Rússia diz estar pronta para suportar guerra do petróleo com os sauditas por até uma década

MOSCOU — A guerra aberta entre Moscou e Riad pelo preço do petróleo levanta uma pergunta: até quando conseguirão manter a disputa que derrubou o valor da commodity em mais de 30% neste início de semana. Nesta segunda-feira, a Rússia apresentou suas cartas, dizendo ser capaz de suportar os preços baixos por até uma década, preparando o terreno para uma batalha prolongada com os árabes.

Segundo o Ministério das Finanças russo, o governo vai usar seu fundo soberano de US$ 150 bilhões para alimentar os gastos orçamentários, enquanto os preços do petróleo se mantiverem entre US$ 25 e US$ 20 o barril. Dessa forma, será possível cobrir as receitas perdidas pelos próximos 6 a 10 anos.

No domingo, os preços do petróleo desabaram após a Arábia Saudita anunciar um aumento da produção como retaliação à posição russa de não cooperar com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opec), que pretendia cortar a produção para responder à queda da demanda global por óleo por causa da crise do novo coronavírus. Foi a maior queda em um único dia desde a Guerra do Golfo, em 1991.

Nesta segunda-feira, o rublo caiu à sua pior cotação frente ao dólar desde janeiro de 2016, mas Moscou acredita que está mais bem posicionado que os árabes para suportar o impacto da queda nos preços do petróleo.

— Agora, eles estão contando que isso seja um cenário temporário — avaliou Sofya Donets, da consultoria Renaissance Capital, ao Financial Times. — Mas ao dizer isso eles mostam que estão prontos para qualquer coisa.

Com o discurso alinhado, o ministro da Energia russo, Alexander Novak, tentou tranquilizar autoridades econômicas, em encontro emergencial, dizendo que o setor petrolífero do país tem recursos e reservas financeiras “para se manter competitivo em qualquer nível de preço e segurar sua participação no mercado”. Novak acrescentou que Moscou “presta atenção especial ao mercado interno, com o suprimento estável de derivados do petróleo e a proteção do potencial de investimento”.

Na versão do ministro russo, a Rússia propôs estender o acordo com a Opec por “ao menos” mais um trimestre, mas os membros da organização “decidiram aumentar a produção e lutar por participação no mercado”.

As ações da estatal petrolífera Rosneft caíram 22% nesta segunda-feira, na Bolsa de Londres, enquanto a Gazprom perdeu 18%. Para Dmitry Marinchenko, analista da Fitch Ratings, as empresas russos podem compensar a queda nos preços com aumento de produção, mas a capacidade é limitada.

— A decisão de pôr fim à Opec+ nessas circunstâncias foi arriscada e a lógica não é absolutamente clara — afirmou Marinchenko. — A Rússia pode conseguir aumentar a produção em 250 mil a 300 mil barris nos próximos meses, cerca de 3%, mas isso parece irrelevante em comparação com as perdas causas pelos preços mais baixos.