Rússia e Irã retomam seu protagonismo no Oriente Médio

Por Sammy KETZ
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(Arquivo) O presidente russo Vladimir Putin (E) e seu homólogo iraniano Hassan Rouhani se cumprimentam durante uma coletiva de imprensa em Teerã no dia 23 de novembro de 2015

Rússia e Irã voltam com toda força em 2015 ao Oriente Médio para tentar, respectivamente, recuperar o lugar da ex-URSS antes de sua queda e ampliar sua influência freada por anos de sanções internacionais.

Embora esse regresso altere as demarcações após duas décadas de onipresença americana, ainda é incerto se em 2016 os dois países conseguirão se impor mantendo no poder seu aliado Bashar Al-Assad na Síria ou se, ao contrário, terão seus pés presos na lama desta complexa região, como muitos fizeram antes deles.

"O regresso com força do Irã e Rússia é visível. Buscam ocupar um lugar desocupado desde a retirada americana", explica Karim Bitar, diretor de pesquisa do Instituto Francês de Relações Internacionais.

O intervencionismo de ambos os países é centrado na Síria, onde a Rússia, em nome da luta contra o grupo Estado Islâmico (EI), realiza bombardeios aéreos desde o dia 30 de setembro contra um mosaico de grupos hostis ao regime de Assad, de moderados a islamitas, passando por jihadistas da Frente al-Nusra.

Simultaneamente, o Irã intervém de forma ativa no terreno. Segundo testemunhas, unidades de elite dos Guarda Revolucionária iraniana, junto ao Hezbollah libanês, lideram os combates e conseguiram expulsar os rebeldes em vários lugares.

Com o fim da URSS em 1991, Moscou perdeu sua influência em uma região onde havia investido pesado. A recém-nascida Rússia assistiu impotente, em 1994, ao fim da República Democrática do Iêmen (Iêmen do sul, socialista) pelas mãos do norte, apoiado pela Arábia Saudita.

A Rússia também não conseguiu se impor à invasão americana no Iraque, à queda de seu aliado Saddan Husseim em 2003 nem à morte, em outubro, do chefe do estado líbio Muamar Khadafi durante uma intervenção ocidental e árabe, após a aprovação de uma resolução das Nações Unidas. Moscou se absteve na ocasião.

"Os ocidentais nos enganaram e nunca os perdoaremos pelo uso unilateral da resolução da ONU para se apoderarem da Líbia. Nunca permitiremos que o façam com a Síria", havia afirmado à AFP um diplomata russo em Damasco.

No centro do tabuleiro

A Síria, devastada por quase cinco anos de uma guerra que matou 250 mil pessoas, é o último bastião da Rússia na região e sua perda reduziria consideravelmente sua influência.

"A posição inflexível russa na Síria se explica por vários fatores: a proteção de um de seus últimos Estados satélites no Oriente Médio, a opressão ligada à política ocidental na Líbia, a vontade de proteger cristãos no Oriente, o temor de ver o islamismo se estender até o Cáucaso e o espírito de vingança após as humilhações por que passa desde 1989", enumera Karim Bitar.

A Rússia de Vladimir Putin conseguiu, com sua intervenção na Síria, voltar ao centro do tabuleiro e estabelecer vínculos com o Egito, estabelecer um diálogo com a Jordânia e os países do Golfo e jogar no mesmo nível dos Estados Unidos em uma eventual resolução de conflito.

"O interesse nacional impulsiona a Rússia a atuar no Próximo Oriente para não se ver obrigada a lutar contra esta ameaça (islamita) perto de nossas fronteiras", explica Ajdar Kurtov, redator-chefe da revista russa Problemas de Estratégia Nacional, próxima ao Kremlin.

Além disso, os "dirigentes russos desejam devolver a Rússia ao seu lugar na política mundial, uma posição similar a que ocupava a URSS".

Influência iraniana contra Riad

Para o Irã xiita, trata-se de preservar sua influência e, se for possível, estendê-la de modo a afirmar seu papel como potência regional frente a seu rival sunita, a Arábia Saudita.

A invasão americana pôs o Iraque na bandeja e seu objetivo é manter sua posição na Síria e Líbia graças ao movimento xiita Hezbollah, assim como no Iêmen, na medida do possível, apoiando os rebeldes huties contra os sauditas.

"Rússia e Irã intervêm para impedir a ruína da região. Veremos, nas próximas semanas, outros países se aproximarem das posições russo-iranianas devido ao papel desempenhado pelo extremismo", assegura Mohammad Marandi, da Universidade de Teerã.

No entanto, os dois países estão longe de saírem vitoriosos nesta partida já que, segundo Karim Bitar, "nenhum intervencionismo no mundo árabe termina sem consequências inesperadas e muitas vezes dolorosas para aqueles que estão submersos neste lamaçal".