Rússia retoma envio de gás para Europa pelo Nord Stream 1, aliviando temores de corte permanente

Gasoduto Nord Stream da Rússia voltou a funcionar apesar dos temores
Gasoduto Nord Stream da Rússia voltou a funcionar apesar dos temores

A Rússia retomou nesta quinta-feira o envio de gás pelo gasoduto Nord Stream 1 após dez dias de manutenção. A notícia alivia os temores de que o transporte não fosse retomado, afundando a economia de uma Europa que faz de tudo para reduzir sua dependência energética de Moscou e corre o risco de não ter gás suficiente para se aquecer no inverno boreal.

O envio foi retomado por volta das 6h, horário alemão, a um fluxo de 40% da capacidade total — o mesmo registrado antes dos reparos. A estatal russa Gazprom ainda não se pronunciou, mas sustentava há dias que o fechamento para manutenção, que começou no dia 11, não significaria uma interrupção permanente das exportações de gás.

“Estamos no processo de retomar o transporte de gás, mas pode levar algumas horas até que os volumes sejam atingidos”, disse a operadora da Nord Stream 1 em um comunicado.

Klaus Müller, o chefe da agência alemã responsável pelo monitoramento dos gasodutos que cruzam o país, disse que a empresa russa indicou que retomaria as exportações a cerca de 30% de sua capacidade total. Outras ordens, contudo, indicam que deve ficar ao redor de 40%, e o envio pode demorar algumas horas para se reestabelecer.

Os cortes no fornecimento de gás se intensificaram entre maio e junho, com os russos pondo a culpa no atraso na manutenção de uma turbina que ficou presa em Montreal. O equipamento fora barrado devido às sanções impostas contra Moscou pelos Estados Unidos e seus aliados ocidentais — entre eles o Canadá — em retaliação à guerra na Ucrânia.

O Ocidente rejeitou as justificativas, afirmando que o corte é uma resposta do presidente Vladimir Putin às sanções para isolar o Kremlin e minar sua capacidade de financiar a guerra. Capitaneados pelo governo do chanceler alemão Olaf Scholz, diziam que os russos usavam o combustível como uma arma de guerra. O governo canadense, contudo, permitiu na semana passada a viagem do equipamento, mas ele ainda não chegou em Moscou.

Putin, durante uma visita a Teerã na terça, disse que a Gazprom poderia enviar apenas “metade do volume pretendido” — ou seja, cerca de 20% da capacidade total — após o fim da manutenção. Apenas duas turbinas funcionam em uma estação de compressão russa e outra delas precisa ir para o Canadá para reparos.

Para evitar uma queda ainda maior, disse Putin, era importante que o equipamento em trânsito chegue rápido. As sanções, argumenta o Kremlin e alguns especialistas, complicam procedimentos até em tão corriqueiros.

— Eu acho que toda essa saga das turbinas significa que a Rússia está na realidade tentando preservar seu fluxo para a Europa, e não limitá-lo — disse ao New York Times Katjia Yafimava, pesquisadora no Instituto Oxford para Estudos Energéticos.

Nos últimos meses, contudo, o envio de gás russo foi completamente suspenso para países como Bulgária, Polônia, Finlândia, Holanda e Dinamarca, que se recusaram a acatar os termos do Kremlin para a venda do produto. Os russos demandam que o pagamento seja feito em rublos, algo que possivelmente violaria as sanções de Bruxelas.

Com a segurança energética da Europa nas mãos de Putin, o preço do gás disparou no continente, aumentando mais de 700% desde o início do ano passado. A notícia da retomada no Nord Stream 1, contudo, foi bem vista pelo mercado: após a abertura das bolsas, o preço do gás chegou a cair 6,5%. Por volta das 5h da manhã em Brasília, registrava uma queda de 2,9%, sendo negociado a 150,50 euros.

— O incentivo russo para retomar o envio de gás é o lucro significativo — disse ao NYT Kaushal Ramesh, analista da Rystad Energy, uma consultoria do ramo, endossando a visão de que o lucro será usado para custear a invasão, após o chanceler Sergei Lavrov afirmar que os objetivos da guerra mudaram e vão além do Leste ucraniano.

O gasoduto que cruza o Mar Báltico tem a capacidade de transportar 55 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano. Até o começo da invasão, em 24 de fevereiro, a Rússia fornecia sozinha cerca de 40% do gás consumido pela União Europeia (UE) — a dependência é tamanha que mesmo a retomada com fluxo reduzido não deve ser suficiente para que o continente armazene gás suficiente para se aquecer durante o inverno.

Na quarta, a Comissão Europeia, o braço Executivo do continente, já havia pedido que os países do bloco reduzissem seu consumo de gás em 15% nos próximos oito meses para compensar a queda na oferta russa. Os cortes, defendeu Bruxelas, devem ser obrigatórios em caso de emergência.

— A Rússia está nos chantageando, usando o gás como arma — disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apresentando o plano de Bruxelas, que ainda precisa do aval dos 27 países-membros do bloco. — E, se houver uma grande redução ou mesmo uma interrupção completa no fornecimento de gás (russo), a Europa terá que estar preparada.

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