Rússia destrói última ponte que liga Severodonetsk a território sob controle da Ucrânia

As tropas da Rússia destruíram a terceira e última ponte que liga o território controlado por Kiev a Severodonetsk, há semanas o epicentro do conflito entre russos e ucranianos. Epicentro do conflito há semanas, a cidade é chave para a definição do destino do Donbass, que compreende as regiões de Donetsk e Luhansk, no Leste do país comandado por Volodymyr Zelensky.

Atual foco da guerra: Russos expulsam soldados ucranianos do centro de Severodonetsk

Autor de livro sobre Putin: 'Kremlin tenta definir invasão na Ucrânia como sucesso'

'Nosso campo de concentração': Forças russas prenderam mais de 300 ucranianos em porão por um mês

Os ucranianos, que na segunda-feira foram expulsos do centro da cidade, negam que Severodonetsk esteja isolada. Segundo o prefeito Oleksandre Striuk as forças de Kiev não estão cercadas na região, há “combates de rua” incessantes e a situação muda a cada hora:

— Bombardeios em larga escala destruíram uma terceira ponte, mas a cidade não está isolada. Há canais de comunicação, mas são complicados — disse ele a um canal local. — As tropas russas não abandonam a tentativa de controlar a cidade, mas os militares resistem.

Mesmo que os ucranianos afirmem ainda ter contato com a cidade, a destruição da ponte, que até o momento permitia apenas tráfego parcial, é um baque para Kiev, dificultando ainda mais a resistência de seus soldados. Na prática, era o último ponto de contato entre Severodonetsk e a vizinha Lysychansk, ainda sob controle do governo de Zelensky, do outro lado do rio Donetsk.

Também pode, no entanto, complicar um avanço russo, que agora precisará cruzar o rio por outros meios, expondo suas tropas. Pontes menores foram atacadas tanto pelos russos, para isolar os adversários, quanto pelos ucranianos, para impedir o avanço de Moscou. Esta, contudo, parece ter sido destruída por Moscou mirando seu avanço:

— Os russos tentam cercar os ucranianos em Severodonetsk, Lysychansk e em algumas localidades próximas, como Pryvillia e Borivske — disse Serhiy Gaidai, governador pró-Kiev de Luhansk, afirmando que as forças de Moscou receberam reforços de “dois grupos de batalhões táticos. — A situação é muito grave.

Severodonetsk, uma cidade industrial, foi praticamente destruída pela guerra, que começou em 24 de fevereiro. Ela não tem grande importância estratégica, mas sua tomada pelos russos, além de Lysychansk, marcaria a conquista da região de Luhansk pelo Kremlin, uma de suas maiores vitórias no front.

Uma vitória de Moscou na área também abriria caminho para assumir o controle de Kramatorsk, outra grande cidade do Donbass. Seria uma etapa importante para tomar toda a região fronteiriça com a Rússia, que já está parcialmente nas mãos de separatistas pró-Kremlin desde 2014, quando o presidente Vladimir Putin anexou a Crimeia.

Ataques na usina

O prefeito Striuk também informou que entre “540 e 560 pessoas” estão abrigadas nos túneis subterrâneos da usina química Azot, em Severodonetsk, que foi bombardeada. Segundo ele, afirmando que “o inimigo está destruíndo a nossa maior empresa”, a entega de suprimentos é “difícil”, mas há “algumas reservas” no local.

O local é alvo constante de ataques russos, que causaram um incêndio no sábado e, segundo Gaidai disse na segunda, é possível retirar apenas um pequeno número de pessoas por dia. O governador nega, contudo, que as acusações de separatistas russos de que a região esteja cercada e que seus soldados tenham tentado negociar uma fuga.

Em Lysychansk, segundo a AFP, bombardeios russos deixaram a população sem acesso à água potável, nem à energia elétrica ou rede telefônicas. A cidade, que tinha quase 100 mil habitantes antes do conflito, hoje está praticamente deserta e, para alguns dos que continuam lá, isolados do mundo, é Kiev quem bombardeia a cidade:

— Não podemos chegar a um acordo? Precisamos de um esforço para conseguir — disse Galina, que se recusou a dizer seu sobrenome. — Não nos consideram seres humanos. Eles nos tratam como separatistas pró-Rússia.

Papa critica 'brutalidade'

O Papa Francisco, por sua vez, criticou a "brutalidade" das tropas russas contra o “corajoso” povo ucraniano, mas disse que a guerra "poderia ter sido provocada". Em entrevista concedida a revistas jesuítas europeias no mês passado e publicada nesta terça pela revista italiana La Civilta Cattolica, o pontífice se recusou a "reduzir" o conflito atual a "uma distinção entre bons e maus".

— O que vemos é a brutalidade e a ferocidade com que esta guerra está sendo travada pelas tropas, geralmente mercenárias, utilizadas pelos russos. Os russos preferem enviar chechenos, sírios, mercenários — disse o argentino. — Mas o perigo é que só vemos isso, que é monstruoso, sem ver todo o drama que está acontecendo por trás desta guerra, que pode ter sido, de alguma maneira, provocada ou não impedida.

Antecipando que alguns poderiam lhe chamar de “Pró-Putin”, o Pontífice negou que este seja o caso, afirmando que essa é uma abordagem “muito simplista” e que é necessário "raciocinar sobre as raízes e interesses" deste conflito, "que são muito complexos":

— Também é verdade que os russos pensaram que tudo acabaria em uma semana. Mas eles cometeram um erro de cálculo. Encontraram um povo corajoso, um povo que luta para sobreviver e que tem um histórico de luta.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos