Rússia e Turquia costuram cessar-fogo na Líbia sem o Ocidente

IGOR GIELOW

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sem a presença de potências ocidentais, Rússia e Turquia costuraram uma trégua para a guerra civil na Líbia, um dos maiores fornecedores de petróleo da Europa e que sempre esteve na esfera de influência econômica do continente.

O acordo, que ainda precisa ser ratificado pelo líder rebelde Khalifa Haftar e nem de longe garante o fim das hostilidades, é uma grande vitória diplomática do presidente Vladimir Putin -e também, em menor grau, de seu colega turco, Recep Tayyip Erdogan.

Além da Europa, os Estados Unidos estão fora das conversas no momento em que a política de retirada da região, iniciada por Barack Obama e acentuada por Donald Trump, foi travada pela grave crise com o Irã.

O rascunho acertado pelas delegações rivais em Moscou nesta segunda (13) prevê a confirmação do cessar-fogo iniciado no domingo, negociações de paz, o congelamento de envio de tropas turcas ao país e o papel de inspeção do processo para Moscou e organismos internacionais.

A turbulência na Líbia começou com a derrubada, após uma campanha aérea ocidental em apoio a rebeldes, do regime do ditador Muammar Gaddafi, executado em 2011.

O marechal Haftar, que fora aliado de Gaddafi quando o ditador tomou o poder em 1969, voltou à Líbia após 21 anos morando como refugiado nos EUA -de onde tentou derrubar o antigo chefe algumas vezes.

Conhecido como eficaz e cruel, ele acabou não tomando parte da tentativa inicial de reformar o governo líbio, que desandou numa renovada guerra civil em 2014.

Em 2015, ele foi nomeado chefe do Exército, mas logo depois as Forças Armadas se cindiram entre as tropas leais a ele, o Exército Nacional Líbio, e ao contingente ligado ao governo de Trípoli -que é reconhecido pelas Nações Unidas e hoje liderado por Fayez al-Sarraj.

Haftar ganhou apoios importantes, do vizinho Egito, da França e da Rússia. Aos poucos, seu governo baseado na cidade de Tobruk (leste líbio) dominou talvez 70% do território do país, controlando inclusive partes de sua produção petrolífera.

Há outros grupos ativos no país, inclusive o Estado Islâmico, mas as forças prevalentes são as do governo e as de Haftar -que, aliás, se aliam pontualmente com outras facções.

Embora sem o destaque dado à carnificina síria, exceto quando foi morto o embaixador americano no local em 2012, o conflito matou 9.000 pessoas de 2014 para cá, segundo estimativas de entidades de direitos humanos, ou 1,8% da população do país.

Na Síria, foram talvez 585 mil mortos, cerca de 2,8% dos habitantes, desde 2011.

Nos últimos nove meses, a guerra recrudesceu e Haftar começou a cercar Trípoli e as forças de Al-Sarraj.

Putin não interveio como fez na Síria do aliado Bashar al-Assad em 2015, entre outros motivos, porque Haftar não lidera um governo constitucional -tal verniz tem sido usado pelo russo para diferenciar-se das ações americanas, usualmente à revelia de fóruns internacionais.

Naturalmente é só verniz: cerca de 500 mercenários russos do famoso Grupo Wagner fazem operações especiais em nome de Haftar, ainda que Putin diga que eles estão lá por conta própria.

A situação mudou de figura, contudo, após Putin e Erdogan se acertarem acerca do status do norte da Síria após a retirada das forças americanas do país árabe. Rivais na guerra civil, acertaram uma aliança de conveniência.

Reforçada politicamente, Ancara resolveu expandir seu escopo, anunciando no começo do ano que enviaria tropas para auxiliar a manter a segurança do governo de Al-Sarraj. Desafiou com isso Putin, que angariava apoio discreto aos rebeldes.

O que Erdogan quer é manter uma posição no Mediterrâneo, já que suas saídas de águas territoriais vêm sendo questionadas devido ao fato de que turcos controlam metade da ilha de Chipre -a porção sul é pró-Grécia, adversária histórica da Turquia.

Além disso, Gaddafi tinha muitos negócios com os turcos. Estima-se que cerca de US$ 20 bilhões em projetos energéticos e de infraestrutura foram largados sem pagamento após o caos da queda do ditador, o que motiva também o presidente turco.

O movimento fez Putin se mexer. Na sexta (10), recebeu a chanceler alemã, Angela Merkel. Entre outros assuntos, combinou que uma cúpula de paz será realizada em Berlim no próximo domingo (19) sobre a Líbia, com a presença dele, de Erdogan, dos líderes líbios e do premiê italiano, Giuseppe Conte.

Com o gesto, Putin visa atrair a Alemanha da mesma forma que já havia feito com a França de Emmanuel Macron. O Kremlin quer os europeus, em especial os alemães quase em recessão, investindo mais no seu país -e, no processo, forçando pelo fim das sanções ocidentais devido à anexação da Crimeia em 2014.

Foi um prêmio de consolação para os europeus, largamente ignorados ao longo da crise líbia. Putin então chamou os líbios e os turcos para amarrar o acordo em Moscou, para tentar entregar um prato feito na Alemanha.

Diferentemente da Síria, uma tragédia humana sem repercussão significativa no mercado energético, a guerra civil na Líbia afetou diretamente a Europa.

Segundo o Eurostats, escritório estatístico da União Europeia, em 2010 o país árabe era o terceiro maior fornecedor de petróleo cru para os países do continente, com 9,5% do volume importado.

No primeiro semestre de 2019, último dado disponível, caiu para o oitavo lugar -ainda respeitáveis 5,8% do mercado, mas bem menos do que antes. No caso italiano, país que historicamente era a potência estrangeira dominante na Líbia, antes da guerra 28% do petróleo vinha de lá.

Há um detalhe: a Líbia tem a maior reserva de petróleo da África e a décima do mundo, e está às portas da Europa -saem de lá muitos dos imigrantes africanos que entram pelo sul do continente.

Um acordo de paz que viabilize a reestruturação de sua indústria e a normalização da produção trará oportunidades grandes de negócios.

A Rússia já é a maior fornecedora de petróleo e gás para os europeus. Executivos da estatal Rosneft sonham com a Líbia emulando a Venezuela, onde a empresa já tem forte presença. É bom negócio e politicamente estabelece uma cabeça de ponte sobre interesses do Ocidente.

Outros países árabes presentes, como o Egito e os Emirados Árabes Unidos, não têm a projeção militar que russos e turcos possuem, e no caso do Cairo os acertos com Moscou já correm há alguns anos.

Restará, contudo, combinar com o pessoal em campo. Haftar é um comandante duro, acusado de crimes de guerra pelos adversários, e Al-Sarraj recusou-se a encontrar com ele em Moscou.