Rússia corta fornecimento de gás para Holanda e notifica Alemanha e Dinamarca

A gigante estatal russa Gazprom disse nesta terça-feira que ampliará os cortes do fornecimento de gás para a Europa, suspendendo o envio para países “hostis”. O anúncio veio após a Dinamarca, a Holanda e a Alemanha rechaçarem os termos impostos por Moscou, que demanda receber o pagamento pelo produto em rublos.

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A Gazprom disse nesta terça ter cortado completamente o fornecimento para a semiestatal holandesa GasTerra. No dia 1º, afirmou também, irá suspender o envio para a dinamarquesa Oersted e para um contrato da Shell Energy na Alemanha após ambas não realizarem o pagamento em rublos dentro do prazo estipulado.

A medida russa é uma retaliação à chuva de sanções ocidentais contra Moscou, impostas em resposta à invasão na Ucrânia. As medidas mais recentes vieram na terça, quando, após semanas de impasse, a União Europeia chegou a um consenso para cortar gradualmente cerca de dois terços das importações de petróleo russo, almejando chegar a 90% até o fim do ano — a resposta mais dura vinda de Bruxelas até o momento.

A unanimidade para que o bloco faça o mesmo com o gás é ainda mais hercúlea, já que a Europa tem grande dependência da Rússia nesta área: mais de 40% de todo o gás importado pela UE vem do país e recorrer a fontes alternativas é difícil. Desde o início da guerra, intensificaram-se os debates continentais sobre a necessidade de maior independência no setor.

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A GasTerra disse que fechou contratos paralelos para suprir os 2 bilhões de metros cúbicos que deveria receber da Gazprom até outubro, afirmando que acatar as regras do Kremlin poder significar descumprir as sanções europeias. A empresa, que compra e comercializa gás em nome da Holanda, é 50% propriedade de entidades do governo holandês. A outra metade é dividida entre a Shell e a Exxon.

— Isso ainda não é visto como uma ameaça para os nossos estoques — disse porta-voz do Ministério de Assuntos Econômicos do país, Pieter ten Bruggencate.

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Os cortes para a Dinamarca e a Alemanha começarão na quarta, informou a Gazprom, após a Orsted e a Shell Energy se recusarem a pagar pelo gás em rublos após o prazo que chegou ao fim nesta terça. A companhia dinamarquesa disse que a suspensão não representa um risco imediato para os estoques dinamarqueses, afirmando que recorrerá ao mercado europeu para compensar.

Em um comunicado, o chefe da Orsted, Mads Nipper, reconheceu a possibilidade da suspensão, mas disse que a companhia já “esperava que isso fosse possível” em resposta à decisão de continuarem a pagar em euros. Representantes da Shell, informou a Gazprom, a comunicaram que também não fariam os pagamentos em rublo.

O contrato alemão, afirmou a estatal russa, prevê o envio de até 1,2 bilhão de metros cúbicos de gás por ano. Trata-se de uma parcela pequena dos 95 bilhões de metros cúbicos que a maior economia da Europa consome anualmente, segundo dados do governo alemão.

Nesta segunda, o fluxo de gás russo enviado para a Alemanha pelo gasoduto Nord Stream registrou uma queda, o que analistas afirmaram ser uma consequência do corte holandês.

Com os cortes, Alemanha, Dinamarca e Holanda se juntam a um grupo que já tem Bulgária, Polônia e Finlândia — outros países que tiveram o abastecimento suspenso após recusarem os termos do Kremlin. A abordagem, contudo, não é unânime, sinal da dificuldade que a UE tem em sua resposta conjunta à crise na Ucrânia.

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As empresas responsáveis pelos maiores contratos da Alemanha e da Itália, os dois países que mais compram gás no continente, contudo, indicaram que não consideram os termos impostos por Vladimir Putin incompatíveis com as sanções europeias e os acordos de longo prazo pré-estabelecidos. Já Bruxelas alerta com veemência para o contrário.

Ainda não está claro como os mercados da Europa, que ocorre para armazenar gás antes do inverno boreal, irá responder aos cortes mais recentes da Gazprom. A GasTerra, em um comunicado, disse ser impossível prever “se o mercado europeu irá absorver a perda sem sérias consequências. Ao Financial Times, o analista Tom Marzec-Manser, da consultoria ICIS, afirmou:

— A fatia de mercado europeia da Gazprom irá sofrer um novo baque com a recusada GasTerra e da Orsted de mudar suas formas de pagamento — ele afirmou. — Por mais que o mercado estivesse esperando que ambas companhias fossem cortadas, este desenvolvimento irá deixar a conta entre oferta e demanda muito mais apertada.

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