Rússia não reserva espaço extra em gasodutos ucranianos, aumentando incertezas energéticas na Europa

A Rússia se recusou mais uma vez a reservar espaço extra nos gasodutos que passam pela Ucrânia, aumentando a incerteza sobre o fornecimento de gás natural para a Europa. À beira de uma crise energética, o continente olha para lugares como a Argélia e o Azerbaijão em busca de alternativas para driblar a dependência do combustível russo.

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Tal qual em junho, Moscou se recusou a reservar espaço adicional nos gasodutos ucranianos no leilão mensal que ocorreu nesta segunda-feira. A isso somam-se as preocupações com o Nord Stream 1, gasoduto que cruza o Mar Báltico da Rússia até a Alemanha e, até a guerra eclodir, era responsável por transportar mais de 55 bilhões de metros cúbicos de gás.

No mês passado, os russos já haviam reduzido o fluxo no Nord Stream 1 em mais de 50%, alegando atrasos na manutenção de uma turbina que ficou presa em Montréal devido às sanções impostas pelo Canadá. O Ocidente rejeitou as justificativas, afirmando que o corte é uma resposta do presidente Vladimir Putin às sanções ocidentais para isolar o Kremlin e minar suas capacidades de financiar a guerra.

O governo canadense, contudo, permitiu na semana passada a viagem do equipamento: foi para a Alemanha no domingo e deve chegar a solo russo em cerca de uma semana, segundo o jornal Kommersant. Teme-se, contudo, que o gasoduto — fechado para manutenção pré-agendada na semana passada — não retorne ao seu fluxo regular após o fim dos dez dias de reparos, em 21 de julho. Outro medo é que Moscou corte por completo o fornecimento.

O governo de Vladimir Putin já suspendeu o envio de gás para países como Bulgária, Polônia, Finlândia, Holanda e Dinamarca, que se recusaram a acatar os termos de Putin para a venda do produto. Outras nações, como França, Itália e Alemanha, lidavam com cortes desde antes dos problemas com o Nord Stream 1. Os russos demandam que o pagamento seja feito em rublos, algo que possivelmente violaria as sanções impostas por Bruxelas.

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A Ucrânia, por sua vez, insiste que a estatal russa Gazprom pode aumentar o fluxo de envio pelo ponto de trânsito alternativo de Sudzha, na fronteira russo-ucraniana. Os russos podem enviar diariamente 77,2 milhões de metros cúbicos de gás por Sudzha, mas há semanas mantém o fluxo em 42 milhões.

Se o fornecimento ocorresse na capacidade máxima do contrato e se Moscou tivesse comprado espaço extra no leilão desta segunda, o volume total corresponderia a cerca de 30% da capacidade do Nord Stream 1.

Para piorar a situação, o gasoduto Yamal-Europa, que corre pela Polônia e pela Bielorrússia, não é mais uma opção após o Kremlin sancionar em maio a companhia dona da seção polonesa do canal. Moscou ainda tem a possibilidade de reservar espaço em leilões diários, mas é improvável que isso aconteça.

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Com o preço do gás natural mais que dobrando desde o início do ano, a Europa recorre a vias alternativas para reduzir sua dependência energética — até fevereiro, o bloco importava cerca de 40% do combustível que consumia dos russos. Nesta segunda, por exemplo, firmou um acordo para dobrar sua importação de gás do Azerbaijão.

O volume vendido pelo Corredor Sul de Gás, uma rede de gasodutos que ligam o Mar Cáspio à Europa, passará de 8,1 bilhões para 12 bilhões de metros cúbicos. Segundo o memorando assinado pelos 27 países-membros, o pacto com Baku prevê que o volume chegue a ao menos 20 milhões de metros cúbicos em 2027.

— A UE decidiu diversificar para se afastar da Rússia, buscando fornecedores mais confiáveis e estáveis. E estou feliz que podemos ter o Azerbaijão entre eles — disse a presidente da Comissão Europeia, o braço Executivo da UE, Ursula von der Leyen.

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Em paralelo, o primeiro-ministro da Itália, Mario Draghi, começou nesta segunda uma visita oficial à Argélia, onde participará de uma cúpula com o presidente Abdelmadjid Tebboune. Um dos tópicos principais será o gás, e os italianos pretendem “confirmar a associação privilegiada no setor energético”, disse o Gabinete de Draghi.

A Argélia se transformou nos últimos meses na principal fornecedora de gás do país mediterrâneo, ocupando um posto que era da Rússia. Antes do conflito na Ucrânia, Moscou era responsável por 45% do gás natural que chegava à Península Italiana.

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O comércio deve aumentar ainda mais: na sexta, Argel anunciou que incrementará a partir desta semana o volume de gás acordado com o grupo italiano ENI em 4 bilhões de metros públicos. O acordo havia sido firmado durante a última visita de Draghi ao país, em abril, mas os detalhes ainda não eram conhecidos.

Até o fim do ano, o volume adicional vendido a Roma deve chegar a 6 bilhões, atingindo 9 bilhões entre 2023 e 2024. Desde o início do ano, a Argélia já vendeu 13,9 bilhões de metros cúbicos para a Itália, superando em 113% o volume previsto.

A ENI gere com a estatal argelina Sonatrach o gasoduto TransMed, que liga a Argélia à Itália através da Tunísia. Ele tem uma capacidade de até 32 bilhões de metros cúbicos por ano.

Os esforços alternativos, contudo não serão suficientes a curto prazo, e a Agência Internacional de Energia alertou que os países europeus precisam reduzir já seu consumo de gás em preparação para o que pode ser um “inverno longo e duro”.

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O alerta coincide com uma onda avassaladora de calor no continente, principalmente nos países mediterrâneos, que agravada ainda mais o cenário com o aumento da demanda por energia. Além dos problemas com o abastecimento de gás, o ar quente prejudica a captação de energia eólica e a alta temperatura da água não deixa as usinas nucleares funcionarem em sua potência máxima.

O continente recorre novamente ao carvão, o mais poluente dos combustíveis fósseis, pondo em risco sua própria promessa de neutralizar suas emissões até o meio do século — algo essencial para fazer frente às mudanças climáticas e evitar um cataclisma. Com o calor excessivo e poucas chuvas, no entanto, os níveis fluviais estão baixos e dificultam o fornecimento da matéria-prima para as usinas.

Segundo a Agência Internacional de Energia, a Europa precisará salvar cerca de 12 bilhões de metros cúbicos de gás nos próximos três meses para se preparar para o inverno. Mesmo que a UE consiga deixar seus estoques 90% cheios, o que parece improvável, “há um risco elevado de disrupções” caso os russos cortem por completo o fornecimento de gás, disse o diretor da organização, Fatih Birol.

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