Rússia eleva tom contra Turquia antes de cúpula Putin-Erdogan sobre Síria

IGOR GIELOW
***FOTO DE ARQUIVO*** BRASILIA, DF, BRASIL, 14-07-2014 - Presidente Dilma Rousseff e o presidente da Rússia Vladimir Putin durante cerimônia de assinatura de atos e declaração à imprensa durante visita oficial, no Palácio do Planalto. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um dia antes de os presidentes Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdogan se reunirem em Moscou para tentar solucionar a crise entre seus países na guerra civil da Síria, a Rússia elevou o tom de acusações contra o comportamento da Turquia.

Segundo divulgou o Ministério da Defesa russo, os turcos unificaram seus 12 postos de observação na província de Idlib, parte de um acordo de 2018 com o Kremlin, com forças rebeldes que combatem a ditadura de Bashar al-Assad, apoiada por Moscou.

Além disso, o órgão afirmou que a nova operação militar turca em Idlib, iniciada na semana passada após um bombardeio matar 34 de seus soldados de uma só vez, estimula ataques diários contra a base aérea russa em Hmeimim.

Para adicionar tensão ao encontro entre os líderes, dois soldados turcos foram mortos por forças sírias nesta quarta (4). A Turquia, por sua vez, derrubou o terceiro avião de combate sírio desde a ofensiva retaliatória, que tem usado intensivamente novos drones de combate.

Ambos os presidentes se disseram otimistas com o encontro desta quinta. Para o turco, que falou à imprensa de seu país, a expectativa é de pelo menos um cessar-fogo em Idlib.

Já o porta-voz do Kremlin foi mais contido, dizendo que o russo gostaria de ver as medidas do acordo de 2018 implementadas, tornando Idlib uma área de distensão militar.

O nó é grande em torno do último bolsão de resistência à ditadura de Assad após nove anos da pior guerra civil do século até aqui, que já deixou entre 380 mil e 560 mil mortos, além de mais de 15 milhões de refugiados e deslocados internos.

Quase 1 milhão dos últimos saíram de casa em Idlib, região com 3 milhões de moradores e objeto da disputa. Em outubro passado, com a retirada americana do apoio aos curdos do norte da Síria, a Turquia invadiu o país e estabeleceu uma zona separando o grupo do Curdistão turco, fortemente separatista.

O movimento foi acertado com Moscou, mas Erdogan foi em frente e aumentou sua presença militar em Idlib, onde mantém postos desde 2018.

Em dezembro, Assad fez um grande avanço ao norte com apoio da Força Aérea russa, cuja presença em seu país o salvou da derrota a partir de 2015. Conquistou duas rodovias vitais do norte e noroeste sírios, a M4 e a M5, e cercou o bastião de Idlib.

Desde a virada do ano, a Turquia elevou sua presença na província, apoiando ações de rebeldes. O combate colocou o país, que é membro da Otan (aliança militar do Ocidente), em rota de colisão com a Rússia, que apoia Damasco.

Na semana passada, a crise escalou quando houve o ataque que matou o maior número de soldados turcos na campanha até agora -no total, já foram 59 os mortos, ante talvez 2.000 do Exército sírio.

A natureza daquele bombardeio sugeriu um ataque aéreo russo, mas Moscou e Ancara preferiram jogar a culpa em Damasco, evitando assim a desagradável conclusão de que um país da Otan teve baixas causadas por seu principal adversário.

Ainda assim, para o Kremlin a fusão de tropas rebeldes com as turcas torna impossível prever a proteção das forças de Erdogan na região.

A reunião desta quinta pode ser decisiva para esfriar as hostilidades e o risco de um embate direto entre turcos e russos --que enviou na terça (3) um navio de guerra para apoiar suas forças na Síria, o terceiro desde a eclosão do conflito na semana passada.

Mas o problema central deverá continuar o mesmo. Erdogan quer Assad fora do poder e pelo menos a região de Idlib livre para receber refugiados de seu país, que somam 3,6 milhões e são o maior contingente egresso do conflito.

Já Putin sustenta o aliado, ou ao menos o regime dele, já que são fortes as especulações de que o russo aceitaria rifar nominalmente o ditador em troca de um nome mais palatável para todos. Maior ator regional hoje, ele já disse que não quer conflito com a Turquia, com quem havia promovido uma aproximação e estabelecido laços comerciais importantes, que deverão pesar na conversa da quinta.

Enquanto isso, a crise humanitária associada à situação em Idlib só piora. Para pressionar a Europa a intervir, os turcos abandonaram o acordo de 2016 segundo o qual não deixavam refugiados sírios atravessar suas fronteiras com a União Europeia. Desde então, se multiplicam cenas de conflito -a polícia grega usou gás lacrimogêneo nesta quarta.

Na segunda (2), Erdogan havia dito que a Grécia havia matado dois refugiados, o que o governo do vizinho negou. Com isso, são agitados sentimentos nacionalistas em ambos os lados, dado que turcos e gregos têm uma rivalidade que remonta ao Império Otomano -até hoje Chipre está dividida de forma hostil entre os dois países.

A União Europeia, por sua vez, fez um gesto de apoio a Atenas, liberando EUR 700 milhões (R$ 3,5 bilhões) para lidar com a crise. O governo croata chamou o país de "escudo europeu" contra a imigração em massa.