Rússia busca compradores para grãos saqueados da Ucrânia, alertam EUA

A Rússia bombardeou, bloqueou e saqueou a capacidade de produção de grãos da Ucrânia, que responde por um décimo das exportações globais de trigo, resultando em previsões terríveis de aumento da fome e aumento dos preços dos alimentos em todo o mundo. Agora, os Estados Unidos alertaram que o Kremlin está tentando lucrar com essa pilhagem vendendo trigo roubado para países da África atingidos pela seca, alguns enfrentando uma possível fome.

Guerra dos grãos: EUA acusam Rússia de impedir exportações e usar alimento como arma

Guerra na Ucrânia completa cem dias sem fim à vista: O que pode encerrar o conflito?

Assista: Videográfico explica conflito iniciado com invasão russa em fevereiro

Em meados de maio, os Estados Unidos enviaram um alerta a 14 países, principalmente na África, de que navios de carga russos estavam partindo de portos perto da Ucrânia carregados com o que um cabo diplomático do Departamento de Estado descreveu como “grão ucraniano roubado”. A mensagem identificou pelo nome três navios de carga russos suspeitos de transportá-lo.

Foco de ofensiva russa: Centenas de civis se escondem em fábrica de químicos em Severodonetsk

O alerta americano sobre os grãos só aguçou o dilema para os países africanos, muitos já se sentindo presos entre o Oriente e o Ocidente, pois potencialmente enfrentam uma difícil escolha entre, por um lado, beneficiar-se de possíveis crimes de guerra e desagradar um poderoso aliado ocidental, e por outro, recusando alimentos baratos em um momento em que os preços do trigo estão subindo e centenas de milhares de pessoas passam fome.

O alarme emitido por Washington reforçou as acusações do governo ucraniano de que a Rússia roubou até 500 mil toneladas de trigo, no valor de US$ 100 milhões, desde a invasão em fevereiro. Grande parte foi transportada para portos na Crimeia, controlada pela Rússia, e depois transferida para navios, incluindo alguns sob sanções ocidentais, dizem autoridades ucranianas.

Cem dias da guerra na Ucrânia: Exército de Kiev perde posições, e vidas, contra Rússia no Leste

Na sexta-feira, o chefe da União Africana, o presidente Macky Sall, do Senegal, reuniu-se na Rússia com o presidente Vladimir Putin, em um esforço para garantir o fornecimento de grãos do país.

Críticos disseram que a viagem, durante a qual Sall se referiu a Putin como seu "querido amigo Vladimir", jogou direto nas mãos da Rússia mais uma ferramenta para alavancar as divisões na resposta internacional ao seu ataque brutal à Ucrânia.

Alerta: Guerra na Ucrânia tem duro impacto na África, trazendo risco de aumentar fome e instabilidade social

Mas muitas nações africanas já estão ambivalentes sobre a punitiva campanha ocidental de sanções contra a Rússia por razões que incluem sua dependência das vendas de armas russas, simpatias remanescentes da era da Guerra Fria e percepções de padrões duplos ocidentais.

Putin ameaça atacar 'novos alvos' se Ucrânia receber mísseis: Capital ucraniana sofre primeiro ataque desde abril

Além disso, o continente está sofrendo muito.

A Rússia e a Ucrânia normalmente fornecem cerca de 40% das necessidades de trigo na África, onde os preços do grão subiram 23% no ano passado, segundo a ONU.

Na região do Chifre da África, uma seca devastadora deixou 17 milhões de pessoas com fome, principalmente em partes da Somália, Etiópia e Quênia, segundo a ONU. Mais de 200 mil pessoas na Somália estão à beira da fome.

Diante de uma necessidade tão urgente, é improvável que muitos países africanos hesitem antes de comprar grãos fornecidos pela Rússia, não importa de onde venham, disse Hassan Khannenje, diretor do HORN International Institute for Strategic Studies, um órgão de pesquisa no Quênia.

'Golpe constitucional': Como presidentes na África vêm alterando a Constituição para não sair do poder

— Isso não é um dilema — disse Khannenje. — Os africanos não se importam de onde tiram sua comida e, se acham que alguém vai moralizar isso, estão enganados. A necessidade de comida é tão grave que não é algo que precisem debater.

Autoridades ucranianas disseram que a solução para o problema alimentar da África é uma maior pressão global para acabar com a guerra, não a compra de grãos saqueados. Há uma “resposta simples”, disse Taras Vysotsky, vice-ministro da Agricultura da Ucrânia: “Parem os combates.”

Vysotsky e outros ministros ucranianos acusam a Rússia há meses de roubar grãos dos territórios que ocupa no Sul do país, descrito como um “roubo total”. Grande parte foi retirada de armazéns em partes ocupadas das regiões de Zaporíjia, Kherson, Donetsk e Luhansk, dizem eles.

— Não há mais nada para roubar — disse Vysotsky.

Grande parte do grão saqueado, segundo autoridades ucranianas, acaba em portos como Sebastopol, na península da Crimeia, que a Rússia ocupa desde 2014.

No final de abril, surgiram vídeos de colunas de caminhões cobertos dirigindo o que autoridades ucranianas disseram ser grãos roubados. Em uma análise do vídeo, o New York Times confirmou que foi gravado na cidade ocupada pelos russos de Melitopol, mostrando o comboio indo para sudoeste, em uma estrada principal em direção à Crimeia.

Pelo menos 10 barcos exportaram grãos roubados, principalmente trigo, através do porto de Sevastopol desde o final de fevereiro, de acordo com os ucranianos que estão rastreando remessas no projeto SeaKrime, administrado pelo site de investigação de código aberto Myrotvorets.

Sites de rastreamento marítimo e especialistas que monitoram os navios, disseram que os navios, alguns sob sanções dos EUA desde abril, muitas vezes desligam seus transponders até que estejam no mar, provavelmente para esconder seu porto de partida. Mas eles ainda aparecem em imagens de satélite ou são fotografados por observadores no solo.

No mês passado, os três navios russos identificados pelo Departamento de Estado como suspeitos de transportar grãos ucranianos roubados — Matros Koshka, Matros Pozynich e Mikhail Nenashev — viajaram entre o Estreito de Kerch, que divide a Crimeia e a Rússia, e vários portos em o Mediterrâneo Oriental.

Às vezes eles atracavam na Turquia ou na Síria; outras vezes, de acordo com sites que rastreiam o tráfego marítimo, desligaram seus transponders enquanto atravessavam o Mediterrâneo, possivelmente para esconder seu destino final.

Duas autoridades norte-americanas confirmaram o conteúdo do telegrama, que foi enviado em 16 de maio a 14 países, principalmente no Norte e Leste da África, além do Paquistão, Bangladesh, Sri Lanka e Turquia.

Várias autoridades estrangeiras disseram que os Estados Unidos pediram a eles que garantissem que seus países não comprassem grãos ucranianos roubados, com o pedido feito com tom de cooperação, não de coerção. No Paquistão, que considera comprar 2 milhões de toneladas de trigo da Rússia, um alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores disse que os americanos enfatizaram a soberania do Paquistão quando pediram ajuda.

A Turquia é o foco dos esforços para rastrear grãos ucranianos roubados porque os navios russos que saem da Crimeia geralmente passam por águas turcas. Na sexta-feira, o embaixador da Ucrânia na Turquia pediu às autoridades que investiguem a origem dos grãos transportados pela Rússia.

Ao longo da crise na Ucrânia, muitos países africanos se sentiram tratados com descaso, presos entre potências estrangeiras envolvidas em uma nova rodada de rivalidade ao estilo da Guerra Fria. No fim de semana, vários se recusaram a discutir o alerta dos EUA sobre grãos ucranianos roubados.

Macharia Kamau, secretário-chefe do Ministério das Relações Exteriores do Quênia, negou que o país tenha recebido qualquer mensagem.

— Por que precisariam nos avisar em primeiro lugar? Por que alguém compraria algo saqueado? Isso soa como um estratagema de propaganda — disse.

Mindi Kasiga, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Tanzânia, disse que a posição de seu país “sempre foi neutra”.

Em grande parte da África, qualquer pressão ocidental sobre os grãos fornecidos pela Rússia provavelmente sairá pela culatra, disse Khannenje, a menos que o Ocidente possa oferecer um meio de reduzir o déficit de trigo.

— Se o Ocidente puder fornecer alternativas, os países ouvirão isso — disse ele. — Mas ficar de histeria com isso só vai empurrá-los ainda mais para os braços da Rússia.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos