Rússia ataca instalações energéticas ucranianas, deixando 80% dos moradores de Kiev sem água

A Rússia lançou dezenas de mísseis contra instalações de infraestrutura e outros alvos em toda a Ucrânia na manhã desta segunda-feira, denunciaram autoridades ucranianas. Segundo o prefeito de Kiev, Vitali Klitschko, os ataques provocaram cortes de energia e do abastecimento de água na maior parte da capital, deixando 80% dos moradores sem água e cerca de 350 mil casas sem luz elétrica.

Os ataques desta segunda-feira atingiram 10 regiões, "danificando 18 instalações, a maioria relacionada ao sistema de energia", disse o primeiro-ministro ucraniano, Denys Shmyhal, acrescentando que "centenas de localidades" estão sem eletricidade "em sete regiões" da Ucrânia.

Os bombardeios são mais uma retaliação aos ataques ucranianos com drones, no último sábado, contra navios da frota russa do Mar Negro, baseada em Sebastopol, na Península da Crimeia, anexada por Moscou em 2014. Os ataques já haviam levado a Rússia a suspender sua participação no acordo, assinado em julho com mediação da ONU e da Turquia, que permitiu à Ucrânia retomar suas exportações de grãos pelos portos do Mar Negro.

Segundo o Ministério da Defesa russo, foram realizados "ataques com armas de alta precisão e longo alcance (...) contra o comando militar e os sistemas de energia da Ucrânia". "Todos os ataques atingiram seu objetivo. Todos os alvos designados foram atingidos", afirmou o ministério em nota.

"Os terroristas russos voltaram a executar um ataque em larga escala contra as instalações do sistema energético em várias regiões", afirmou por sua vez um assessor da Presidência ucraniana pelo Telegram, acrescentando que alguns mísseis "foram derrubados pela defesa antiaérea".

Segundo as Forças Armadas ucranianas, foram derrubados 44 dos mais de 50 mísseis disparados do Mar Cáspio e da região de Rostov, no Oeste da Rússia. Os destroços de um dos projéteis interceptados caíram no território da Moldávia, ao longo da fronteira ocidental da Ucrânia. De acordo com o vice-ministro do Interior da Moldávia, Sergiu Diaconu, não houve feridos.

No final da manhã, a extensão dos danos ainda não parecia ser tão grave quanto os provocados pela enxurrada de mísseis e ataques de drones que a Rússia lançou contra Kiev e outras cidades em 10 de outubro, que destruiu 30% da infraestrutura de energia da Ucrânia. Entretanto, os ataques atingiram instalações de infraestrutura nas cidades centrais de Dniéper e Pavlograd, causando "séria destruição", escreveu o chefe da administração militar regional, Valentyn Reznichenko, no Telegram.

Os novos ataques "representam uma ameaça direta à segurança dos países vizinhos", criticou no Facebook o porta-voz da diplomacia ucraniana, Oleg Nikolenko, pedindo mais uma vez aos aliados de Kiev que forneçam "equipamentos modernos de defesa antimísseis e antiaéreos".

"Em vez de lutar no campo de batalha, a Rússia luta contra civis", disse o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Dmytro Kuleba, no Twitter. "Não justifique esses ataques chamando-os de 'resposta'. A Rússia faz isso porque ainda tem os mísseis e a vontade de matar os ucranianos", continuou.

Volodymyr Kudrytskyi, executivo-chefe da Ukrenergo, a empresa de energia ucraniana, disse em entrevista na sexta-feira que os contínuos ataques russos recentes tornaram os reparos extremamente difíceis e perigosos nas instalações, e que os cortes de energia podem se tornar "mais frequentes e prolongados" daqui pra frente. Além disso, greves nas últimas semanas destruíram linhas de alta tensão que são a espinha dorsal da rede de energia da Ucrânia.

Os novos ataques ocorrem após o anúncio, feito no sábado por Moscou, da suspensão de sua participação no acordo sobre as exportações de grãos ucranianos — vitais para o abastecimento mundial de alimentos —, fazendo o preço do trigo disparar. Nesta segunda-feira, o Kremlin considerou que será "perigoso" e "difícil" manter as exportações sem a colaboração da Rússia, sem comentar as condições que Moscou está estabelecendo para retomar o pacto.

— Na impossibilidade de garantir a segurança da navegação nessas áreas, esse acordo é difícil de aplicar. E toma um rumo diferente, muito mais arriscado, perigoso — disse o porta-voz da Presidência russa, Dmitry Peskov, informando que consultas diplomáticas estão em andamento com a Turquia e a ONU sobre o futuro do acordo.

No domingo, o governo de Kiev afirmou que as exportações de grãos se tornariam "impossíveis" com a saída russa. Apesar disso, as partidas dos portos continuam, garantidas pela ONU, que anunciou no domingo ter mantido discussões com todas as partes do acordo para que o transporte de alimentos não fosse interrompido.

Nesta segunda-feira, dois cargueiros carregados de grãos deixaram os portos ucranianos nesta segunda-feira e tomaram o corredor marítimo com destino à Turquia especificado no acordo de julho. Outros 12 navios devem deixar os portos ucranianos durante o dia e mais quatro estão indo em direção a eles, um dos quais, sob bandeira turca, já partiu, informou o Centro de Coordenação Conjunta, responsável pela supervisão do acordo e baseado em Istambul.

O Centro de Coordenação também informou que a delegação russa que participava das inspeções de navios com cereais ucranianos estava se retirando "por tempo indeterminado". (Com New York Times, Bloomberg e AFP.)