Rússia conclui gasoduto que amplia relação com Europa, atrapalha EUA e afeta Ucrânia

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BAURU, SP (FOLHAPRESS) - Após anos de obras, disputas geopolíticas e obstáculos impostos por sanções americanas, a empresa Gazprom concluiu a construção do gasoduto submarino Nord Stream 2.

Os mais de 1.200 km em tubulações ligam a Rússia à Alemanha sob o mar Báltico e permitirão que o país de Vladimir Putin duplique suas lucrativas exportações de gás para a Europa. Ao mesmo tempo, atingem a rival Ucrânia e atrapalham interesses dos Estados Unidos.

Atualmente, e pelo menos até o final de 2024, a Rússia paga cerca de US$ 1,5 bilhão (R$ 7,8 bi) por ano à Ucrânia pelo trânsito do gás em seu território. Uma extensão no contrato foi condicionada por Putin à demonstração de "boa vontade" de Kiev.

Após o anúncio feito pela Gazprom, no entanto, a Presidência ucraniana divulgou um comunicado em que afirma que o país "lutará contra esse projeto político russo até o fim e, inclusive, depois que começar o fornecimento de gás".

Segundo o site oficial da empresa russa, os primeiros estudos sobre a viabilidade da construção do Nord Stream 2 começaram em 2012. A construção de fato começou em 2018, mas o avanço do projeto avaliado em US$ 11 bilhões (R$ 57,4 bi) foi interrompido em 2019, quando faltavam apenas 150 km para a conclusão do gasoduto.

À época, o então presidente dos EUA, Donald Trump, impôs sanções contra as empresas envolvidas na obra, forçando a interrupção da construção. Os trabalhos foram retomados um ano depois, com a contratação de embarcações próprias da Rússia.

A nova rota do gás russo espelha o primeiro Nord Stream. Juntos, os dois gasodutos pelo mar Báltico têm capacidade de exportar 110 bilhões de metros cúbicos por ano, o que representa quase metade do total das exportações de gás natural da Rússia para países europeus -a Gazprom já responde por mais de um terço do mercado da região.

Para os EUA, no entanto, o projeto gigantesco é também um obstáculo econômico. A oposição de Washington se baseia no fato de que as operações do Nord Stream 2 aumentarão a dependência da Europa em relação a Moscou. Nesse sentido, os americanos têm tentado aumentar suas vendas de gás natural para os europeus -descrevendo seu produto, inclusive, como "moléculas de liberdade".

Quando assumiu a Casa Branca, o presidente Joe Biden desistiu de bloquear o projeto por considerar que era tarde demais para frear a Gazprom. Na visão do governo democrata, seria mais interessante apostar na aliança com a Alemanha, a maior economia da Europa, de quem os EUA esperam obter respaldo em outras frentes.

No mês passado, a primeira-ministra alemã, Angela Merkel, afirmou que seu país fará tudo o que for possível para que o contrato entre Rússia e Ucrânia seja prorrogado e reiterou pedidos para que Moscou não use a questão energética como uma arma geopolítica. Para Berlim, no entanto, as operações do Nord Stream 2 são, sobretudo, um projeto econômico que ajudará o país a cumprir suas metas de transição energética.

Na Ucrânia, o anúncio do fim das obras foi recebido com algum nível de ceticismo. "Construído não significa posto em operação", disse Olha Belkova, gerente da operadora de gasodutos do país, em entrevista à agência de notícias Reuters. Segundo analistas ucranianos ouvidos pela agência, ainda levará tempo até o gás fluir pelos tubos no mar Báltico, e a falta de uma reação mais expressiva do mercado indica que nenhuma operação comercial nesse sentido é esperada no curto prazo.

Nesta quinta-feira (9), a Rússia disse que o abastecimento de gás por meio do novo gasoduto não começará até que receba luz verde dos órgãos reguladores alemães, que afirmaram não ter previsão para a certificação. Segundo o consórcio que administrou o projeto, no entanto, o objetivo é deixar tudo pronto para iniciar as operações do Nord Stream 2 antes do final do ano.

Para Moscou, a conclusão das obras é um trunfo diplomático. O porta-voz do Kremlin disse que a certificação do gasoduto é um desejo de todos e pediu que ele entre em funcionamento "o mais rápido possível".

O projeto terá que lidar ainda com novas regras comerciais impostas pela União Europeia. O bloco exige, por exemplo, que os proprietários de gasodutos sejam diferentes dos fornecedores de gás que neles circulam para garantir uma concorrência justa.

A Gazprom apresentou recursos contra essas exigências e, segundo analistas, tem feito manobras no sentido de não aumentar a oferta de gás na Europa a despeito do aumento na demanda. Seria uma forma de pressionar o bloco e "provar que a Europa enfrentará um mercado de gás menos sem o Nord Stream 2", disse Dmitri Marintchenko, da agência Fitch, em entrevista à AFP.

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