Rússia volta ao acordo de grãos depois de dizer que recebeu garantias de Kiev

A Rússia anunciou nesta quarta-feira que vai retomar sua participação no acordo de exportação de grãos ucranianos através do Mar Negro, depois de ter recebido "garantias por escrito" da Ucrânia sobre a desmilitarização do corredor usado para o transporte dos cereais. O pacto estava suspenso desde sábado, depois de um ataque com drones contra navios russos baseados na Península da Crimeia, anexada por Moscou em 2014.

"A Rússia considera que as garantias que recebeu até agora parecem suficientes e retomará a implementação do acordo", disse o ministro da Defesa russo, Sergei Shoigu, no Telegram.

A informação foi confirmada pela Turquia, que junto à ONU foi a mediadora do acordo, assinado em 19 de julho por ambas as partes.

— Os embarques de grãos continuarão a partir das 12h de hoje (6h em Brasília), conforme planejado — disse o presidente Recep Tayyip Erdogan ao Parlamento turco, após uma ligação entre seu ministro da Defesa, Hulusi Akar, e Shoigu.

Desde que o pacto foi estabelecido, cerca de 10 milhões de toneladas de grãos ucranianos foram exportados pelo Mar Negro. O acordo, que deveria ser renovado em 19 de novembro, permitiu aliviar a crise alimentar global desencadeada após a invasão da Ucrânia pela Rússia no final de fevereiro.

Moscou, no entanto, anunciou no fim de semana que estava suspendendo sua participação indefinidamente depois de acusar a Ucrânia de um ataque "massivo" à sua frota do Mar Negro ancorada na Crimeia. O Kremlin alegou que o incidente mostrou que as águas usadas para transportar os grãos não eram seguras.

Desde então, o status do acordo estava incerto, embora alguns embarques previamente autorizados tenham continuado até terça-feira, quando três navios de carga transportando milho, trigo e óleo de girassol deixaram os portos ucranianos e estavam viajando para o sul em direção a Istambul, segundo o aplicativo VesselFinder, de rastreamento de embarcações, e Ismini Palla, porta-voz da ONU, segundo a qual as autoridades russas foram notificadas das partidas.

O pacto, primeiro com a participação de Kiev e Moscou desde a invasão russa da Ucrania em fevereiro, estabeleceu rotas seguras para o trânsito dos navios dos portos ucranianos até Istambul, e criou um centro de coordenação com representantes das quatro partes baseado na cidade turca.

O presidente Vladimir Putin, da Rússia, havia deixado a porta aberta para a retomada do acordo, dizendo a repórteres nesta semana que “não estamos dizendo que estamos encerrando nossa participação na operação”.

Na terça-feira, a agência russa Tass informou que Putin havia dito ao presidente turco em um telefonema que queria uma "investigação detalhada" do ataque à frota russa e "garantias reais" de que Kiev não usaria os corredores de grãos no Mar Negro para fins militares. "Só depois disso seria possível considerar a retomada da 'iniciativa do Mar Negro'", disse Putin em um comunicado à imprensa.

A postura de Moscou provocou uma repreensão dos Estados Unidos. Ned Price, porta-voz do Departamento de Estado, disse na terça-feira que a suspensão do acordo pela Rússia “teve um impacto imediato nos preços globais dos alimentos” e que os navios nos portos do Mar Negro estavam “carregados” e “prontos para partir”, incluindo um com trigo destinado à resposta de emergência no Chifre da África, onde a fome está aumentando na Somália.

— Qualquer decisão do Kremlin de interromper essa iniciativa é essencialmente uma declaração de que Moscou não se importa — disse Price. — Moscou não se importa se o mundo passar fome. Moscou não se importa se as pessoas passam fome. Moscou não se importa se a crise de insegurança alimentar mundial for agravada.