Rússia alerta sobre sérias consequências após ataque dos EUA na Síria

Michelle Nichols, Andrew Osborn e Tom Perry
Enviado adjunto da Rússia na ONU Vladimir Safronkov faz discurso 7/4/2017 REUTERS/Stephanie Keith

NAÇÕES UNIDAS/MOSCOU/BEIRUTE, 7 Abr (Reuters) - A Rússia alertou nesta sexta-feira que os ataques a mísseis de cruzeiro dos Estados Unidos contra uma base aérea síria podem ter consequências “extremamente sérias”, num momento em que a primeira grande incursão do presidente Donald Trump em um conflito externo abriu um racha entre Moscou e Washington.

Os navios de guerra USS Porter e USS Ross no Mar Mediterrâneo lançaram dezenas de mísseis Tomahawk que atingiram a base aérea de Shayrat, que segundo o Pentágono estava envolvida no ataque com armas químicas nesta semana.

Esta foi a primeira grande decisão de política externa de Trump desde que tomou posse, em janeiro, com o tipo de intervenção direta na guerra civil síria, que já dura seis anos, que seu antecessor, Barack Obama, evitava.

Os ataques foram reação ao que Washington diz ter sido um ataque a gás venenoso realizado pelo governo do presidente sírio, Bashar al-Assad, e que matou ao menos 70 pessoas em território tomado por rebeldes.

Os ataques catapultaram Washington para confronto com a Rússia, que possui assessores em solo auxiliando Assad, aliado próximo de Moscou.

“Condenamos fortemente as ações ilegítimas dos Estados Unidos. As consequências disto para a estabilidade regional e internacional podem ser extremamente sérias”, disse o enviado adjunto da Rússia na Organização das Nações Unidas (ONU), Vladimir Safronkov, durante encontro nesta sexta-feira do Conselho de Segurança da ONU.

O primeiro-ministro da Rússia, Dmitry Medvedev, disse que os ataques norte-americanos estavam a um passo de distância de choque com o Exército russo.

Autoridades norte-americanas informaram forças russas antes dos ataques a mísseis e evitaram atingir militares russos.

Imagens de satélites sugerem que a base hospeda membros das forças especiais russas e helicópteros, parte dos esforços do Kremlin para ajudar Assad na luta contra o Estado Islâmico e outros grupos militantes.

Trump tem pedido frequentemente relações melhores com a Rússia, tensas durante o governo Obama por causa de Síria, Ucrânia e outras questões, mas disse que ações tiveram que ser tomadas contra Assad.

“Anos de tentativas anteriores de mudar o comportamento de Assad fracassaram e fracassaram muito dramaticamente”, disse Trump ao anunciar o ataque na noite de quinta-feira em seu resort na Flórida, Mar-a-Lago, onde se encontrava com o presidente da China, Xi Jinping.

“PREPARADOS PARA FAZER MAIS”

A embaixadora dos EUA na ONU, Nikki Haley, disse nesta sexta-feira que o governo Trump está pronto para tomar novas medidas caso seja necessário.

“Estamos preparados para fazer mais, mas esperamos que isto não seja necessário”, disse ao Conselho de Segurança da ONU. “Os Estados Unidos não irão tolerar quando armas químicas forem usadas. Está em nosso interesse vital de segurança nacional evitar a disseminação e uso de armas químicas.”

O Irã, que apoia Assad e tem sido criticado por Trump, condenou o ataque, com o presidente Hassan Rouhani dizendo que isto iria levar “somente a destruição e perigo para a região e o globo”.

Aliados dos EUA da Ásia, Europa e Oriente Médio expressaram apoio, embora às vezes com cautela.

Autoridades norte-americanas chamaram a intervenção de uma intenção “única” para deter futuros ataques com armas químicas, e não uma expansão do papel dos EUA na guerra síria.

A ação provavelmente será interpretada como um sinal à Rússia, e países como Coreia do Norte, China e Irã, onde Trump tem enfrentado testes de política externa.

Os Estados Unidos agora devem buscar mais agressivamente informações sobre o possível programa de armas químicas da Síria. O Pentágono também destacou interesse em determinar qualquer cumplicidade russa.

“No mínimo, os russos falharam em conter a atividade do regime sírio”, disse uma autoridade militar norte-americana a repórteres, falando sob condição de anonimato.

A Rússia se juntou à guerra em nome de Assad em 2015, levando o confronto a favor do presidente. Embora apoiem lados opostos na guerra entre Assad e rebeldes, Rússia e EUA dizem compartilhar um único inimigo principal: o Estado Islâmico.

Autoridades militares seniores dos EUA disseram que o ataque contra a base aérea destruiu até 20 aeronaves sírias e danificou locais de abastecimento e um sistema de mísseis.

O gabinete de Assad informou que a Síria irá atingir seus inimigos com mais força.

Damasco e Moscou negaram que forças sírias estavam por trás do ataque com gás, mas países ocidentais rejeitaram a explicação de que químicos vazaram de um galpão de armas de rebeldes após um ataque aéreo.