema político de então.

A parada deste ano seria especial, celebrando os 75 anos da vitória. Líderes como o presidente francês, Emmanuel Macron, confirmaram presença, e a nova geração de mísseis hipersônicos russos teria lugar de destaque no desfile militar.

A saída especulada até aqui é botar os 15 mil soldados e 400 veículos militares na rua, só que sem público, transformado a festa da vitória em mais um evento virtual em tempos de quarentena.

Putin já deveria contar com as questões do referendo acertadas até lá, comemorando assim sua posição como czar do século 21 ante a comunidade internacional.

De quebra, poderia reforçar sua cruzada em favor do que chama de "verdade histórica" sobre a Segunda Guerra, algo que foi agora inscrito na Constituição.

Putin se irritou com o esforço da União Europeia de equivaler o comunismo ao nazismo devido ao pacto inicial entre soviéticos e alemães. Os 27 milhões de mortos do lado de Moscou no conflito são uma ferida unificadora do país.

Passou, contudo, à ofensiva, buscando uma narrativa criativa para o pacto estabelecido em 1939, dizendo que ele foi meramente uma obrigação que o Ocidente impôs aos soviéticos por terem tentado apaziguar Hitler.

Tudo isso fica agora em segundo plano, como de resto questões mais importantes como o atrito entre russos e turcos na Síria ou mesmo a disputa pelo preço do petróleo entre o Kremlin e a Arábia Saudita.