Governo centro-africano diz receber reforços russos e ruandeses; Moscou desmente

Camille LAFFONT
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O presidente da República Centro-Africana, Faustin Archange Touadera (C), acena para simpatizantes durante evento eleitoral, protegido por seguranças, que incluem mercenários russos, em 19 de dezembro de 2020 em Bangui

O governo da República Centro-Africana afirmou nesta segunda-feira (21) que recebeu esforços ruandeses e russos após uma ofensiva de grupos armados, acusados de "tentativa de golpe de Estado" antes das eleições presidenciais e legislativas do próximo domingo, mas a Rússia desmentiu o envio de tropas.

Um alto diplomata russo afirmou hoje que Moscou não manda tropas para a República Centro-Africana.

"Não enviamos tropas, respeitamos todas as exigências das resoluções da ONU", afirmou Mikhail Bogdanov, vice-ministro das Relações Exteriores russo, citado pela agência de imprensa Interfax.

No país, muito instável e marcado por uma violenta guerra civil, mais de dois terços do território estão ocupados por grupos armados.

Três grupos que estão entre os mais fortes do país atacaram na sexta-feira as principais estradas que servem para o abastecimento da capital, Bangui, depois que anunciaram uma aliança.

A manobra levou o governo centro-africano a acusar o ex-presidente François Bozizé de "tentativa de golpe de Estado" com uma "intenção manifesta de marchar com seus homens sobre Bangui durante as eleições presidenciais e legislativas de domingo", nas quais o atual presidente, Faustin Archange Touadera, é apontado como favorito.

Para apoiar o Executivo centro-africano, a "Rússia enviou centenas de soldados, como parte de um acordo bilateral de cooperação", declarou à AFP Ange Maxime Kazagui, porta-voz do governo de Bangui, sem revelar o número de militares nem a data de chegada.

"Não enviamos tropas, respeitamos todas as exigências de resoluções da ONU", afirmou, em resposta, Mikhail Bogdanov, vice-ministro das Relações Exteriores russo.

"Claro que temos pessoal aqui, em virtude dos nossos acordos com o governo centro-africano, dos nossos acordos de formação de dirigentes e do trabalho dos nossos instrutores", acrescentou.

Neste país de 4,9 milhões de habitantes, um dos mais pobres do mundo, porém rico em diamantes, os guarda-costas do presidente centro-africano são funcionários de empresas de segurança russas, que também são responsáveis pelo treinamento das Forças Armadas do país.

Os ruandeses também enviaram centenas de homens, que já estão no terreno e começaram a combater", acrescentou Kazagui, confirmando uma informação das autoridades de Kigali.

"O envio responde aos ataques sofridos pelo contingente das Forças de Defesa do Ruanda (RDF), sob mandato da força de paz da ONU, por parte de rebeldes apoiados por François Bozizé", afirmou o ministério da Defesa de Ruanda em um comunicado.

O partido de Bozizé, no entanto, negou qualquer tentativa de golpe, enquanto o porta-voz da Missão das Nações Unidas na República Centro-Africana (Minusca), Vladimir Monteiro, afirmou que os rebeldes foram bloqueados ou expulsos em várias localidades.

A França considerou nesta segunda-feira que era necessário manter as eleições no domingo para evitar um "período de incerteza que pode reativar as agendas de uns e outros para tomar o poder pela força", segundo uma fonte do Eliseu.

- "Vamos às eleições" -

União Europeia, Estados Unidos, Rússia, França e Banco Mundial pediram no domingo a Bozizé e aos grupos insurgentes que entreguem as armas.

Em Bangui, a vida prosseguia em ritmo normal, mas os moradores recordam dos horrores de 2013, quando uma coalizão de grupos armados, a Seleka, derrubou o presidente François Bozizé e matou centenas de pessoas em Bangui e em várias províncias.

A coalizão da oposição centro-africana (que François Bozizé liderou até recentemente) pediu no domingo o adiamento das eleições, mas o governo rejeita a possibilidade.

François Bozizé, que conta com um grande eleitorado a favor de sua causa, reafirmou seu compromisso com o processo ao declarar na semana passada seu apoio à candidatura do ex-primeiro-ministro, Anicet Georges Dologuele, que agora é o principal rival do chefe de Estado.

"Hoje, mil homens armados seguem para a capital, o governo optou por enviar forças estrangeiras para contê-los, o presidente Touadera segue a lógica da guerra", lamentou Deloguele nesta segunda-feira.

Ele pediu "diálogo" e pediu ao presidente "uma trégua para evitar o pior".

Mas para este último, uma possível negociação com os rebeldes parece fora de questão.

"Negociar como, de que forma? Como podem ver, há ataques, não temos tempo para negociar, não sabemos com quem negociar", ressaltou Touadera nesta segunda-feira em Bangui.

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