Rússia concentra tropas perto da Ucrânia e gera alarme no Ocidente

IGOR GIELOW
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um grande deslocamento militar russo na fronteira da Ucrânia e na península da Crimeia elevou a tensão no leste do país europeu, levando o Ocidente a prometer apoio a Kiev no caso de agressão de Moscou. Os Estados Unidos cobraram nesta segunda (5) que Moscou "explique as provocações", segundo o Departamento de Estado. Também nesta segunda, enquanto a União Europeia se unia aos EUA para prometer "apoio inabalável" aos ucranianos, um dos líderes separatistas da região do Donbass afirmou que a "guerra é inevitável". Essa foi a ameaça feita em entrevista por Denis Puchilinin, que comanda 1 das 2 autoproclamadas repúblicas populares da região, a de Donetsk —a outra é baseada na cidade de Lugansk. Ambas são de maioria étnica russa e apoiadas por Moscou. Em 2014, depois que o governo apoiado pelo presidente Vladimir Putin em Kiev foi derrubado, a Rússia anexou a Crimeia, de resto uma região historicamente russa. O passo seguinte foi a desestabilização do Donbass numa guerra civil congelada que matou mais de 13 mil pessoas. Desde o começo do ano há sinais de que o conflito poderia voltar a escalar. Com perda de popularidade, o líder da Ucrânia, Volodimir Zelenski, tem sido pressionado a ser mais assertivo na região e aumentou a presença de tropas nos 500 km de fronteira entre seu país e a área ocupada pelos separatistas. Os conflitos também aumentaram, com escaramuças matando 20 soldados ucranianos e um número incerto de rebeldes desde o começo do ano. Houve bombardeio de posições separatistas. No meio da semana passada, redes sociais russas começaram a trazer vídeos de grandes deslocamentos de tanques e blindados por trens na fronteira ucraniana e também para a Crimeia, que já está fortemente militarizada com equipamento de ponta desde que foi anexada. A Frota do Mar Negro da Rússia é baseada em Sebastopol, na península, e tem enfrentado grande atividade por parte da Otan (aliança militar ocidental) naquelas águas, rota de saída da Rússia para o Mediterrâneo, por meio dos estreitos turcos. Na sexta (2), o presidente Joe Biden ligou para Zelenski para dar seu apoio em caso de agressão. O democrata tem assumido uma linha dura com Putin desde que chegou ao poder, em janeiro, determinando sanções e até chamando o líder russo de assassino. O Comando dos EUA na Europa elevou seu alerta militar para o máximo. Na prática, o apoio à Ucrânia é limitado, já que o país não faz parte da Otan nem da União Europeia. Mas analistas russos notaram que aviões de carga americano C-17 começaram a voar da base alemã de Ramstein para Kiev. Teoricamente, estão levando material para um exercício militar com os ucranianos, mas a conjuntura sugere cautela. Tudo é visto como sinalização pelo outro lado. Ainda nesta segunda, Zelenski falou ao telefone com Boris Johnson, o premiê britânico. Na conversa, disse que entrar na Otan seria uma "prioridade máxima" de seu governo, embora saiba que na prática isso será bastante contencioso. A Rússia não disse a que veio ainda, mas sugeriu. Além de não negar a concentração de tropas, segundo a inteligência americana ao menos 4.000 soldados a mais em bases fronteiriças, Moscou enfim falou sobre o assunto nesta segunda. O chanceler adjunto Serguei Riabkov afirmou a agências russas que o país estava "fazendo o necessário" e que não se preocupava com os sinais vindos do Ocidente. Por outro lado, afirmou que a movimentação de tropas não significa prenúncio de uma ação militar e que está em contato direto com os EUA sobre a crise. Como a maior parte dos analistas mais afastados do calor da disputa dizem, não há motivo para achar que qualquer lado queira a guerra. No caso ucraniano, por um motivo existencial. Apesar de ter aumentado suas forças com 33 novas unidades militares nas fronteiras rebeldes, isso não é suficiente para tomar o território —mesmo com equipamento deixado pela Otan em exercícios conjuntos passados, Kiev não tem essa força ainda. "Não se engane: militarmente, Moscou pode tomar facilmente o Donbass se quiser", afirma a analista Ekaterina Zolotova, da consultoria americana Geopolitical Futures. "Mas anexar 50-150 km de território não adiciona profundidade estratégica mais do que já existe com o conflito congelado. Por isso Moscou não tem problemas em reconhecer o Donbass como parte da Ucrânia, desde que sejam autônomos." Aí entra outra frase de Riabkov: a de que ele buscava fazer os EUA entenderem a necessidade de implementação definitiva dos acordos de Minsk. Assinados em 2014 para cessar a guerra, eles fracassaram e ganharam uma nova versão em 2015. O establishment político da Ucrânia não os aceita porque na prática eles mantêm as áreas rebeldes independentes, mesmo sendo sujeitas a Kiev. Para complicar, de lá para cá a Rússia concedeu cidadania a quem quisesse na região, inclusive com direito a voto. Parte central da retórica de Putin é a proteção de russos que ficaram para trás de suas fronteiras após o colapso soviético de 1991, e isso se provou fatal na Crimeia. O líder russo já deixou claro que não permitirá que a Otan e a União Europeia absorvam a Ucrânia ou a Belarus, países que servem como anteparos estratégicos contra invasões, além de funcionarem como rotas de exportação de hidrocarbonetos. Exercícios militares são uma constante tanto na Rússia como na Ucrânia, mas a movimentação agora foi anormal. A União Europeia a viu com "grande preocupação", disse nesta segunda Josep Borrell, seu chefe de relações exteriores. Assim, ao sinalizar que quer a implementação dos textos de Minsk enquanto flexiona seus consideráveis músculos militares na região, a Rússia coloca pressão sobre Biden e a Europa. A última coisa que alguém quer é testar as vias de fato com um país armado com quase metade das bombas nucleares do mundo.