A Rússia atacou repetidamente os civis na Ucrânia. Em todos os casos havia uma desculpa

Desde o final de fevereiro, quando a Rússia começou a atacar a Ucrânia com mísseis e artilharia em uma escala que não foi vista na Europa em décadas, as mortes de civis foram inevitáveis, assim como as desculpas russas que vieram depois.

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Os ataques atingiram as pessoas na fila do pão e parques de crianças, assim como blocos de apartamentos, teatros e hospitais. Após cada um deles, a Rússia negou ou tentou se livrar da responsabilidade, por vezes acusando a Ucrânia de atacar seu próprio povo para jogar a opinião pública interna e global contra Moscou.

A Rússia afirma que apenas atinge alvos de valor militar — mesmo que estejam a algumas centenas de quilômetros das linhas de frente — e sempre que uma estrutura civil era atingida, dizia que o local era usado pelos ucranianos como um posto de comando, um abrigo para combatentes estrangeiros ou um armazém de armas.

O mantra do Kremlin encontraram apoio entre a população russa, com boa parte influenciada pelas redes de TV controladas pelo Estado e por comentaristas a favor da guerra que levam adiante as linhas do governo.

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Mesmo assim, jornalistas, organizações independentes e funcionários públicos ucranianos documentaram ataques russos contra milhares de prédios civis, estruturas e veículos. Em certos casos, a Rússia usou armas ultrapassadas, que tinham como alvo instalações militares, mas sua baixa precisão colocou civis em risco. Em outros casos, as alegações de Moscou não se sustentaram após investigações.

Aqui estão alguns dos maiores ataques, assim como as explicações russas.

1º de Julho: Hotel e torre residencial perto de Odessa

Mísseis atingiram um hotel, parte de um prédio residencial de nove andares, onde mais de 100 pessoas moravam, e um centro recreativo, matando 21 pessoas a cerca de 80 km de Odessa, de acordo com o serviço de emergência ucraniano.

Explicação russa: A Rússia tentou atingir depósitos de munição e armas, unidades de produção e reparo de equipamento militar e locais onde “mercenários estrangeiros” e “elementos nacionalistas” estavam abrigados e eram treinados, disse Dmitry Peskov, secretário de Imprensa do Kremlin.

— Gostaria de, mais uma vez, lembrá-los das palavras do presidente da Federação Russa e comandante em chefe afirmando que as Forças Armadas da Federação Russa não trabalham contra alvos civis na operação militar especial — disse, se referindo a Vladimir Putin.

27 de junho: Centro comercial em Kremenchuk

Um ataque à luz do dia contra um centro comercial matou pelo menos 20 pessoas e deixou dezenas feridas em Kremenchuk, na região central da Ucrânia. Autoridades locais afirmaram que centenas de pessoas estariam no local.

Explicação russa: O Ministério da Defesa disse que atingiu Kremenchuk com o que descreveu como “mísseis de alta precisão”. Seu alvo, disse o ministério, era uma instalação industrial perto do centro comercial, que estava sendo usado como depósito de armas e de munições para sistemas fornecidos pelos EUA e países europeus. O ministério afirmou que o ataque fez com que as munições explodissem, o que teria provocado o incêndio.

No Twitter, Dmitry Polyansky, vice-embaixador russo na ONU, sugeriu que a explosão foi causada pela Ucrânia como uma forma de “provocação”.

8 de abril: Estação de trem de Kramatorsk

Um ataque com foguetes contra uma estação de trem lotada com civis tentando escapar para áreas mais seguras matou cerca de 50 pessoas e deixou muitas feridas. Os restos do foguete, identificados pelo presidente Volodymyr Zelensky como sendo de um míssil balístico de curto alcance Tochka-U, traziam as palavras “para nossas crianças”. Não se sabe quem escreveu a mensagem.

Explicação russa: A Rússia negou qualquer responsabilidade, dizendo não ter mísseis Tochka-U em seu arsenal, e afirmando que os ucranianos operam tais armas. Mais tarde, o país acusou a Ucrânia de realizar o ataque.

16 de março: Teatro de Mariupol

Dezenas de pessoas — algumas estimativas falam em centenas — morreram em Mariupol em um ataque contra um teatro que estava sendo usado como abrigo contra ataques aéreos, segundo autoridades locais. A palavra “crianças” estava escrita no pátio, em russo, em letras brancas.

Explicação russa: Maria Zakharova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores russo, disse que a Ucrânia tentava culpar a Rússia e que era uma “mentira” dizer que os russos atacaram o teatro, de acordo com a Reuters.

— Todos sabem que as forças russas não bombardeiam cidades — declarou. — Não importa quantos vídeos sejam montados pelas estruturas da Otan, ou quantos vídeos e fotos falsas sejam liberadas, a verdade virá à tona.

O Ministério da Defesa russo negou ter realizado o ataque e acusou o Batalhão Azov, um regimento da Guarda Nacional da Ucrânia e associado à extrema direita e movimentos neonazistas, de ter explodido o teatro em uma “provocação sangrenta”.

16 de março: Fila do pão em Chernihiv

Ao menos 18 pessoas morreram e 26 ficaram feridas após serem atingidas por um disparo de artilharia em uma fila do pão do lado de fora de um mercado em Chernihiv, de acordo com a Human Rights Watch.

Explicação russa: O Ministério da Defesa russo negou qualquer responsabilidade, dizendo que suas forças não estavam em Chernihiv na hora do ataque. O ministério disse que ou “nacionalistas ucranianos” realizaram a ação, ou então ela teria sido encenada pelo Serviço de Segurança da Ucrânia.

9 de março: Maternidade em Mariupol

Um míssil atingiu uma maternidade, que já operava em condições precárias. A foto de uma mulher grávida sendo carregada em meio aos escombros se tornou uma das imagens mais marcantes da guerra; a mulher morreu dias depois.

Explicação russa: Integrantes do governo disseram que o hospital operava como uma base das forças ucranianas. Polyansky, o vice-embaxador russo na ONU, afirmou que as alegações eram “notícias falsas”.

20 de março: Execuções em Bucha

Os corpos de dezenas de pessoas, muitas delas executadas, foram encontrados ao redor de Bucha, um subúrbio de Kiev, depois da retirada das forças russas dos arredores da capital ucraniana no final de março. Uma investigação do New York Times descobriu que as forças russas em Bucha agruparam e executaram um grupo de homens ucranianos no dia 4 de março, no que pode ser considerado um crime de guerra. Também foi encontrado um vídeo comprovando que os russos mataram um ciclista no dia 5 de março.

Explicação russa: Os líderes russos, nos mais altos escalões, negaram ter cometido violações em Bucha, descrevendo as imagens de civis mortos como “provocação” e “falsas”.

Março a maio e, novamente, em junho: Ataques contra Kharkiv

Uma sala de aula em um jardim da infância, um bar e um parquinho estão entre as muitas cenas de devastação em Kharkiv, onde uma intensa campanha de bombardeios foi mantida por meses. Centenas de pessoas foram mortas e centenas de prédios destruídos por foguetes russos, munições de fragmentação e mísseis de precisão em áreas residenciais. Depois de uma breve pausa, os ataques foram retomados em junho.

Explicação russa: O governo russo negou ter atacado civis em Kharkiv, dizendo que as tropas ucranianas e “neonazistas” usaram a população como “escudos humanos”.

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