Rússia retoma envio de gás para Europa pelo Nord Stream 1, aliviando temores de corte permanente

A Rússia retomou nesta quinta-feira o envio de gás à Alemanha pelo gasoduto Nord Stream 1 após dez dias de manutenção. A notícia alivia os temores europeus de que o transporte não fosse reiniciado, o que afundaria ainda mais a economia de uma União Europeia ainda dependente das exportações energéticas de Moscou. As incerteza, contudo, ainda são muitas.

O gás começou a fluir pela manhã a 40% da capacidade total do Nord Stream — o mesmo ritmo de antes dos reparos — segundo informações de diversas compradoras europeias, entre elas a alemã Uniper. A estatal russa Gazprom ainda não se pronunciou, mas insistia há dias que o medo ocidental de uma paralisação permanente era infundado.

“Estamos no processo de retomar o transporte de gás, mas pode levar algumas horas até que os volumes sejam atingidos”, disse em nota a Nord Stream AG, consórcio responsável pelo gasoduto que cruza o Mar Báltico da Rússia à Alemanha.

Com a notícia desta quinta, o preço do gás europeu caía 5,7%, com o megawatt-hora sendo negociado a 146,25 euros às 13h em Amsterdã (8h em Brasília). Mais cedo, chegou a despencar 6,5%.

A retomada do abastecimento, segundo a Uniper, ajuda o mercado europeu, mas a situação ainda é preocupante. Até o começo da invasão na Ucrânia, em 24 de fevereiro, a Rússia fornecia sozinha cerca de 40% do gás consumido pela União Europeia (UE) — a dependência é tamanha que mesmo a retomada com fluxo reduzido não deve ser suficiente para que o continente abasteça seus estoques para o inverno.

Na Alemanha, os estoques estão na casa de 65%, bem menos que a meta de 90% do governo. Se o fluxo se mantiver no mesmo patamar da semana anterior às reformas, levará cerca de dois meses para que o objetivo seja atingido.

Apesar da retomada, disse a ministra de Relações Exteriores do país, Annalena Baerbock, a Rússia continua a usar "a dependência energética como uma arma". A declaração é similar à feita na quarta pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao anunciar o plano do braço Executivo da UE para que seus países-membros reduzam seu consumo de gás em 15% nos próximos oito meses para compensar a queda na oferta russa.

Os cortes, contudo, precisam ser aprovados pelos 27 países do bloco, algo cuja viabilidade parece em xeque neste momento diante dos impactos que não poupariam casas e indústrias. Itália, Polônia, Grécia e Hungria apresentaram objeções ao plano nesta quinta, um dia após Portugal e Espanha fazerem o mesmo.

O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, rechaçou o tom bélico do continente, afirmando que as interrupções no Nord Stream "não dizem respeito a qualquer pressão ou chantagem". Segundo ele, as declarações de Baerbock e Von der Leyen são "absolutamente incorretas", culpando os problemas na manutenção do gasoduto às sanções ocidentais.

Os russos creditam os cortes iniciados em junho ao atraso na manutenção de uma turbina que ficou barrada em Montreal devido às sanções capitaneadas pelos Estados Unidos e pela UE para isolar o Kremlin e minar sua capacidade de financiar a guerra. Depois de gestões diplomáticas de Berlim, o governo canadense permitiu na semana passada que o equipamento viajasse, mas ele ainda não chegou ao território russo.

Putin, durante uma visita a Teerã na terça, afirmou que a Gazprom poderia enviar apenas “metade do volume pretendido” — ou seja, cerca de 20% da capacidade total — já nos próximos dias a menos que a peça em trânsito seja entregue em breve. Somente duas turbinas funcionam em uma estação de compressão russa, disse ele, e uma delas também precisa viajar para o Canadá para passar por reparos.

O Ocidente sustenta que os problemas técnicos são uma cortina de fumaça para a retaliação pelas sanções, e aponta para a suspensão do envio de gás para países como Bulgária, Polônia, Finlândia, Holanda e Dinamarca, que se recusaram a acatar os termos do Kremlin, que exige que o pagamento seja feito em rublos.

Com a segurança energética da Europa nas mãos de Putin, o preço do gás disparou no continente, aumentando mais de 700% desde o início do ano passado. Ele perdeu força nos últimos meses, mas ainda continua muito elevado, sendo uma das forças-motrizes do aumento do custo de vida mundial.

"Manter o fluxo, mas a nível reduzido, é favorável para a Rússia", disse um relatório escrito por Tim Patridge, que chefia o setor de transições energéticas da consultoria DB Group Europe. "Isso permite ao Kremlin continuar a usar o oleoduto para aumentar a volatilidade, enquanto acumula vastos lucros com os preços energéticos inflados."

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