Rússia promete resposta 'séria' à Lituânia por bloqueio de cargas enviadas a Kaliningrado

A Rússia prometeu nesta terça-feira “sérias” retaliações contra a população da Lituânia, após o país-membro da União Europeia (UE) bloquear o trânsito ferroviário de produtos submetidos a sanções do bloco para Kaliningrado, um exclave russo no Mar Báltico. O imbróglio acirra as tensões entre Moscou e Bruxelas, elevadas desde que a invasão russa na Ucrânia desencadeou a pior crise de segurança na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

O bloqueio, segundo o Kremlin, é “sem precedentes” e “ilegal”. Falando de Kaliningrado, Nikolai Patrushev, secretário do Conselho de Segurança Russo, disse que o governo “certamente responderá a ações tão hostis” e medidas adequadas serão tomadas em breve contra a Lituânia, ex-república soviética que hoje também integra a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar comandada pelos americanos.

— Estamos elaborando em nível interministerial medidas adequadas que serão adotadas em breve — disse o aliado do presidente Vladimir Putin, citado pela agência Interfax, afirmando que o bloqueio é uma “violação da lei internacional”. — Haverá sérias consequências negativas para a população da Lituânia.

A Chancelaria russa também convocou o embaixador da UE em Moscou, Markus Ederer, em um “forte protesto”, demandando a restauração imediata dos serviços para Kaliningrado, que fica entre a Lituânia e a Polônia, também país-membro do bloco europeu e da Otan. Logo, ambos são protegidos pelo princípio de defesa coletiva da aliança militar.

Bruxelas, contudo, disse que Ederer não foi convocado, mas sim visitou o Ministério das Relações voluntariamente para explicar as ações:

— Ele transmitiu nossa posição sobre a agressão da Rússia contra a Ucrânia e explicou que a Lituânia está implementando sanções da UE e não há bloqueio, e pediu que eles se abstenham de medidas e retóricas que aumentem a tensão — disse o porta-voz Peter Stano.

As medidas de Vilna são uma resposta à invasão russa na Ucrânia, que no dia 24 entra no seu quinto mês. Os europeus e americanos responderam ajudando Kiev com armas para lutar contra os russos e com sanções maciças que pressionam a economia russa e causam um êxodo de investidores estrangeiros.

As restrições recém-adotadas pela Lituânia entraram em vigor no sábado e afetam cerca de metade dos produtos transportados de trem para Kaliningrado, território tomado da Alemanha em 1945, após a Segunda Guerra Mundial. As trocas por mar e pelo ar, contudo, continuam.

Os produtos afetados incluem o aço e outros metais originários da Rússia. A decisão de barrá-los, disse o chanceler lituano, Gabrieilus Landsbergis, foi tomada após consultas e sob diretrizes da Comissão Europeia. No mês que vem, segundo sanções anunciadas em março, a lista será expandida para incluir também o cimento.

— Não há um bloqueio de Kaliningrado — disse a primeira-ministra da Lituânia, Ingrida Simonyte. — O trânsito de todos os outros produtos que não estão sancionados ou não são passíveis de sanções está acontecendo, tal qual o trânsito de passageiros por meio de um acordo especial entre a UE, a Rússia e a Lituânia.

A pressão, contudo, deve aumentar gradualmente conforme o veto ao carvão russo entrar em vigor em agosto e à gasolina e ao diesel, alguns meses depois, disse o governador local, Anton Alikhanov. Ele, ainda assim, buscou minimizar o impacto, afirmando que os produtos serão enviados por navio de São Petersburgo, com a primeira embarcação saindo na sexta.

Apesar dos impactos para a economia russa, Putin disse nesta terça estar “orgulhoso” da ação de seu Exército durante aquilo que o Kremlin chama de “operação militar especial na Ucrânia”. Os soldados, disse ele, “atuam com valentia, profissionalismo e verdadeiros heróis”.

Até o meio do século, Kaliningrado era conhecida como Koenigsberg, uma cidade fundada por cavaleiros teutônicos no século XIII, que chegou a ser capital da Prússia. Com o fim da Segunda Guerra, que causou danos extensos na região, deixou de ser território da Alemanha e foi anexado pelos soviéticos, sendo rebatizada em 1946 após a morte do bolchevique Mikhail Kalinin, um dos fundadores da União Soviética.

Durante o período soviético, transformou-se em uma zona militarizada fechada e uma das regiões mais armadas do país. Sua economia girava em torno das Forças Armadas, entrando em declínio junto com o colapso da URSS. Se até hoje é geograficamente estratégica para Moscou, abrigando Frota Báltica russa e seu único porto europeu cujo funcionamento não é prejudicado pelo inverno, seu desenvolvimento ocorreu em outro compasso.

A região era uma grande produtora agrícola, mas perdeu mercado com o colapso soviético, fazendo a pobreza e o desemprego dispararem, assim como o crime organizado. Moscou lhe deu, no meio dos anos 1990, um status econômico especial e abatimentos fiscais que atraíram investidores, mas o boom durou apenas até a crise econômica de 2007.

Os atritos com a UE vêm aumentando gradualmente desde que a Lituânia se juntou à UE em 2004, impossibilitando a viagem entre Kaliningrado e o resto do território russo, fosse por carro ou por ferrovia, sem cruzar ao menos um país do bloco europeu. As desavenças pontuais eram principalmente creditadas ao tráfego de produtos e sua regulamentação. As tensões, contudo, nunca chegaram aos níveis atuais.

Na segunda, a Chancelaria russa já havia alertado o embaixador da Lituânia em Moscou que poderia agir para “proteger seus interesses nacionais” ao menos que o bloqueio seja revertido. O porta-voz de Putin, Dmitry Peskov, por sua vez, disse que a situação é “muito, muito séria e demanda uma análise muito profunda antes de preparar quaisquer medidas ou decisões”, que devem ser tomadas nos próximos dias.

Em resposta, o ministro da Defesa lituano, Arvydas Anusaukas, afirmou que o Kremlin pode “continuar a assustar os países europeus com seus meios militares, mas não vamos perder a capacidade de ver distinções entre desinformação, propaganda e possibilidades reais”.

Segundo a Interfax, a Frota Báltica russa, que acabou de encerrar 10 dias de exercícios de ampla escala, anunciou nesta terça que irá realizar disparos de artilharia e missões submarinas no Golfo da Finlândia.

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