Rússia envia ao Atlântico primeiro navio com mísseis hipersônicos

***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O presidente russo, Vladimir Putin. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 14.11.2019 - O presidente russo, Vladimir Putin. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A Rússia colocou em operação pela primeira vez uma fragata armada com mísseis hipersônicas, e a despachou para patrulha nos oceano Atlântico e Índico, elevando ainda mais a tensão militar com o Ocidente em meio à Guerra da Ucrânia.

A Almirante Gorchkov, uma das duas novas fragatas dessa classe já comissionada na Marinha Russa, deixou seu porto em Severomorsk (Ártico), a base da Frota do Norte, segundo informou o presidente Vladimir Putin.

"Desta vez o navio está equipado com o mais recente sistema de míssil hipersônico, o Tsirkon, que não tem análogos" afirmou Putin em uma videoconferência com o capitão da embarcação, Igor Krokhmal, e o ministro Serguei Choigu (Defesa). "Quero desejar à tripulação sucesso no serviço pelo bem da pátria mãe."

O míssil 3M22 Tsirkon (zircão, em russo) é uma das "armas invencíveis", como Putin as chamou ao revelá-las ao mundo em 2018. Propaganda à parte, é um sistema que causa preocupação no Ocidente, e seu desenvolvimento foi acelerado pela Rússia já em meio aos preparativos para a invasão do vizinho.

Foi concebido como um míssil antinavio, mas pode atingir alvos em terra também. Atingiu em testes nove vezes a velocidade do som (11 mil km/h), mas acredita-se que opere regularmente a menos que isso, podendo atingir alvos entre 1.000 km e 1.500 km de distância.

Não se sabe se Putin armou esses Tsirkon com ogivas nucleares, o que aumentaria ainda mais o grau de ameaça da fragata, que entrou em operação em 2018. Ele também pode ser operado de submarinos.

O míssil pode levar, segundo especialistas militares russos a partir de dados não confirmados, ou 300 kg de explosivos ou uma bomba atômica de 200 kt (pouco mais de dez vezes mais potente que a de Hiroshima).

Mais importante, o Tsirkon pode manobrar no ar, escapando de defesas antiaéreas já bastante atordoadas por um projetil nessa velocidade. Naturalmente, ninguém sabe exatamente sua funcionalidade real no Ocidente, dado que os testes foram secretos, mas seu potencial não é descartado.

Não foi divulgado quantos navios de apoio irão na missão. Em sua viagem de estreia em 2018, a primeira circunavegação global russa desde o século 19, a Almirante Gorchkov foi acompanhada por duas embarcações.

Ao indicar a rota da Almirante Gorchkov, Putin dá também um sinal de capacidade militar de longo alcance enquanto sofre críticas pelo desempenho de suas forças na Ucrânia. Resta saber quais portos a aceitarão no contexto da Rússia em conflito para reabastecimento: ela tem autonomia para cerca de 7.500 km em velocidade total e 30 dias de mar.

Na Ucrânia, o Kremlin já disse ter utilizado um míssil hipersônico em combate, o Kinjal (punhal), que é lançado por caças MiG-31K ou bombardeiros Tu-22M3. O modelo, outra "arma invencível" que pode levar uma ogiva nuclear, difere do Tsirkon por ter uma carga um pouco maior e um sistema de propulsão mais simples, de combustível sólido.

O Tsirkon, por sua vez, usa o chamado scramjet. Ele é levado inicialmente por um propulsor sólido de primeiro estágio, acionando um motor especial que promove a combustão de combustível líquido numa câmara com ar comprimido em velocidades supersônicas, chegando então ao nível hipersônico (cinco vezes acima do som).

Outro tipo na categoria é o chamado planador hipersônico, que é levado à velocidade final por um foguete potente e depois, como o nome diz, plana em altíssima velocidade de forma manobrável, atingindo seu alvo com uma ogiva nuclear, convencional ou só usando sua energia cinética.

A Rússia opera ao menos um regimento desse modelo, o Avangard (vanguarda), que a China também possui. Pequim também diz operar modelos antinavio semelhantes ao Tsirkon.

Os EUA estão correndo atrás do prejuízo, depois de inicialmente considerarem superestimado o valor dos hipersônicos. Neste ano, a Força Aérea conseguiu pela primeira vez testar com sucesso todas as etapas de seu planador hipersônico. Outros países dizem ter capacidades no meio, como Irã e Coreia do Norte, mas pouco se sabe sobre a realidade dos programas.