Rússia aplica sanções a UE por caso Navalny, a quem acusa de 'delirar'

Antoine LAMBROSCHINI
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O opositor russo Alexei Navalny (E) e o presidente russo, Vladimir Putin

As autoridades russas anunciaram nesta terça-feira (22) sanções contra a UE por sua resposta ao caso de envenenamento do principal opositor do Kremlin, Alexei Navalny, e chamaram de "delírio" as revelações feitas por ele a respeito dos serviços secretos russos.

O Ministério russo das Relações Exteriores afirmou "ter ampliado a lista de representantes de países-membros da União Europeia que estão proibidos de entrar no território da Federação Russa", sem revelar nomes.

A pasta explicou que esta é uma reação às sanções adotadas em outubro pelos europeus para seis personalidades russas, incluindo Alexander Bortnikov, chefe dos serviços secretos (FSB), "sob o pretexto de sua suposta participação no incidente que envolve o cidadão Navalny".

Essas medidas foram anunciadas aos representantes das embaixadas de França, Alemanha e Suécia, os três países cujos laboratórios identificaram um agente neurotóxico de uso militar do tipo Novichok no organismo do opositor. Navalny foi hospitalizado em Berlim, após seu suposto envenenamento na Sibéria, em 20 de agosto.

A Alemanha considerou as sanções "injustificadas", afirmaram fontes do Ministério alemão das Relações Exteriores.

A Rússia também acusa Berlim, Paris, Estocolmo e a Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ) de não fornecerem seus arquivos vinculados ao Novichok, substância desenvolvida para fins militares durante a época soviética.

A Alemanha considerou as sanções "injustificadas".

- "Mania de perseguição" -

A Rússia afirma que Navalny não tinha veneno em seu organismo quando foi hospitalizado na Sibéria e que, por falta de cooperação por parte dos europeus, nenhuma investigação foi aberta na Rússia.

Talvez por coincidência do calendário, a reação russa às sanções europeias ocorre depois que Navalny publicou no dia anterior um vídeo de uma ligação em que conversa, sob uma identidade falsa, com o suposto Konstantin Kudriavsev, apresentado como especialista em armas químicas do FSB, sobre algumas circunstâncias da tentativa de assassinato da qual foi alvo.

Acreditando falar com um funcionário da Inteligência, o indivíduo afirmou que participou da destruição das provas e que Navalny foi envenenado por uma substância introduzida no "bolso de sua cueca".

"O doente sofre claramente de mania de perseguição e (...) alguns sintomas de megalomania", afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, que também julgou como "freudiana" a referência das roupas íntimas.

Com um tom mais sóbrio, o FSB denunciou na noite de segunda-feira uma "falsificação" e uma "provocação", provavelmente orquestrada com ajuda de serviços estrangeiros.

A organização de Navalny, o Fundo de Combate à Corrupção, disse à AFP que apresentou uma denúncia contra Kudriavsev ao poderoso Comitê de Investigação da Rússia.

Após a publicação, em 14 de dezembro, do relatório de uma primeira investigação no site inglês Bellingcat, em colaboração com Navalny e a mídia europeia, Vladimir Putin reconheceu na quinta-feira que o opositor estava sob vigilância, mas enfatizou que se quisessem matá-lo, ele já estaria morto.

- Regra básica -

A imprensa independente e os críticos do governo russo fizeram piadas da aparente humilhação do FSB, organização herdeira da KGB, elite dos serviços de segurança que Putin liderou na década de 1990.

No Novaya Gazeta, a editora Iulia Latinina compara o engano de Navalny com "uma armadilha digna de (o detetive personagem de livros da escritora Agatha Christie) Hercules Poirot".

Nas redes sociais, memes e piadas difamando o FSB se multiplicam, enquanto o vídeo teve 12,5 milhões de visualizações em menos de 24 horas.

"Regra básica da Inteligência: (...) nunca aceitar uma chamada de alguém que não conhece. Aparentemente, isso não é ensinado na academia do FSB", tuitou Wolfgang Ischinger, chefe da Conferência de Segurança de Munique, ex-embaixador alemão especializado em tensões entre Rússia e Ocidente.

A imprensa oficial russa forneceu uma cobertura mínima sobre o caso.

Por sua vez, a câmara baixa de Duma (parlamento) aprovou em terceira leitura uma legislação que protege a identidade dos funcionários do sistema judicial e agentes da autoridade.

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