Rússia defende China na crise com os EUA sobre Taiwan

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Cumprindo seu papel de principal aliada da China na Guerra Fria 2.0 contra os Estados Unidos, a Rússia fez uma defesa explícita de Pequim na nova crise envolvendo a ilha de Taiwan.

"Nenhum país deveria trazer essa questão", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, acerca da soberania que a ditadura presume sobre a ilha autônoma, lar dos derrotados da revolução que levou os comunistas ao poder em 1949.

Antes, o chanceler russo, Serguei Lavrov, comentou a fala do líder chinês, Xi Jinping, que disse ao americano Joe Biden que os EUA estavam brincando com fogo ao apoiar Taipé. "Nossa posição sobre a existência de uma só China segue inalterada", afirmou.

O motivo do alarido é a viagem presumida da presidente da Câmara dos EUA, a democrata Nancy Pelosi, à ilha. Ela não foi confirmada oficialmente, mas nesta sexta (29) a deputada embarca para um giro asiático entre aliados americanos, como Japão e Coreia do Sul, e a parada em Taiwan é uma possibilidade.

Isso gerou uma grave crise com os chineses, e Xi queixou-se a Biden por telefone na quinta (28). Antes, a chancelaria em Pequim havia dito que a visita, inédita para uma autoridade desse nível desde 1997, equivaleria a uma "violação de soberania".

Desde que reconheceu a ditadura comunista em 1979, os EUA apoiam a política de "uma só China". Ao mesmo tempo, assinaram um ato de cooperação com Taiwan que lhes permitiu armar a ilha até os dentes prometem auxílio em caso de invasão. Os chineses têm intensificado suas ameaças militares a Taiwan, apesar de haver dúvidas sobre sua capacidade de agir, em especial com a proteção americana.

Enquanto a China se abria ao mundo capitalista e criava um laço de interdependência econômica com os EUA, tudo bem. A questão é que Pequim enriqueceu e começou a abrir suas asas políticas e militares, particularmente depois que Xi assumiu, em 2012.

Isso desaguou na Guerra Fria 2.0, disparada por Donald Trump em 2017 como uma disputa comercial, mas que logo abarcou todos os aspectos potencialmente contenciosos da relação entre os países: da gestão da pandemia de Covid-19 à autonomia solapada de Hong Kong.

Faltando 20 dias para a Guerra da Ucrânia, em 4 de fevereiro deste ano, Vladimir Putin fez uma visita histórica a Xi, firmando uma aliança que não é militar, mas de caráter político-econômico contra o que veem como hegemonia dos EUA.

Galvanizou um processo que já vinha em curso há alguns anos de cooperação, com limites devido ao fato óbvio de que Moscou é o parceiro júnior do acordo, mas tem o maior arsenal nuclear do mundo e ambições políticas incisivas. Xi se recusou a condenar Putin e abriu ainda mais seu intercâmbio comercial, ajudando o esforço de guerra.

Ao mesmo tempo, Washington tem dado passos concretos em direção a tentar cercar Pequim. Reforçou patrulhas em águas que os chineses consideram suas no mar do Sul da China e revitalizou a rede de aliados regionais.

Essa ambiguidade se condensa na questão de Taiwan. Embora Biden tenha dito que considerava a viagem de Pelosi um erro, sobre a qual não tem controle, um erro, enviou um porta-aviões para as proximidades.

Isso lembra uma crise de 1995, quando o presidente taiwanês visitou Washington e Pequim disparou mísseis em torno da ilha. A confusão só diminuiu quando um porta-aviões americano foi enviado para a área para lembrar os chineses dos riscos à frente.

Ocorre que naquele momento não havia nada parecido com a animosidade sino-americana. Não que alguém espere um conflito armado acerca de Pelosi, mas o fato de que deve haver uma demonstração militar chinesa faz subir os riscos de algum embate acidental.

Por fim, há o contexto Ucrânia. EUA e aliados já disseram a Xi para ele não se inspirar em Putin e cumprir à força a promessa de reintegrar Taiwan ao continente, embora as realidades sejam muito diferentes. Nesse sentido, a defesa russa da soberania de Pequim sobre a ilha completa o círculo, acentuando a noção de um mundo com blocos antagônicos.

Para Xi, é bom negócio, desde que não vire uma guerra real. Ele enfrenta problemas econômicos e sociais graves e precisa estar em posição de força em novembro, quando deve ser reconduzido para um terceiro mandato inaudito. Para Biden, que enfrenta eleições congressuais e baixa popularidade, o raciocínio se aplica também, salvo em casos de curtos-circuitos.

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